Era fim de tarde com a escuridão a chamar a noite para que as duas se fizessem uma na surdina sem paixão que se agarra às pedras das casas desta cidade. Estava frio, estava nevoeiro e havia uma memória de Natal, sem ainda se dizer o nome, que se infiltrava nas ruas da cidade, nas luzes das montras e nas mãos que se guardavam nos bolsos como segredos quentes.

O homem estacionou o carro perto do portão de entrada da escola e preparou-se para a espera. Tinha chegado mais cedo do que o necessário e ainda faltava algum tempo para que as aulas acabassem, o filho saísse e pudessem ir para casa. Lá fora, o movimento da cidade, a preparar-se para recolher, era apressado e embrulhado nos sobretudos de onde emergiam umas cabeças mais ou menos contentes e outras mais ou menos tristes para que a média do mundo se concretizasse. Fechavam-se as lojas e apagavam-se algumas luzes desnecessárias ao vazio, enquanto os passeios ganhavam espaço para ver as estrelas que, com aquele tempo, não passavam de uma memória.

Desdobrou o jornal e começou a ler as linhas escritas que diziam o mundo como se houvesse uma palma da mão à espera de ser decifrada nas folhas do jornal. O planeta estava do avesso, com a gravidade a duvidar de si, e já nem os anúncios publicitários, a prometer as mais variadas formas de felicidade, conseguiam disfarçar.

Há uma noite mais longa que esta a chegar.

Bateram no vidro do carro. Assustou-se com a quebra do silêncio. Um pedinte estendia a mão enquanto dizia palavras com forma de esmola gasta. Ele, como comportamento treinado, abanou a cabeça e mentiu, dizendo que não tinha nada para dar. Deu conta de ter mentido quando, no olhar contrariado, reconheceu o homem. Descobriu que, quando reconhecemos o homem, esquecemos o pedinte. Os pedintes são um país estrangeiro do outro lado do mundo. Abriu o vidro do carro.

 – Anda por aqui, Doutor? – Disse o homem do lado de fora, com uma voz cansada.

 – Isso digo eu! Realmente, já não o via lá na terra há muito tempo. – O homem do lado de dentro reconheceu-o como uma personagem de todos os dias no lugar onde morava.

– É por causa da metadona. Lá, não me dão, e eu preciso. – A necessidade é o motor do mundo e o alívio da dor é uma necessidade indiscutível.

– Aqui é mais fácil?

– Mais fácil não é, mas tenho metadona. Sabe como é, uma pessoa cai nisto e depois não há como sair. – O peso das consequências mal medidas ou ignoradas cai, quase sempre, com estrondo nos dedos dos pés, colocamos a vida na sorte e depois continuamos como se só houvesse um caminho e esse se lembrasse sempre da dor nos dedos. Há outros, há quase sempre outros, mas passam a ser longe, demasiado longe, do outro lado do deserto.

– Entendo. – Respondeu sem entender absolutamente nada. Concordou apenas para não ficar calado ou para não mostrar o pouco que sabem da vida os homens do lado de dentro. Melhor, talvez até entendesse uma parte, mas as coisas dele eram mais fáceis, os vícios eram mais pequenos ou menos visíveis, daqueles que matam mais devagar, daqueles que levam a pensar que apenas se morre porque esse é o caminho certo da vida.

– Lá na terra é mais fácil. A minha mãe deixava-me dormir na loja e havia sempre uma porta para ir bater quando as coisas corriam mal. – Falou como se imaginasse uma escala da dor a desenhar os anos.

 – E aqui?

– Durmo numa casa abandonada ali em frente, enquanto não fizerem obras, não há problemas. Durmo eu e aquele. – Apontou para outro pedinte, este era um país do outro lado do mar, que se tinha colocado à porta de uma pastelaria ali perto.

– Acha que vai voltar? – A pergunta não tinha esperança.

– Agora no Natal, se tudo correr bem, vou lá em cima. Já falei com a enfermeira do centro e ela disse que era possível. Liguei à minha mãe e vou passar a noite de consoada em casa. Sabe? Tenho saudades, isto não é vida, mas… – Encolheu os ombros e preparava-se para continuar o trabalho antes que as ruas ficassem vazias.

Quase chorou, pensou o homem do lado de dentro.

– Espere. – Tirou uma nota do bolso e entregou-a com a mão fechada com vergonha de quase tudo.

– Obrigado, doutor, Deus o ajude. – Meteu a nota no bolso sem verificar o valor e acenou com o braço uma despedida pouco convicta.

– Um abraço.

– É melhor pedir que roubar. – Riu e foi-se embora com as costas curvas e os passos mal medidos de quem, hoje, não vai chegar a um lugar chamado casa.

O filho abriu a porta, deu um beijo ao pai e perguntou-lhe quem era:

– Acho que… Um Amigo. – Sem encontrar melhor resposta.

Ligou o carro e conduziu-o para casa onde eram esperados para jantar.

Texto Fernando Couto Ribeiro.