Regressar a Portugal, seja definitivamente ou apenas em época de férias, é um momento de alegria e emoção para muitos emigrantes que vivem pelo mundo fora. Joana Vieira esteve mais de uma década por terras belgas e, dentro de dias, já estará em Portugal, na freguesia de Avessadas e Rosém, Marco de Canaveses, de forma permanente.

Quando fez 18 anos, a jovem percebeu, depois de ter terminado o ensino secundário e de não ter conseguido “ir para a universidade por questões financeiras”, que as oportunidades de trabalho que tinha disponíveis não eram muitas. O namorado na altura, agora marido, também não estava satisfeito com as condições do seu trabalho, então, decidiram “tentar uma aventura” e emigrar.

Fizeram as malas Joana Vieira e o namorado, bem como os pais e o irmão em direção à Bélgica. A escolha foi essa uma vez que a jovem tinha uma prima a viver lá que lhe podia dar emprego na sua empresa de limpezas. “Os meus pais também já queriam ter emigrado mais cedo para a beira da minha prima e não o tinham feito porque eu não queria. Estava a acabar o secundário e dizia mesmo que não queria sair de Portugal, mas, quando fiz 18 anos, realmente, as condições de trabalho não estavam a ser as melhores. Então, decidimos vir todos juntos e, na altura, o meu namorado disse que vinha também”, recorda.

Joana Vieira já foi com emprego garantido e o namorado começou por trabalhar numa estufa de cogumelos e depois conseguiu ir para uma padaria onde esteve durante cerca de seis anos. Atualmente, trabalha num armazém de logística de roupa de marca e a jovem está num escritório de recrutamento.

Apesar de sublinhar que, “no geral, o balanço é positivo”, o primeiro ano, “principalmente, foi muito difícil”. Na parte do país onde vivem, Herenthout, no distrito da Antuérpia, o idioma é “um género de holandês” e, por isso, “muito complicado”. Além disso, nessa zona também “há mais preconceito”, até porque foram “os primeiros portugueses a chegar a esta aldeia, mas, hoje em dia, há muitos” e as pessoas “começaram a ter a mente mais aberta”.

Contudo, esforçaram-se para conseguirem a adaptação e inscreveram-se num curso de integração e para aprenderem a língua, à noite. “Hoje, sabemos falar holandês fluentemente”, garante ao Jornal A VERDADE, explicando que, assim que conseguiu inteirar-se mais da língua, “começou a ser mais fácil, começou a ser diferente”.

Passado um ano, Joana Vieira e o marido vieram a Portugal casar-se e, mais tarde, vieram as três filhas, nascidas na Bélgica, tendo a mais velha sete anos, outra quatro e a mais nova um.

A ideia de regressar a Portugal veio exatamente pelas filhas. “Durante estes anos, ainda estávamos indecisos se iríamos ficar aqui, voltar a Portugal, porque o balanço é positivo e aqui há coisas que, realmente, funcionam melhor, mas há coisas também que funcionam melhor aí e uma das nossas vontades sempre foi que, se um dia tivéssemos filhos, o crescimento deles queríamos que fosse aí, com a nossa cultura, com as nossas tradições”, conta, indicando que tinham como idade limite os 10 anos da filha mais velha. Contudo, o facto de a menina sentir-se belga e “não se sentir bem como portuguesa”, devido a várias conversas e atitudes que demonstra, fez “refletir” se queriam mesmo “esperar os 10 anos e depois tornar a mudança ainda mais complicada para ela ou se seria melhor mudar agora”.

Domingo, o casal já vai estar no voo de regresso permanente ao país que os viu nascer. Na Bélgica, ficam os pais e o irmão de Joana Vieira. Se por um lado a ida “não custou muito”, já que levou os pais e o irmão consigo, o regresso já não é bem assim. “Ao meu marido custou mais. Ele já está há três, quatro anos a dizer ‘Vamos’. Sou apegada aos meus e os meus mais próximos vieram comigo. Nesse sentido, vai custar-me mais agora voltar a Portugal, porque eles vão ficar, do que quando vim. Como eles vão ficar aqui, isso é o que ainda me deixava mais balanceada em ir”, sublinha, explicando que conseguiu “manter o contacto” com os amigos que deixou cá.

Os pais “querem muito voltar para Portugal”, só não o fazem já porque o irmão fica. “Optam por ficar cá mais um tempo, se não for mais, até à reforma, porque, claro, depois conseguem levar uma melhor reforma daqui”, sublinha.

Aos restantes emigrantes espalhados pelo mundo fora, Joana Vieira aconselha: “Há muitos momentos em que vamos abaixo. O que me custava também quando estava longe era, por vezes, ver as romarias e certas coisas da nossa terra, as nossas festas e não poder estar presente. Casamentos e batizados não dá para ir a tudo. Há uma vida toda em jogo. Que tenham força nesses momentos. No fim, vai compensar. Quando vier a decisão de voltar vai ser bom. Tentarem pensar que os momentos negativos dão para darmos valor ao que vai vir e vai sempre vir muita coisa boa”.