Marcada pelo desconhecimento, imprevisibilidade e negatividade, a COVID-19 deixou o seu rasto na sociedade e ceifou muitas vidas pelo mundo. No entanto, também se contam vários casos de esperança como foi o de Sérgio Ferraz, que esteve às portas da morte com uma infeção respiratória grave, mas fala sem constrangimento deste período da sua vida.

Natural de Vila Boa de Quires, em Marco de Canaveses, mas a viver há décadas em Penafiel, o professor e diretor de uma IPSS foi o primeiro caso em Portugal de um doente com COVID-19 a ser entubado. Conforme conta, preferia ter um diploma “por uma coisa melhor”, mas o que é certo é que histórias não lhe faltam para contar sobre o que viveu.

Os primeiros sintomas que teve, calafrios e febre, surgiram no primeiro dia de março de 2020, altura em que em alguns países já eram detetados milhares de casos diários e em Portugal começava-se a falar sobre o assunto.

Dia após dia, ia piorando, com tosse e febre “que não passavam”. “Isto foi um percurso em que eu, diariamente, ou ligava para a Linha Saúde 24, ou ia às urgências hospitalares”, recorda. Na madrugada de dia 9 para 10 de março, saiu do Hospital de São João, no Porto, às 03h30, com vários exames e análises realizados. “Deram-me o diagnóstico de que realmente, a nível respiratório, estava ali com alguns problemas, os pulmões também aparentavam não estar muito bem, mas não viram assim grande motivo para me internar”, afirma, explicando que, depois, durante o dia, estava com “uma tosse mesmo difícil, quase nem conseguia respirar e já começou a sair sangue na expetoração”.

No dia seguinte, ligaram-lhe do hospital a perguntar como estava e disseram-lhe que “já ia uma ambulância a caminho de casa” para ser internado. Só nesse dia foi testado à COVID-19 e deu positivo. No dia 12 de março, estava já nos Cuidados Intensivos e foi induzido em coma.

Segundo lhe explicaram, desenvolveu uma infeção respiratória grave (que associou a uma pneumonia) e foi como “se pegassem nos pulmões, encharcassem num balde com lama e pusessem-nos assim a escorrer”.

Durante duas semanas em que esteve em coma, “o prognóstico era altamente reservado”. “Aliás, não davam nada por mim. Na primeira semana, não reagia a nada, a febre não baixava… na segunda semana, tive um pico de melhoria, mas, entretanto, voltei a ter uma recaída”, conta.

Essas semanas foram passadas como se tivessem sido “três meses e meio” na cabeça de Sérgio Ferraz. No subconsciente, viveu “episódios irrealistas”, experiências “do mais inacreditável que possa imaginar, como se estivesse permanentemente acordado, 24 sobre 24 horas, a viver as coisas mais maquiavélicas, mais indescritíveis que possam passar pela cabeça”.

Eram “uma mistura” entre a realidade e as criações que a mente pode fazer, com pessoas e sítios que conhece e outros inventados. Desde uma viagem transatlântica na qual esteve a fugir de gangues de cartéis de droga, a raptos, chantagens e transferências de hospital em hospital, quando nunca chegou a sair do Hospital de São João.

“Foi uma canseira sempre e momentos de desespero absoluto. Depois, há alguns episódios entre o que me aconteceu realmente durante o coma, que depois me contaram, e alguma situações que eu vivi no coma que não sei até que ponto é que há um paralelismo”, descreve.

Só na fase final da segunda semana é que Sérgio Ferraz começou a reagir e a melhorar. Esteve, depois, dois dias nos Cuidados Intermédios e cinco na enfermaria. A alta chegou e parecia mentira: foi no dia 1 de abril que pôde regressar a casa, “embora muito, muito debilitado”, pois tinha perdido “mais de 14 quilos”.

Em casa, a recuperação foi “muito rápida e praticamente plena”. Esteve uma semana em isolamento, depois, começou a sair de casa apenas para apanhar um pouco de sol e a fazer exercício diariamente, num “mini-ginásio” que montou. Em três semanas, conseguiu passar de usar o andarilho a começar a correr “assim já num ritmo normalizado no tapete” e a usar bicicleta um mês depois.

Cerca de um ano e meio após regressar a casa, teve acompanhamento por parte do hospital e, nas avaliações realizadas, revelou estar “sempre muitíssimo bem”. Embora nos primeiros tempos confundisse um pouco o que aconteceu na sua mente enquanto esteve em coma com a realidade, não teve perdas de memória.

Atualmente, aos 47 anos, faz uma “vida normalíssima”, “sem qualquer restrição a qualquer nível”, e, apesar de ter deixado de praticar exercício físico, está a pensar em retomar. Recorda com gratidão o apoio que teve durante o internamento e até de desenhos e vídeos que alunos lhe enviaram, deixando também uma “palavra de apreço aos profissionais de saúde que foram cinco estrelas e eles sim passaram um mau bocado porque lidaram com o vírus ali ao lado e alguns até faleceram dele”.

Sérgio Ferraz nunca teve “problemas em falar sobre o assunto”, pois quis sempre passar um testemunho “de esperança”, mas sentiu “algum receio” das pessoas em abordarem-no. “Quis desdramatizar um bocadinho, tirar aquela carga negativa e se, infelizmente, é verdade que muita gente não teve a sorte que eu tive e não está cá para contar a história, também é verdade que para muita gente o COVID não era uma sentença de morte. Na altura, também foi passada essa ideia de que as pessoas também tinham de viver com alguma normalidade e, no fundo, é o que fazemos hoje”, conclui.