A Escola Básica de Penafiel Sudeste é uma das várias escolas no país que recebem o projeto “Teach for Portugal”, que promove uma educação inclusiva. Os resultados do impacto deste projeto já são notórios, garantem.

Gabriela Silva tem 25 anos e a sua formação é na área da Psicologia, mais concretamente na parte do Comportamento Desviante e da Justiça. É a mentora que acompanha quatro professores de História e Geografia de Portugal, Ciências e Matemática de quinto e sexto ano e ainda Cidadania e Inglês desta escola. “Senti na ‘Teach’ um propósito que senti que quando estava na faculdade estava a perder”, afirma.

Acompanha os professores na sala de aula e trabalham “em colaboração” na dinamização da aula, no apoio para a gestão do comportamento, gestão do estudo e nas ideias inovadoras. O objetivo é fazer uma “ponte e ser um apoio na sala de aula e fora da sala de aula para os professores”, em tudo o que a turma “precisa para alcançar o sucesso, não só académico mas também a nível emocional, a nível do conhecimento sobre o eu, autoconhecimento, conhecimento sobre o outro”. “Somos verdadeiramente uma equipa e o objetivo quando vamos para uma escola é formar uma equipa com os professores para que os alunos possam alcançar o sucesso e os seus sonhos”, continua.

O “Teach for Portugal” fica em cada escola durante dois anos e, no final, o mentor daquele estabelecimento de ensino realiza um projeto direcionado para a comunidade. No caso de Gabriela, focou-se “muito na comunidade educativa dentro da escola, no sentido especialmente dos professores”.

“Os professores tinham muitas queixas no início do ano passado e no final do ano passado de não estarem a conseguir chegar aos alunos. Se calhar, estão aqui e até trabalham, mas chegam a casa e não têm um apoio contínuo e não têm alguma retaguarda e, devido a esta falta de retaguarda e mesmo os próprios pais também referiram muitas vezes ter dificuldade em pôr os alunos em centros de estudo ou em ter tempo para isso ou ir buscá-los”, revela.

Assim, decidiu criar a “Oficina Aprender a Aprender”, para os alunos do quinto e sexto ano, durante 50 minutos por semana. Numa sala de aula ou numa sala específica, trabalham “várias competências, sendo que a competência essencial é a aprendizagem autorregulada, ou seja, eles aprenderem a querer aprender e como aprender”. “Por isso, no primeiro período, o foco desta oficina foi muito na organização, arranjar calendários, apontar os testes, os trabalhos de casa e também na motivação”, descreve.

O segundo período já foi mais para trabalhar “as dificuldades que eles tinham, fazer os trabalhos de casa com eles, em colaboração uns com os outros, estudar para os testes, fazer esquemas em conjunto” e o terceiro período está a ser focado no autoconhecimento.

“O meu projeto veio de uma necessidade que os professores sentiam muito e, a partir daí, criou-se este projeto especificamente para o segundo ciclo”, rematou.

A ideia e “deixar este bichinho cá dentro”. “Agora conhecemos, agora sabemos. Em quê que podemos contribuir agora para Portugal se tornar ainda melhor e para que este contexto em que as crianças nascem não determine nada do seu futuro”, concluiu.

“A cooperação, neste caso da Gabriela, dentro da sala de aula, tem sido uma mais-valia para todos, não só para mim, enquanto professora, mas também para os alunos. Ou seja, alguns alunos não expõem as suas dúvidas por vergonha, porque não se querem expor perante os outros colegas e aproveitam a Gabriela para fazer e colocar essas questões num núcleo mais restrito”, comenta Elisabete Santos, professora de História e Geografia de Portugal.

“Há um trabalho de equipa, uma cooperação entre o professor e o mentor, porque o mentor vai-se apercebendo de algumas dificuldades, de algumas lacunas, que, cá fora, quando partilhadas connosco, leva-nos a ter mais atenção. Aquilo que senti foi exatamente isso. Eu dava a matéria e fazia os exercícios, conforme faço nos outros anos e ela acaba por ser um reforço, um apoio, para aqueles que não estão tão à-vontade e, se calhar, passam completamente despercebidos dentro da sala”, continua.

Para o diretor do Agrupamento de Escolas Penafiel Sudeste, António Sorte, este projeto acrescentou aqui “mais-valias ao processo de ensino-aprendizagem”. “Primeiro, vem numa altura em que estávamos a atravessar uma pandemia e que os alunos tinham ficado confinados e, naturalmente, como é fortemente discutido, a pandemia acrescentou aqui problemas aos alunos mais frágeis do ponto de vista económico, social e académico”, comenta.

“Este projeto, ao vir aqui para este agrupamento de escolas, ao trazer a Dra. Gabriela, que tem como formação base a Psicologia, trouxe-nos aqui a possibilidade que, do ponto de vista técnico, tem competências para trabalhar competências emocionais e sociais que são muito importantes para que depois o processo de ensino-aprendizagem ocorra de uma forma profícua e, ao mesmo tempo, foi integrada dentro de uma sala de aula, ou seja, teve também uma vertente pedagógica. Para além de trabalhar com os alunos a parte emocional, trabalhou também com os alunos a parte pedagógica”, acrescenta.

“As crianças que vêm de um contexto mais desfavorecido têm menos oportunidades ao longo da vida. Para o tentarmos resolver, utilizamos este modelo da rede global que é a ‘Teach for All’, que está presente em 60 países e já tem 30 anos de experiência. Funciona com uma visão muito clara, que é: todas as crianças merecem uma educação que lhes permita atingir o seu máximo potencial”, afirma Pedro Almeida, CEO do “Teach For Portugal”. Para o responsável, o projeto apresenta “ganhos acrescidos” devido “ao efeito da colaboração”. “Vemos, que academicamente, os alunos podem chegar um pouco mais longe, com menos negativas, com este melhor desempenho, mas como consequência do tal trabalho que foi feito durante o ano inteiro, de relação, de aprendizagem, de envolvimento, acima de tudo, dentro e fora da sala de aula”, refere.

O vereador com o pelouro da Educação da Câmara Municipal de Penafiel, Rodrigo Lopes, afirma que este “é um projeto diferenciador no sentido de uma abordagem mais centrada no aluno, desenvolvendo o espírito colaborativo, cooperativo, facilidade de comunicação e que se adequa muito bem também neste território”.

“O município de Penafiel, naturalmente, está atento e interessado por essa via a dar continuidade a estes projetos que manifestamente são positivos para os nossos alunos e, sobretudo, jovens que possam apresentar algum tipo de dificuldade no seu ritmo, no seu caminho de aprendizagem”, remata.

A Associação Empresarial de Penafiel (AEP) é parceira institucional do projeto e tem como objetivo dá-lo a conhecer ao tecido empresarial da região e aos seus associados. “É uma aposta que vai ser ganha, uma vez que é um projeto que, de facto, tem tido sucesso noutros concelhos e noutras regiões aqui à volta e nós, como representantes da parte privada, de eventuais parceiros privados deste projeto achamos por bem usarmos a parceria que temos com a ‘Teach for Portugal’ para divulgar este projeto com os nossos associados, que, naturalmente, também têm uma componente de responsabilidade social e, como tal, podem também investir num projeto que socialmente tem bons resultados como já tem sido mostrado nos últimos anos”, indica João Begonha, secretário-geral da AEP.