O Pai Natal andava bastante preocupado com os seres humanos e não havia nenhuma vacina ou medicamento que pudessem prevenir ou curar a apatia e tristeza coletivas. Para além dos habituais brinquedos, que construía e embrulhava na fábrica de Natal para as crianças que lhe escreveram, resolvera contratar uma equipa especial de duendes cientistas, que descobririam, com a mais alta tecnologia, como fazer as pessoas sorrirem mais.

Seria um presente deveras especial, com uma grande utilidade, assim pensara. Os níveis de felicidade no mundo, medidos na Lapónia, eram baixíssimos, deviam, por isso, encontrar com urgência as cobaias ideais.

Percebendo a evolução favorável da investigação com a construção de uma central e uma antena de sorrisos, o Pai Natal enviara a Portugal, país de gente saudosa, um dos duendes cientistas da equipa, com a incumbência de encontrar uma casa onde instalassem um recetor wireless que distribuísse sorrisos para todas as outras. 

O cientista, de olhar que acompanhava o nariz afilado, avaliava o gps do trenó voador do Pai Natal, mexendo nos óculos que descaiam, para perceber se estacionara no local assinaladamente correto. No meio de caixas de blocos cinzentos, presas por visíveis massas de cimento, surgia efetivamente numa delas, o número indicado, duzentos e quarenta e um, escrito a tinta azul.

Ouvia os sinos das cabras que lambiam o monte de ervas frescas de verde, que se misturavam com os das renas, impacientes por pararem. Levantou-se, ajeitando o gorro e o cinto, que fazia a barriga proeminente, ginasticando as pernas curtas vestidas de collants, paralisadas pela viagem.

O enviado do Pai Natal, Doutor Jeremias, bateu à porta, com a certeza de que acertara na família. Abriu uma mulher terna, porém coberta por um manto pesado e opaco que transportava muitas preocupações e infelicidade. Perguntou, curiosa: 

– O que deseja o Senhor? – olhando-o, com mais atenção, percebeu, completando: – … o Senhor Duende…

– O Senhor Doutor Jeremias Acácio, duende cientista do Pai Natal, apresento-me devidamente. – afirmou, cheio de prosápia. 

Esbugalhou, não querendo acreditar no homem mágico, permanecendo em silêncio. 

– Então, não se apresenta? 

– Sou Maria Aparecida. – disse, tímida. 

– Sim, sim, eu sabia… – começou a rir aos soluços. 

– Como sabia? 

– A verdade, Dona Maria Aparecida, é tão somente esta… o Pai Natal mandou-me, pois levamos a cabo uma grande descoberta para a humanidade. 

– Ah, sim? – questionou, cada vez mais perplexa.

– Sim, o melhor presente para este Natal…. Uma máquina que dará, milagrosamente, mais sorrisos às pessoas, muitos sorrisos. 

– Não posso acreditar… E eu serei útil como?

– Nesta casa haverá uma espécie de router que emite sorrisos para as outras famílias, mas também ajuda a carregar a máquina principal, instalada na fábrica da Lapónia. 

– Como? Não percebi… Como posso ajudá-los se não sorrio por cuidar sozinha, desde a morte dos meus pais, de cinco irmãos, cinco irmãos com deficiência. 

– Nós sabemos bem que cuida, é como uma Mãe Natal de cinco duendes… A sua família foi devidamente estudada pela nossa equipa, pelo próprio Pai Natal.

Estranhou, nunca ninguém quisera saber de si, nem sequer a elogiavam. Em tempos, quisera terminar com a sua própria existência, débil de uma mente carregada de sacrifícios.

– Não acredita!? Tem uma tarefa ainda mais complexa do que lavar e passar a ferro a roupa, cozinhar, mudar fraldas, vestir, despir… 

– Pois, não acredito… – reagiu, indagando: – Haverá algo mais difícil, dias atrás de dias a fazer o mesmo, lidando com adultos que têm um comportamento de bebé? Ainda ontem fui encontrar este no meio da estrada, alcoolizado…  

O buraquinho nos dentes espreitou. Toninho era esguio, com olhos azuis. Trazia uma rodilha nas mãos, que dobrava para desdobrar. 

– Sim, haverá…. Deve continuar a fazer o que faz, pedindo mais ajuda, não se esquecendo de si também, sorrindo nos momentos de maiores dificuldades.

– É muito fácil em teoria, mas na prática…

– Terá de o fazer, sob pena de não conseguirmos que a central de sorrisos na Lapónia funcione devidamente… 

– Está a querer dizer que, se eu não sorrir, as outras famílias sorrirão menos? 

– Sim, o extensor, que será instalado nesta casa e em si, não alimenta a máquina principal e não propaga sorrisos para as outras famílias.

– Que responsabilidade! – exclamou. 

– Pode crer… mas é muito simples… – desprendendo o atilho do saco, retirou uns objetos e explicou: – Teremos de ligar este aparelho ao telefone e colocar no pulso esta pulseira aqui. 

– E que mais? 

– Sorrir. Apenas sorrir. 

– Poderei não aceitar, desistir?

– Não, não pode… nem sequer tem um período experimental… – mentiu, para evitar ter de procurar outra família até ao Natal.

– E se eu tiver alguma dúvida?

– Se tiver alguma dúvida, aciona o botão vermelho da pulseira, comunicando diretamente com o Pai Natal. Só tem de levantar o auscultador para ouvi-lo. Dar-lhe-á ânimo para que continue a sorrir.

Apareceu-lhe um bonito sorriso, que sossegou o cientista, certo de que tudo resultaria. Com a instalação concluída, despediu-se da mulher, que o ficou a ver da porta. Sentou-se no trenó, dando um pequeno impulso com os pés, afias desproporcionais aos lápis coloridos que eram as pernas, fazendo-o levantar voo. 

Regressado à fábrica, a azáfama sentida adivinhava a aproximação do Natal. Presentes de brinquedos corriam para o terminal de transporte. Repentinamente, notou uma mão calorosa nas costas. O duende cientista virou-se: 

– Então, Pai Natal, está tudo pronto? 

– Bravo, está tudo pronto, tudo a funcionar. Os sorrisos não vão nos tapetes, mas invisivelmente chegam, a tempo do Natal, a todas as famílias do mundo.

Texto de Beatriz Meireles, vereadora da Câmara Municipal de Paredes