Qual é a semelhança entre uma mesa farta, onde já mal cabe o galheteiro, e uma refeição humilde? A reserva ao silêncio para uma oração e a azáfama das compras de última hora? Jesus Cristo e o Pai-Natal?

Em tudo isso há ‘espírito natalício’.

Ora, o espírito natalício pode ser entendido como uma ambiência e/ou uma predisposição especial para celebrar a quadra. E isso, variando de pessoa para pessoa, pode ser muitas coisas diferentes – uma festividade religiosa, a família reunida, as ruas engalanadas de luz e cor, as prendas, o espírito de missão e entreajuda, o convívio, as rabanadas ou a posta do fiel-amigo regada com azeite. Pode até manifestar-se num boné com antenas de rena a bater palmas…

 Junte-se a isso o facto de a época começar cada vez mais cedo. Este ano, por exemplo, a primeira referência ao Natal que vi foi um anúncio em fins de Outubro! Por este andar, qualquer dia veremos passar na praia uma avioneta a promover os chocolates do Ambrósio. Ou então aquelas bolas da Nívea como havia antigamente, só que embrulhadas em papel dourado e amarrotado. Senão isso, conte-se pelo menos com um pai-natal a vender bolas de Berlim, entoando o pregão:

– ‘BOLINHAS! É COM CREME E SEM CREME! HO! HO! HO!

Vá, esperemos que não… Brincadeiras à parte (por enquanto), sendo o Natal uma festividade à qual é impossível escapar, e em que toda a gente celebra à sua maneira ou alguma coisa, os valores acabam por coabitar em contradição. Não é uma questão de as pessoas serem boas ou más – neste campo, somos todos (mais ou menos) farinha do mesmo saco, tão capazes das práticas boas como das menos boas. É exactamente por nos dispormos mais, nos abrirmos e convivermos, que mais saltam à vista os nossos defeitos e as nossas virtudes.

Assim sendo, é possível o fausto e o consumismo conviverem com a abnegação dos bens materiais; dar-se a vaidade harmoniosamente com a humildade; a solidariedade perder-se num laivo de egoísmo. Há paz mas também há familiares que preferiam não ter de se encontrar; há satisfação e alegria mas poucos homens a levantar a mesa e a lavar a louça; e há sempre – nunca falha – de boa ou má-fé, alguém a puxar o assunto dos solteiros que tardam em dar o nó. O sorriso de uns é a falta de paciência dos outros. Os adultos em acirrada conversa política servem aos jovens o pretexto para uma fugaz cigarrada. E tudo isto é certinho e repetido como o escolhido para se fantasiar de pai-natal já aparecer às crianças a suar do bigode e, muito provavelmente, com uns copos de tinto no bucho.

Invariavelmente, o Natal tem tanto de sagrado como de tragicómico. E ainda bem. Fosse a época celebrada com mais solenidade e perder-se-ia alegria e inocência. Deixaria de ser a quadra das crianças. E não é só pela adrenalina das prendas. O convívio e as brincadeiras com os primos, por exemplo, é fundamental para criar laços familiares mais fortes e duradouros, alianças para a vida.

Quantos de nós não recordam esses momentos como os mais felizes de toda a infância? Quantos de nós podem gabar-se de poder continuar a celebrar com as mesmas pessoas, sem perdas nem baixas?

Quando somos crianças, o mundo inteiro apresenta-se-nos à frente à distância da mão e tudo é interessante, tudo serve para brincar – o tédio é uma invenção dos adultos; dormir é um estorvo que atrapalha a urgência de viver.

É possível que uma grande parte do nosso ‘sentido’ resida neste encantamento infantil pela vida, num vigor de existir, numa sincera generosidade para com o próximo.

Também estes, creio, valores a recuperar para o ‘espírito natalício’.

Festas Felizes.

Texto redigido por Pedro Correia.