Custódio Freitas tem 54 anos e é um entusiasta de LEGO. O homem, natural de Marco de Canaveses, nos últimos anos, tem se destacado pelas construções que faz. De monumentos grandiosos aos mais pequenos, dos internacionais aos nacionais, a sua presença em exposições é uma constante. Mais conhecido por “Tozé” pelos seus amigos e família e também na comunidade LEGO, Custódio conta que esta paixão já vem de muitos anos.

O encanto que atualmente tem desenvolveu-se ainda na infância. Aos cinco anos, os pais ofereceram-lhe a sua primeira caixa de LEGO. “E eu fiquei logo apaixonado”, afirma Custódio, revelando que “passado pouco tempo, tudo o que pedia aos meus pais era LEGO”. O padrinho era um grande incentivador do LEGO e, depois de ter os seus primeiros três conjuntos da marca, conseguiu criar o seu primeiro MOC (construção própria).

À medida que foi crescendo, foi deixando o LEGO para trás. Não só era mais caro, mas também perdeu o interesse. Contudo, essa paixão regressou depois do filho nascer. “Felizmente, voltei a ter LEGO quando o meu filho começou a gostar e então agarrei com toda a força essa vontade de novo”, sublinha.

Custódio emigrou para o Brasil com a sua família durante cinco anos. E foi no ano final em que lá moravam que começou a criar as suas próprias construções. Iniciou o seu percurso de construtor com o projeto do Convento de Alpendorada, que expôs na ExpoLug Brasil, convidado pelos organizadores. O projeto exposto é a sua primeira criação e, ao longo dos anos, desenvolveu-se. “Comecei o Convento só com a fachada e agora já tenho o edifício todo”, destaca, “foi a minha primeira construção pessoal e continua a ser a que tenho mais orgulho, sempre sendo muito apreciado nas exposições”.

Quando ainda residia no Brasil, em 2016, foi convidado a participar no Fan Weekend, uma exposição anual que ocorre em junho, em Paredes de Coura, pela comunidade de LEGO 0937, organizadora do evento. “Existem duas Fan Weekend no mundo: uma em Portugal e uma no Japão, na mesma data. São as únicas reconhecidas pela LEGO. Eu participei pela primeira vez com o Convento de Alpendorada”, afirma Custódio, “há sempre cerca de 200 participantes, portugueses e estrangeiros. Há sempre gente do mundo todo”, acrescentou. Pouco tempo depois, foi novamente convidado pela comunidade a participar em outra exposição em Cantanhede “e, pela qualidade da minha construção, eles convidaram-me para ser um membro dessa comunidade, a comunidade 0937”, explica.

A comunidade 0937, da qual é membro atualmente, é sediada em Paredes de Coura e é reconhecida pela marca LEGO. Segundo Custódio, “é uma comunidade prestigiada. No mundo LEGO, quando dizemos que fazemos parte da comunidade 0937 somos vistos com outros olhos. Cinco dos seus construtores já foram para a LEGO e para mim é um orgulho participar na comunidade”.

Atualmente, já membro da comunidade há cinco anos, Custódio é considerado um AFOL (Adulto Fã de LEGO). Já participou em inúmeras exposições e conta com um inventário de projetos extenso. Entre projetos próprias e conjuntos da própria marca, Custódio tem em sua posse cerca de 300 construções. A Igreja de Santa Maria, a Câmara do Marco de Canaveses, a Capelinha de Fátima e o Cristo Redentor são algumas das construções do AFOL. A sua primeira construção, assinada com o nome da comunidade, foi a Aldeia de Piódão, mas já conta com outras como a Capela do Senhor da Pedra, no Porto, e a Casa da Botica.

As temáticas de construção são um leque vasto, mas, de acordo com Custódio, de todos os temas, afirma que recriar monumentos é o que mais gosta de construir. “Cada um tem uma veia pra gostar mais disto ou daquilo. Eu gosto muito dos carros e veículos, mas é algo que não consigo criar. No entanto, gosto de monumentos, gosto do desafio de tornar o mais próximo da realidade”, uma vez que “nós, portugueses, temos muita história. Quando vamos fazer turismo a alguma cidade, geralmente vamos a um convento, a uma igreja, sempre aos monumentos”, disse. A construção do real é o seu maior desafio, visto que “é mais difícil, porque temos que ser muito fiéis ao que já existe. Há muitos pormenores que as pessoas nem reparam, mas pra nós são muito importantes”, salienta.

A este passatempo dedica muitas horas e revela que nem sempre a criatividade ajuda. “Tem dias que se chega do trabalho e a vontade não é tanta ou criatividade não sai. É por isso que, geralmente, não estou a fazer só um projeto, faço sempre vários. E se hoje não estou com vontade para aquele, vou pra outro. Tem dias que não faço nada. Mas, normalmente, eu dedico, no mínimo, uma hora por dia”, aponta Custódio. Porém, o tempo que dedica aos seus projetos é “relativo” e “com o andar do tempo, o tempo de construção é diferente”.

Até este ano, o Santuário de Santa Luzia foi o maior projeto que realizou. A construção tem, aproximadamente, 70 mil peças e foi a mais demorada a estar finalizada. “A Santa Luzia foi o projeto em que fui mais categórico a trabalhar. Todos os dias, sagradamente, dediquei-lhe duas horas. Há exceção de sábado, que era a tarde toda, e no domingo, que era o dia inteiro. Em sete meses, dediquei 900 horas à Santa Luzia”, refere o construtor. Este projeto foi iniciado em 2017, contudo, foi deixada de lado por uns anos e Custódio só o retomou em 2020. Assim como os outros projetos que desenvolveu, este tem uma história pessoal. “Vivi dois anos em Viana do Castelo e a Santa Luzia era onde passava os meus domingos à tarde”, confidencia.

Para a construção de MOCs é preciso “paciência” e “criatividade”. O processo de idealização de um projeto passa por “ter uma ideia”, pesquisar “se já foi feita” e, então, criar “algo que ninguém fez. Se tiver oportunidade vou ao local e tiro muitas fotografias. Depois começo a fazer ensaios com as peças que acho fundamentais para lançar a escala em que eu costumo trabalhar. Depois que faço isso, realmente vejo se é possível ou não continuar”, explica Custódio.

Além da criatividade, as peças são “fundamentais” e é preciso ter “fácil acesso a elas”. Como membro da comunidade 0937, Custódio tem acesso a um “stock de peças”, assegurando. “O que nós precisarmos, eles fornecem”, garante.

Desde o final do ano passado, embarcou em mais um projeto que se tornou no maior que já trabalhou. Para expor na Fan Weekend, que vai ter lugar em Paredes de Coura, de 10 a 12 de junho, Custódio construiu os Clérigos. O projeto consiste na construção da torre e da igreja e tem mais de 70 mil peças. Demorou cerca de quatro meses a ficar concluído e tem mais de 2,30 metros de comprimento e 1,70 metros de altura. A construção vai ser apresentada pela primeira vez na exposição, que começou esta sexta-feira.

Apesar dos eventos serem um alvo de animação, Custódio enfatiza que, para ele, é muito importante a família ir com ele, uma vez que “desde o início, desde a primeira exposição que participei, fomos os quatro juntos. Eles tiveram comigo desde minha iniciação no LEGO”. Também afirma ser “gratificante”, porque “divirto-me e vejo-os a divertirem-se”. O construtor explica que os quatro, ele, a mulher e os filhos, participam sempre juntos dos eventos organizados pela comunidade e visitam sempre exposições.

Para Custódio, o LEGO é sinónimo de paixão, gosto e imaginação. É uma “espécie de terapia” e refere que acabar uma construção deixa um sentimento agridoce porque um “artista quer ver a sua obra-prima terminada, ao mesmo tempo que não a quer ver terminada, para ter sempre aquele desafio”.

Texto redigido por Júlia Coelho, aluna da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.