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Paços de Ferreira
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“Conti.Gu na Vida”: Quando a dor de uma mãe se transforma em amor para eternizar o pequeno Gustavo

Três anos depois de ver o filho partir nos seus braços, com apenas um mês e meio de vida, Cátia Sousa transforma o luto em missão. A 27 de novembro de 2025, no dia exato em que se assinala a morte de Gustavo, nasce a associação “Conti.Gu na Vida”.

Redação

Criada na mesma rua onde a tragédia aconteceu, esta é a história de uma mãe que se recusou a deixar o filho no passado e decidiu transformar a saudade num refúgio para quem fica.

Para Cátia Sousa, de 36 anos, a advocacia era uma vocação, mas a maternidade era o desígnio maior. “Nasci para ser advogada, mas, mais do que ser advogada, nasci para ser mãe”, confessa a natural de Figueiró e residente em Lamoso, Paços de Ferreira. Quando Gustavo nasceu, a 10 de outubro de 2022, após uma gravidez “extremamente tranquila” e sem qualquer percalço, parecia o completar de um sonho.

Mas a vida, na sua brutalidade imprevisível, mudou o rumo da história apenas um mês e meio depois.

Na manhã de 27 de novembro de 2022, o impensável aconteceu. Sem aviso, após uma noite agitada, o pequeno Gustavo entrou em paragem cardiorrespiratória. “Do nada, o Gustavo começou a ficar com o choro abafado, deu um berro e o choro começou a ficar muito mais fraco e começou a ficar roxo”, recorda Cátia.

Movida por um instinto de sobrevivência e guiada pela voz de um enfermeiro do INEM ao telefone, Cátia realizou manobras de reanimação no próprio filho, algo para o qual não tinha qualquer preparação. “Felizmente, nestes momentos, sou mais racional do que emocional”, diz. Fez o que tinha de ser feito, lutou até ao último segundo, mas cerca de 40 minutos depois, já na ambulância, a equipa de socorro confirmava o óbito.

O peso do silêncio e a libertação da culpa

À dor da perda somou-se o tormento da dúvida. A autópsia demorou longos meses a chegar (de novembro a setembro do ano seguinte). Durante esse tempo, Cátia carregou o peso de uma culpa que não era sua, atormentada pela hipótese de engasgamento.

“Estive meses com sentimento de culpa, porque toda a gente falava que ele se tinha engasgado (...) e óbvio que depois pairava sobre mim: 'o que é que eu não vi? O que é que eu fiz de mal?'”, partilha.

Só em setembro de 2023, a confirmação de morte súbita lhe trouxe a paz possível. Percebeu que não havia nada que pudesse ter feito para evitar o desfecho. Foi aí que começou verdadeiramente a assumir o seu luto.

Não esquecer: o luto como memória viva

Cátia rejeitou o caminho tradicional da terapia. Sentia que psiquiatras e psicólogos não alcançavam a dimensão da sua perda, chegando a sair de consultas a pensar: “não era eu que era a maluquinha”. O seu luto fez-se de memória viva e de uma recusa absoluta do esquecimento.

“Tinha de haver um propósito para o nascimento do meu filho”, afirma. A sua terapia passou a ser a homenagem constante: no cemitério, a campa do Gustavo tornou-se um local de cor e memória, com balões e anjos, atraindo até desconhecidos que ali deixavam velas.

A sua forma de lidar com a dor, digamos que aberta, crua e pública, tocou milhares. Uma entrevista televisiva e um vídeo no TikTok transformaram Cátia num farol para outros pais em sofrimento. Recebeu mensagens de todo o país, pedidos de ajuda de quem não sabia como sobreviver à perda. Recorda, com emoção, o contacto de uma jovem do sul do país, cuja mãe perdera um bebé num ataque de um cão, a perguntar: “Como é que consegues fazer o luto desta forma? Quero ajudar a minha mãe”.

Foi nestes pedidos de socorro mudos que a semente da associação foi plantada. Alguém lhe disse que devia “pegar na história e fazer algo com ela”. Mas, para Cátia, “tudo tem de fazer sentido em relação àquilo que eu faço com o Gustavo”. E o sentido chegou agora.

Nascimento no dia da partida

No dia 27 de novembro de 2025 nasce, assim, a associação “Conti.Gu na Vida”. O nome, um jogo de palavras entre “Contigo” e “Gustavo”, encerra a promessa que Cátia lhe fez: “Estarei sempre Conti.Gu”.

Tudo foi pensado ao pormenor. A associação foi registada agora e terá sede na mesma rua onde Gustavo viveu e partiu. Se para o pai da criança a casa ficou associada à morte, impedindo-o de lá entrar durante muito tempo, para Cátia tornou-se impossível sair. “Qualquer tipo de luto é válido”, sublinha a advogada, respeitando as diferentes formas de sofrer. Ela escolheu ficar e transformar o local da perda num local de esperança.

A imagem da associação é a tatuagem que Cátia traz na pele e que demorou um ano a decifrar: dois colibris (que em algumas culturas representam as almas que nos visitam) e os pontos cardeais, simbolizando que o filho está com ela em qualquer lugar do mundo. O colibri mais pequeno, colorido, representa também a inclusão.

Uma missão a duas mãos: Luto e inclusão

A “Conti.Gu na Vida” terá uma missão dupla, nascida das experiências pessoais da fundadora.

Por um lado, será um refúgio para o luto parental, oferecendo a escuta e compreensão que “só quem vive essa dor consegue verdadeiramente entender”. O objetivo é mostrar que não se está sozinho e que é possível “viver o amor pelos filhos de outra forma”.

Por outro, a associação estende os braços às crianças com necessidades especiais e às suas famílias. Esta vertente nasce da experiência de Cátia como madrinha de um menino com espinha bífida, um “menino milagre”, e do contacto com mães cujos filhos sobreviveram a paragens cardiorrespiratórias com sequelas graves.

“A ideia é promover o ensino daquilo que é necessário para a vida, para criar melhores condições”, explica. Cátia quer derrubar barreiras, ajudando estes pais a navegar na burocracia dos apoios estatais e, fundamentalmente, trazer terapias para a região. “Queremos fazer protocolos a nível de tratamento (...) trazer terapias para cá, dessas que os pais não conseguem ter acesso, ou porque ficam no Porto, ou porque não têm capacidade financeira”.

“Esta obra vai nascer das nossas mãos”

O projeto conta com três sócios fundadores: Cátia, a sua irmã (madrinha do Gustavo) e José Brito, um amigo que alinhou na “ideia maluca” e disse “vamos lá, eu ajudo”.

Apesar de estar juridicamente criada, a associação está numa fase de instalação. A Câmara Municipal cedeu um espaço que está agora a ser preparado pelos próprios voluntários. “Esta obra quase que vai nascer das nossas mãos”, diz Cátia, prevendo o arranque a 100% para o início do próximo ano, com formações e atendimento a quem precisa.

No dia 27, Cátia lançou três balões ao céu. “O ano passado lancei dois, o ano anterior lancei um. O número de anos que ele faz, é o número de balões que eu lanço”, explica. Mas este ano, o lançamento dos balões teve um peso diferente.

“Esta associação tem um significado especial porque vou perpetuar o nome do meu filho, o propósito dele neste mundo”, conclui Cátia Sousa, com a serenidade de quem encontrou um caminho no meio da tempestade. “A ideia mesmo é essa: é pegar na dor e transformar em amor”.

Preparação a decorrer para abertura em 2026

Apesar de a associação já estar formalmente constituída, o projeto encontra-se, nesta fase, a ultimar a preparação da estrutura física e digital, não tendo ainda páginas ativas nas redes sociais ou atendimento ao público. Os próximos tempos servirão para preparar o espaço cedido pela autarquia e estabelecer os protocolos necessários para, no início de 2026, a “Conti.Gu na Vida” abrir portas à comunidade.

Para o arranque, a direção já definiu as prioridades concretas de atuação: além dos grupos de apoio ao luto, a associação vai focar-se no auxílio burocrático aos pais (no preenchimento de formulários e acesso a apoios sociais) e na saúde, procurando trazer terapias especializadas para a região para apoiar famílias com carências financeiras ou dificuldades de deslocação.