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Paredes
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Do turno da noite para a mesa do almoço: A jornada de Verónica para não ser uma ausência no Dia da Mãe

Verónica Barbosa, enfermeira há 22 anos no Hospital Padre Américo, em Penafiel, passou a madrugada do Dia da Mãe a cuidar de quem acabava de nascer.

Entre o rigor científico e o sacrifício do descanso físico, revela o lado invisível de uma profissão onde ser "âncora" para os outros significa, muitas vezes, estar ausente da própria casa.

O turno que não acabou às oito

A jornada de Verónica Barbosa, 43 anos, natural de Paredes, começou muito antes do sol deste domingo nascer. Entrou no hospital às 20h00 de sábado para o turno da noite no serviço de Obstetrícia, mas a hora de saída, prevista para as 08h00, foi apenas uma formalidade. Eram mais de nove da manhã quando Verónica atravessou, finalmente, a porta do Hospital Padre Américo.

O motivo do atraso? A humanidade. Como membro da comissão organizadora da dinamização do Dia da Mãe no hospital, Verónica ficou para garantir que o cenário festivo e acolhedor estava pronto. "Estivemos a preparar os miminhos para darmos às mães hoje, para elas se sentirem acolhidas. Temos mães que têm outros filhos em casa, grávidas internadas em transição para a parentalidade... queríamos que passassem um dia mais alegre", explica. Só depois de garantir o sorriso alheio é que Verónica se permitiu enfrentar o peso do seu próprio uniforme.

22 anos a partilhar datas com o hospital

Com uma carreira iniciada em 2004, a enfermeira soma 22 anos dedicados à Saúde Materna e Obstetrícia. Para ela, trabalhar em datas especiais não é uma novidade, mas nunca deixa de ser um desafio emocional. "É gratificante porque trabalho numa área em que as pessoas se tornam mães, mas também há um bocadinho aquele sentimento de tristeza por não estarmos tão presentes na vida dos nossos filhos nestes dias", confessa.

Mãe de dois filhos, Verónica Barbosa sente que o uniforme pesa mais nestas datas, mas não deixa que a farda a afaste totalmente do papel de filha e mãe. Após o turno da madrugada, o Dia da Mãe foi vivido num equilíbrio frágil entre o afeto e a exaustão. "Acabámos por fazer as refeições juntos em família. Como também sou filha, tive cá a minha mãe e a mãe do meu marido", conta. No entanto, a realidade física acaba sempre por impor a sua fatura.

Depois de receber os "miminhos" e vídeos da filha de 14 anos durante a noite, Verónica teve de se render ao cansaço logo após o encontro familiar. Enquanto a filha saía para um jogo de basquete, a enfermeira foi obrigada a recolher: "Tive necessidade de descansar. Se estivesse de folga, tinha tido outra disponibilidade para eles. O cansaço pesa, pesa um bocadinho".

A ciência do cuidar e a sensibilidade de ser mãe

Questionada sobre se o facto de ser mãe a tornou uma enfermeira diferente, Verónica é honesta: a experiência pessoal dá-lhe uma sensibilidade que o livro de medicina não ensina. "É completamente diferente trabalhar numa maternidade sendo mãe, porque temos outra sensibilidade para as questões que aquelas mulheres estão a viver". No entanto, sublinha o rigor da profissão: "A nossa prestação de cuidados não deve ser guiada pela nossa experiência, mas, sim, pelas guidelines e pelo conhecimento científico. Temos de saber separar. Não somos máquinas, temos emoções, mas temos de manter a postura profissional".

O preço invisível: Descanso físico vs. vida familiar

O depoimento de Verónica torna-se mais denso quando aborda a conciliação entre a carreira e a família. Para esta enfermeira, estar presente na vida dos filhos é uma conquista feita à custa do próprio corpo. "Muitas vezes, chegamos a casa de uma noite e não dormimos para estar com eles. É uma correria. Passo tempo com os meus filhos à conta de prejudicar o meu descanso físico e até mental", admite.

Verónica recusa-se a romantizar a profissão para esconder as dificuldades. "Não é fácil agarrar-me apenas à ideia de que o meu papel na sociedade é valorizável para esquecer a outra parte. É por isso que vemos tantos profissionais em burnout, com a saúde mental afetada. É complicado ser mãe e mulher nesta área de prestação de cuidados em jornada contínua".

Filhos da resiliência

Apesar das ausências em Natais, Páscoas e Dias da Mãe, Verónica acredita que deixa um legado de força aos seus filhos. "A minha filha tem 14 anos e há 14 anos que me vê sair de casa nestes dias. É óbvio que sofremos, mas a capacidade deles de lidar com isso, de ver as coisas boas naquilo que é menos bom, torna-os crianças mais resilientes".

Ao sair do hospital, Verónica deixou uma palavra de carinho às colegas que iniciaram turnos de 12 horas neste domingo. "Quem lá está durante o dia é pior. Saem ao fim de 12 horas cansadas, já sem disponibilidade, e no dia seguinte há escola e rotinas".

Verónica Barbosa regressou a casa para o seu papel de filha e de mãe, carregando o cansaço de uma noite inteira a ser a "âncora" de outras mulheres. No Hospital Padre Américo, as decorações que ela preparou ficaram para alegrar quem chegava; em casa, Verónica ficou com o abraço dos seus, conquistado no limite do cansaço, mas com o orgulho de quem sabe que a vida começa sempre nas mãos de alguém que cuida.