Há vinte anos que Rosa e António começaram por planear o Natal que viria vinte anos depois, queriam fazer dele uma construção paciente e não se prendiam com o apressamento que lhes incutiam alguns familiares e amigos, mais a TV e os grandes armazéns de compras. Queriam uma construção sólida, camada a camada.

Fizeram um projeto ano após ano, rejeitaram o que não queriam. Inicialmente, formaram a longa lista dos lugares comuns que o Natal ocupava e acreditavam não estar na essência do ser natalício. Constavam dos seus apontamentos renas, ruas, o comboio, o trenó, as bolas, as luzinhas, os arcos de rua, os presentes, as árvores e pais natais iluminados gigantes, o bolo rei, os gorros e os duendes, tudo o que era presente tecnológico, mas também presentes como as camisolas, os perfumes, chegaram mesmo a identificar o azevinho e o pinheiro de Natal.

O centro das suas dúvidas saía sempre da interrogação de como explicariam a alguém, adulto ou jovem, mas sobretudo a uma criança o que era o Natal. Não queriam que o que criassem de novo, de futuro, fosse algo de caráter vazio e incompleto. Continuaram a rejeição ao que lhes pareciam ser os lugares comuns.

No decurso dos anos a ausência dos símbolos afastava-os das comemorações da época. A nitidez com que colocaram de parte a imensidão de objetos, cores e sons separou-os da vivência que todos à sua volta faziam. Na mesma medida em que a separação avançava perdiam- -se os laços daqueles que os rodeavam.

Era genuína a sua preocupação e sentimentos, e ainda legítimos. Não queriam que no final de tudo restassem objetos que substituíam outros objetos e caíssem no enredo de tudo quererem preparar, a tudo quererem responder, que, ano após ano, o tempo à sua volta tudo consumisse, até o sentido de partilha que vem com o Natal. Tal como o fogo num punhado de caruma. Faz lume alto, aquece, mas em poucos segundos desvanece e mais rápido fica cinza.

Cada um, Rosa e António, tinham uma centelha de orgulho, outra de preocupação, ainda outra de pureza, uma última de esperança. Queriam construir uma estrutura só[1]lida e bela, clara como uma casa branca, que o consumo do dia a dia não abalasse, onde o tempo pudesse estar sob o seu controlo e se transformasse em disponibilidade, em atenção.

Queriam a construção do próprio tempo, que resultasse no seu prolongar. Na atenção com que se olha para o que nos rodeia, com que se olha para os outros, que se coloca nos símbolos, com que se partilha uma refeição, a família, a alegria dos amigos, as cores, as luzes e os sons de Natal. Que faz replicar noutros o olhar que tudo isto vê.

O Natal tem uma condição de tempo, de disponibilidade e entrega aos outros, à comunidade e a nós. Precisa de tempo. O Natal dos lugares comuns tem no verso outro Natal.

Texto de Gabriel Carvalho.