Conta Coisas

Ser avô mudou a escrita de António Mota

José Rocha

29-05-2021

“Comecei a ver com mais atenção a forma como os miúdos mais pequenos reagem às histórias”, conta o escritor de Baião, que publicou recentemente “A Gaveta Mágica”.

“A Gaveta Mágica”. Assim se designa a mais recente obra de António Mota, escritor de 64 anos natural de Ovil, atualmente pertencente à freguesia de Campelo e Ovil, concelho de Baião. “De Baião e do mundo”, descreve-se bem-disposto ao Jornal A VERDADE.

“A Gaveta Mágica” tem como público-alvo crianças “com cinco, seis, sete anos”, faixa etária para a qual o escritor diz ter sido um desafio adaptar a narrativa: “Digamos que limpei as palavras mais difíceis na escrita. Se tenho de contar uma história a uma criança dessa idade, tenho de ter cuidado como vocabulário que uso e com a estrutura da frase. Ser conciso, não ser muito extenso, … dá muito trabalho”, assegura.

Quando questionado sobre o surgimento deste novo livro, António Mota começa por referir que “nada acontece por acaso”, já que, a partir do momento em que se tornou avô, a sua escrita alterou-se. “Este livro é fruto da minha vida. Comecei a escrever de forma diferente a partir do momento em que fui avô. Comecei a ver com mais atenção a forma como os miúdos mais pequenos reagem às histórias”, recorda.

O escritor inclui “A Gaveta Mágica” e o volume publicado anteriormente, “A Ovelha Estrelinha e o Gato Chiribi”, na mesma categoria - “Contaler”, termo por si inventado que justifica do seguinte modo: “É uma palavra inventada por mim para explicar que, muitas vezes, estamos a contar o que não está escrito no livro”.

De modo a aguçar o apetite para a leitura, António Mota dá-nos uma visão geral sobre o conteúdo desta mais recente obra: “É a história de uma avó que todos os dias conta uma história a um neto antes dele adormecer. Só que, numa noite, a avó, por mais que se esforce, não consegue contar histórias. E então, o neto vai descobrir o porquê disso acontecer.”

O baionense refere que, “para as crianças, é uma história de encantar”. Contudo, para um leitor mais velho, o conteúdo roça outras temáticas, mesmo que não mencionadas explicitamente: “Por outro lado, o livro fala da perda de memória, do Alzheimer e do envelhecimento. Percebemos que a quantidade de informações que nós retemos e que pensamos que não tem valor, na realidade, é tanto importante para vivermos…”

Apesar de relatar este significado mais profundo da história, o autor apressa-se a esclarecer que esta é a sua interpretação, até porque faz questão que as histórias que escreve possam ser vistas de diferentes prismas e tenham finais abertos. “Esta é a minha interpretação como leitor, até porque há uma diferença grande entre o António Mota escritor e o António Mota leitor. Cada pessoa com certeza que fará a interpretação que quiser.”

Gosto muito de escrever histórias com finais abertos, que possam ter várias interpretações e que deem para tratar assuntos diversos!