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“Percorri serras com candeeiros a petróleo, pela neve, para fazer partos!”

José Rocha

12-05-2021

No Dia Internacional do Enfermeiro, estivemos à conversa com Antonieta Brás e Maria Alice Babo, que desempenharam a função de enfermeira parteira durante décadas.

Esta quarta-feira, 12 de maio, celebra-se o Dia Internacional do Enfermeiro, efeméride criada pelo Conselho Internacional dos Enfermeiros no dia de aniversário de Florence Nightingale, considerada a fundadora da enfermagem moderna. É também neste preciso dia, 12 de maio de 2021, que se cumprem 50 anos que a enfermeira parteira Antonieta Brás começou a exercer funções em Marco de Canaveses.

“São as minhas bodas de ouro”, começa por afirmar satisfeita a mulher nascida há 77 anos em Braga, mas cuja ligação ao concelho marcoense se estende já por meio século. Antes disso, por ser “um bocadinho aventureira”, viveu “várias experiências de trabalho em vários sítios”, uma das quais em Cinfães.

O convite para vir para terras marcoenses, recebeu-o por intermédio do homem que, anos mais tarde, viria a ser seu sogro. “Na altura, estava em Oliveira de Azeméis e disseram-me que precisavam de uma parteira aqui no Marco. Como até ficava mais perto de Braga, aceitei vir. E ainda bem que o fiz, porque fui sempre bem tratada”, recordou.

Antonieta Brás desempenhava a função de parteira por todas as freguesias marcoenses em conjunto com Maria Alice Babo, também natural de Braga, mas residente em Marco de Canaveses, hoje com 84 anos.

Juntas, foram “fazendo os partos a todas as mulheres das freguesias do Marco que eram lavradeiras”. E, segundo Antonieta, não lhes faltava serviço: “Na altura, as mulheres tinham muitos filhos! Cheguei a ter uma mulher em Soalhães que esteve grávida 20 vezes, dos quais cinco foram abortos. As mulheres aqui no marco tinham sempre quatro ou cinco filhos”.

A antiga parteira revela que, nessa época, “as mulheres estavam tão habituadas a parir que ficavam um bocado relutantes” em requisitar os seus serviços. “Só quando estavam mesmo muito aflitas e as velhinhas que faziam os partos nas aldeias não as conseguiam ajudar é que nos chamavam”, conta.

A bracarense não tem dúvidas de que, fruto das circunstâncias de então, as mulheres dessa altura eram de outra fibra. “Não iam ao ginásio, mas trabalhavam nos campos e vinham das freguesias para o Marco (cidade) a pé. Eram muito ativas no dia-a-dia e, então, os partos eram quase todos ao natural, raramente se faziam cesarianas”, revela.

Antonieta e Maria Alice eram chamadas 24 horas por dia, de segunda-feira a domingo. Com as emergências a aparecer sem aviso, ter telefone em casa tornou-se indispensável, numa altura em que até era necessário ter autorização para tal. “Éramos obrigadas a ter telefone! A minha primeira mobília quando aluguei casa foi um telefonezinho no chão”, recorda.

A certa altura, o volume de trabalho era tal que foi necessário implementar uma nova rotina. “Houve uma altura em que o trabalho era bastante e foi-nos proposto fazer um mês cada uma de plantão, de dia e de noite. A enfermeira Maria Alice esteve muitos anos sozinha a fazer tudo: enfermagem, geral, obstetrícia, visitas pós parto, … fazíamos tudo isso! Éramos polivalentes, pau para toda a colher!”, relata Antonieta.

Com o passar do tempo, depois de várias mudanças de edifícios-sede, “tudo se modernizou” e o pessoal foi sendo reforçado. “Todas as freguesias passaram a ter enfermeiros, mas eu e a enfermeira Maria Alice éramos as únicas parteiras. Agora, é a vez das novas gerações o fazerem”, diz.

Embora garanta não se arrepender de nada no que ao serviço diz respeito, Antonieta relata episódios que demonstram bem as diferenças entre aqueles tempos e os atuais. “Percorri serras com candeeiros a petróleo, pela neve! Os táxis não chegavam aos locais, tínhamos de percorrer os caminhos a pé com sacas de partos, que tinham tudo o que era preciso para ajudar as mães a terem os bebés. Se víssemos que não estavam bem, encaminhávamos para o hospital. Ainda hoje sinto falta da sopa que nos davam nas casas antes de irmos embora”, recorda nostálgica.

Outro dos aspetos caricatos dessa época era a função dos taxistas, que ia muito para além da boleia propriamente dita. “Os taxistas eram quem nos transportava e acabavam por ser as amas dos nossos filhos. Eu tinha filhos pequenos e o meu marido era uma pedra a dormir! Por isso, os taxistas eram quem nos levava e quem ficava com as crianças nos carros".

Quando eram bebés, eram as famílias das pessoas que tomavam conta deles, que davam o biberão e mudavam fraldas enquanto fazíamos partos!

Ao longo de todo esse insólito percurso, Antonieta orgulha-se do facto de, à semelhança de Maria Alice, nunca ter perdido uma mãe nem um bebé. "Isso nunca aconteceu porque sempre usámos um item muito importante: a prudência. Sabíamos do tempo que tínhamos para fazer o parto em segurança e que, se o excedêssemos, as coisas podiam correr mal. Mas nós não arriscávamos e transportávamo-las para o hospital".

Diziamos-lhes ‘eu estou consigo e vou consigo’ e acompanhávamo-las às salas de parto.

Agora, volvidos 50 anos ao serviço das mães de Marco de Canaveses, Antonieta olha em retrospetiva e vê cumprido o sonho de pequena em ser “médica de bebés”, sem quaisquer arrependimentos. “Não me arrependo de nada! Tive uma vida bonita, em que a humanização com a população foi a coisa mais bonita… agora, estou aqui por casa a relembrar isto tudo, mas, se o Estado deixasse, teria continuado, porque gostava muito da nossa função”, finaliza orgulhosa.

«Senhora enfermeira, eu nasci nas suas mãos!»

Fomos também falar com Maria Alice Babo, que, apesar de ser bracarense, começou a trabalhar em Marco de Canaveses há cerca de 58 anos. Embora mais debilitada em termos de saúde do que a antiga colega, não deixa, ainda assim, de recordar algumas histórias que viveu enquanto enfermeira parteira: “Durante um parto, a mãe estava a rir-se muito e eu perguntei-lhe se tinha um disco da Amália Rodrigues. Ela disse que sim, pu-lo a tocar e ficamos a ouvi-la. Aquela mãe ainda hoje se lembra dessa história”, conta.

Um dos episódios que Maria Alice recorda com mais orgulho deu-se na freguesia atualmente designada de Banho e Carvalhosa: “O bebé nasceu em morte aparente. Então, apliquei a técnica do choque térmico, que consiste em dar banho quente e frio ao bebé alternadamente. Felizmente, consegui reanimá-lo! Passados uns anos, apareceu-me uma senhora com uma menina loirinha, muito linda - era a bebé que reanimei! Foi muito engraçado”, recorda.

A antiga parteira continua a viver momentos semelhantes a esse regularmente, quando anda na rua. “Os homens e mulheres passam por mim, batem-me nas costas e perguntam-me se sabem quem eu sou. Eu digo-lhes que não e eles revelam: ‘Senhora enfermeira, eu nasci nas suas mãos!’ Tenho muitos casos desses e fico muito feliz”, confessa, para terminar.