Eduardo Santos, natural de Bem Viver, Marco de Canaveses, soma 73 anos de vivência e uma vida marcada para “sempre” pela Guerra Colonial em Angola.

Antes de partir para Angola, a 3 de janeiro de 1969, Eduardo Santos foi chamado para Vila Real, posteriomente, na Póvoa do Varzim, tirou a especialidade de cozinheiro, mais tarde, foi colocado na Escola de Cabos. “Tinha de haver sempre um superior nas cozinhas, neste caso, era o Cabo”, explica.

Tempos antes do destino final, passou pelo regimento de infantaria no Porto, onde foi chefe de cozinha no refeitório, e pelo regimento de infantaria de Tomar. “Fomos formar batalhão para Santa Margarida, juntaram-se diversas unidades, vários soldados”. A 26 de novembro de 1969, o navio Império levou Eduardo Santos e o batalhão até Angola, “parecíamos animais a caminho do matadouro”. Dias depois, foram enviados para a cidade da Damba, na província de Uíge. O norte de África tornava-se a “casa” dos jovens soldados nos próximos anos.

Eduardo Santos conta que “não saía para a mata, eu e mais quatro fazíamos comida para o pessoal que estava na companhia”. Pertencia à Companhia de Comandos e Serviços e acabava por “prestar assistência” às outras companhias do batalhão, num perímetro de trinta quilómetros. “Para além da nossa, eram mais três, correio, canalização e material de guerra”, conta.

Quando passavam colunas militares, Eduardo Santos e os seus colegam eram responsáveis por abastecer os soldados, desta forma, era “necessário aumentar o número de refeições. Tínhamos pouco, passamos muita fome, muitas privações”.

Para além da escassez de comida, a falta de arcas para guardar os alimentos tornava a tarefa de alimentar os soldados “mais árdua. No tempo de chuva, as carrinhas ficavam com lama, não conseguiam fazer o trajeto no tempo estimado e não existiam frigoríficos. Quando a carne e o peixe chegavam, após cento e poucos quilómetros, a comida tinha de ser ingerida logo”.

A solução passava por comer só a carne ou só o peixe, para que fosse possível “guardar a massa, arroz… as batatas vinham pisadas de ir aos saltos nos automóveis, também não aguentavam muito”.

Todos os meses recebiam uma “mensalidade”, mas o senhor Santos, como é conhecido, partilha que “não tínhamos onde gastar, não havia lá um café, quiosque, taberna, nada… não havia onde comer”.

Uma vez por semana, à quinta-feira, um avião lançava num paraquedas um embrulho com cartas dos familiares e amigos que tinham deixado em Portugal. Quando alguém não recebia uma carta, os camaradas juntavam-se para o “apoiar, líamos o correio juntos para desabafar uns com os outros, dividíamos o copo para esquecer a mágoa”, relembra.

Em conversa com o Jornal A VERDADE, confessa que fazia uma “maldade” à mãe. “Eu escrevia cartas, mas com datas de amanhã, depois e depois… se calhava de eu morrer, a minha mãe ia ler uma carta minha depois de eu já ter morrido“.

Quando partiu, foi obrigado a deixar dois irmãos mais novos e a mãe, que teve de cuidar de duas crianças sozinha, após ficar viúva quando o filho mais velho tinha apenas seis anos.

Quando regressou a Portugal, Eduardo Santos estudou e trabalhou, mas acabou por aplicar o que aprendeu a cozinhar na tropa na sua taberna, negócio que levou a cabo durante anos, juntamente, com a esposa e as duas filhas.

Recorda a sua segunda família com “grande amizade, carinho, respeito que temos uns pelos outros. Vimo-nos todos os anos, os que vão partindo vamos fazendo uma homenagem, os que lá ficaram marcaram-nos para a vida toda, ficaram pedaços da nossa alma lá. Angola destruiu a vida a muita gente”, lamenta.

Descreve os dois anos passados em Angola como uma “vida de tortura. A guerra era muito perigosa, nunca sabíamos o que ia aparecer, as minas rebentavam, vi muitos colegas falecerem assim, saíam vinte rapazes e à noite faltavam sempre alguns. A morte podia espreitar por detrás de qualquer imbondeiro”, conta com amargura.

Os camaradas que via falecer eram colocados em caixões e enviados para “a terra do ninguém”, mais tarde, os corpos eram transladados para Portugal com a “medalha da morte” pregada no caixão. “Davam-nos uma medalha em prata com o nosso nome e número de tropa gravado dos dois lados, a medalha tinha um picotado, se um de nós morresse, a medalha era cortada a meio, uma parte era pregada no caixão, a outra era colocada dentro de uma garrafa, juntamente, com os documentos.” A medalha comprovava se “os restos mortais eram realmente daquele rapaz”.

Eduardo Santos casou-se com uma “madrinha de guerra” com quem celebrou 49 anos de casados. Em Portugal, uma coincidência feliz levou Eduardo Santos até à sua futura esposa no Castelinho, em Marco de Canaveses. “Voltava a pedir a Nossa Senhora que me desse a mesma mulher, a sorte que eu tive, entre altos e baixos, valeu a pena. A coisa mais bela que a tropa me deixou foi os amigos e a mulher”, diz emocionado.