Os doentes diagnosticados com Parkinson veem a sua vida dar uma volta de 180 graus, com alterações a nível pessoal e também profissional. Contudo, não é apenas a vida dos doentes que muda. Quando surge a doença, nasce também um cuidador informal, figura essencial, que muitas vezes não é valorizada. Alguém que dedica o seu dia a cuidar destes doentes. É o caso de Fernanda Barros, de 71 anos, que foi cuidadora informal do seu marido durante dezenas de anos.

A doença de António Teixeira foi descoberta aos 57 anos, mas já há vários anos que alguns comportamentos deixavam a esposa em estado de alerta. “Cheguei a dizer aos médicos e eles diziam que não era nada. Até que um dia, um médico, só pelo andar, disse que ele tinha alguma coisa”, começou por contar.

Seguiu-se uma consulta num neurologista, que descartou a possibilidade de doenças do foro mental. Mas Fernanda e as suas duas filhas não desistiram e procuraram uma segunda opinião. “Fomos a uma consulta com o Dr. Jorge Reis, que foi um santo que apareceu nas nossas vidas. Só pelo andar começou a desconfiar de algo e pediu exames, que foram feitos no Hospital de São João. Poucos dias depois foi diagnosticado com Parkinson e demência”, recordou.

A partir desse momento, António Teixeira foi acompanhado naquele hospital. “Não foi fácil, já estava um pouco avançado. Começou a tomar medicação certinha e com as consultas de rotina consegui amenizar os sintomas, mas já não conseguia fazer quase nada sozinho”, disse.

Contudo, em setembro de 2016, e depois de uma festa de família, o pior aconteceu: “deixou de andar e acamou, sem explicação, foi de um dia para o outro. Passava os dias na mesma posição e eu dedicava-lhe os meus dias. Foi um grande sinal na minha vida, porque aprendi e cresci muito”, admitiu.

Fernanda Barros dedicou, então, os seus dias a tomar conta do seu marido, com a ajuda das duas filhas, Paula e Sónia, e também com o apoio do Centro Social de Carvalhosa e das enfermeiras dos Cuidados Continuados. “É bom para estes doentes terem uma pessoa meiga, que os acompanhe e que lhes dê carinho. Eu era essa pessoa e ele era um amor”, afirmou, emocionada.

Passado cinco anos de ter acamado, António Ribeiro não resistiu e acabou por falecer. Fernanda Barros acredita que fez “tudo” o que estava ao seu alcance. “Foi muito duro, mas ao fim destes cinco anos acho que valeu a pena. Fiz tudo por ele. As minhas filhas também foram incansáveis e deram-lhe todo o amor do mundo”, sublinhou.

Nos dias de hoje “fica a saudade” daquele que foi o amor da vida de Fernanda Barros. “Ele tinha muita fé, por vontade dele eu estava sempre a rezar e a cantar. Eu só tenho medo de não ter tanta paciência como ele teve para sofrer e de não conseguir ser aquilo que ele foi”, constatou.

Por fim, a cuidadora deixa uma mensagem a todas as pessoas que estejam a passar pela mesma situação: “semeiem aquilo que um dia vão colher. Semeiem uma semente boa. Estou convencida que tudo o que fiz não foi em vão. Cuidei dos meus pais, dos meus sogros e do meu marido. Hoje sinto-me feliz porque sei que fiz tudo por eles. Quem for cuidador, tem de cuidar com amor e carinho”, finalizou.

“Nem conseguia segurar no telefone devido aos tremores”

Quando normalmente falamos em Parkinson, uma doença neurodegenerativa, associamo-la quase de imediato a pessoas mais velhas.

Contudo, nem todos os casos são descobertos com o avançar da idade. Para assinalar o Dia Mundial da Doença de Parkinson, que se celebra esta segunda-feira, dia 11 de abril, o Jornal A VERDADE traz-lhe o testemunho de ‘João’, um marcoense que optou por não revelar a identidade e que descobriu a doença com menos de 40 anos.

Apesar de, na época, não associar a esta doença, ‘João’ refere que os primeiros sintomas surgiram com “18,19 anos”. “Tinha umas botas da marca Dr. Martin e não as conseguia arrastar, para mim, eram muito pesadas”, recorda. Contudo, apenas mais tarde é que se associou este sintoma à doença. “Tinha também problemas de depressão e ansiedade, que hoje sei que estão associados ao Parkinson”, frisou.

No entanto, a doença só foi descoberta passado dez anos. “Comecei com tremores e fui a uma consulta. Nem conseguia segurar no telefone. Depois de fazer exames, veio o diagnóstico: Parkinson Juvenil, hereditário”, contou.

Após descobrir a doença, começou “a pesquisar na internet” o que não ajudou. “Todos os sintomas descritos eu tinha, o que não foi fácil. Hoje já não sou assim, vivo um dia de cada vez”, disse.

Quanto à vida familiar, ‘João’ tenta que os seus dias sejam “os mais normais” possíveis. É casado e tem duas filhas, que são o “suporte” para enfrentar as adversidades do dia a dia. “A minha mulher e as minhas filhas são um grande apoio. Tenho de manter a medicação, acredito que se não fosse isso já não me conseguia levantar. Mas mantenho-me ativo para contrariar a evolução da doença”, sublinhou.

Atualmente, ‘João’ é seguido no Hospital de Santo António e mantém-se ativo apesar de não trabalhar. “A memória é que às vezes já me falta. Mas levanto-me todos os dias para enfrentar esta doença”, concluiu.