Ser Mulher

Lídia Correia: Conciliar uma vida a “fazer contas” com o papel de mãe, filha e dona de casa

José Rocha

11-03-2021

Leia um dos 12 testemunhos do especial que o Jornal a VERDADE dedica à mulher ao longo desta semana.

Trabalhar na área de formação é uma realidade que nem todos conseguem concretizar. Num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, multiplicam-se os casos de trabalhadores a desempenhar funções díspares daquela na qual investiram esforço, dinheiro e anos de estudo. Porém, para sua felicidade, Lídia Correia não contribuiu para esta estatística. Formada em Contabilidade e Administração, teve várias experiências na área até que a oportunidade de abrir a própria empresa finalmente surgiu. “Decidi abraçar este projeto, uma vez que a contabilidade era uma área que me fascinava”, recorda.

Hoje, aos 53 anos, Lídia tem a oportunidade de trabalhar naquilo que gosta na C.A.M. - Contabilidade Auditoria do Marco Lda., sediada na freguesia de Vila Boa do Bispo. Contudo, essa felicidade para com a atividade laboral sofreu um ‘abanão’ devido à COVID-19. “Foi sem dúvida, e continua a ser, um período muito difícil, e jamais imaginável, que nos obrigou a encetar uma série de alterações a nível operacional, por forma a se coadunarem com o nosso trabalho e a permitir o cumprimento da entrega das obrigações declarativas dos nossos clientes dentro dos prazos legais”, relata.

Ainda a propósito de um “período mais turbulento”, que tem exigido “uma maior entreajuda entre a equipa”, Lídia deixa uma palavra de apreço aos clientes. “Neste contexto de pânico e de muitas incertezas quanto ao futuro, os nossos clientes ficaram desesperados com o que poderia acontecer. Mas registou-se uma boa aceitação das alterações sugeridas e encetadas”, garante.

Ainda assim, se, por um lado, a pandemia tem impedido Lídia de realizar certas atividades que “ajudavam a libertar o stress” e a “expandir a alma para outras dimensões”, também lhe permitiu “pensar e valorizar o que é o essencial da vida, como por exemplo estar mais tempo em família”.

Até porque, no dia a dia dito ‘normal’, esse desígnio torna-se “muito difícil” de alcançar com a rotina laboral. “Por muito que queiramos separar estes dois espaços, por vezes é inevitável que assuntos profissionais interfiram no espaço familiar e vice-versa. Quando chego a casa, há um conjunto de tarefas diárias que têm de ser feitas e, apesar de existir uma entreajuda entre os membros da família, não deixam de fazer parte da nossa rotina diária e exigem de mim tempo e dedicação”, assume.

A par do seio familiar, acresce a preocupação permanente com os pais, que, apesar de morarem perto, “mais do que nunca”, precisam do apoio da filha. “Apesar de, neste período, estar menos presente fisicamente para cumprir o distanciamento exigido, estão sempre presentes na minha mente e no meu coração. A preocupação diária vai no sentido de que não lhes falte nada do que é básico e essencial”, descreve.

Pelo cenário anteriormente descrito, Lídia não tem dúvidas de que a mulher representa “o grande pilar no seio da família”. E justifica: “Se recuarmos no tempo, não muito distante, constatamos que nas sociedades, a mulher era um ser destinado à procriação, ao lar e para agradar o outro. Tarefas, estas, já muito delicadas, difíceis e de grande responsabilidade. Com o evoluir dos tempos, a emancipação da mulher em busca da igualdade em direitos, políticos, jurídicos e económicos em relação ao homem, permitiu-lhe ter acesso a uma carreira e a ser vista como um indivíduo autónomo, ou seja, um ser independente”, explica.

Mesmo que “possuidora de uma capacidade incrível de abarcar uma série de virtudes”, tais como “ser trabalhadora, mãe, educadora, carinhosa, compreensiva, tolerante, incansável, dedicada e atenciosa”, a mulher continua a ser, na opinião da contabilista, alvo de descriminação em relação ao sexo oposto.

No seu entender, só quando essa corrente for definitivamente quebrada a sociedade irá alcançar o seu pleno potencial. “Apesar de ainda ser notória na sociedade de hoje esta discriminação de género, e não querendo ser feminista, acredito piamente que somente quando homens e mulheres se virem como seres incompletos, que necessitem de apoio mútuo para desenvolver a sua condição humana, é que caminharemos para uma sociedade melhor”, conclui.