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Jovem de Cinfães repôs "igualdade de oportunidades" em contexto escolar durante a pandemia

José Rocha

10-05-2021

"Foi um esforço para que a escola seja de todos e para todos, independentemente de onde são, das suas condições económicas, da sua religião e da sua cor", justifica Luís Soares, que foi distinguido como Cidadão Nobre pela Nobre Casa de Cidadania.

Luís Soares tem 33 anos, é natural de Cinfães e integra o lote de nove portugueses recentemente distinguidos como Cidadãos Nobres pela Nobre Casa de Cidadania. A distinção é atribuída anualmente e visa homenagear anualmente cidadãos que se distinguiram por ações de valores de altruísmo, despreendimento e carácter.

A informação foi noticiada no passado sábado (leia aqui). Agora, Luís Soares contou-nos mais sobre o projeto que desempenhou um papel chave para esta atribuição: a plataforma “Escola Para Todos”, que proporcionou a inúmeros alunos equipamentos informáticos para poderem assistir às aulas online durante a pandemia COVID-19, que, face às suas carências económicas, não tinham possibilidade de os adquirir.

Para além de ter criado a referida plataforma, o cinfanense conseguiu envolver cidadãos e empresas para concretizar a doação de dezenas de equipamentos informáticos às escolas do concelho de Cinfães. Deste modo, foi possível aos alunos mais carenciados ficar pé de igualdade no acesso ao ensino e aprendizagem. Refira-se que todos os computadores doados foram recondicionados pro bono por duas empresas da área da informática do concelho.

"A ideia de criar a plataforma surge no panorama pandémico que o país e o mundo atravessam e para o qual ninguém estava preparado. Perante a dramática situação de pandemia e de emergência na saúde e social, as famílias mais vulneráveis economicamente, principalmente as do interior do país de onde sou oriundo e onde as assimetrias continuam a existir e se adensam em situações como a que vivemos, face à necessidade de confinamento e suspensão das aulas presenciais, constatei a existência de um entrave sério relativamente aos alunos com menores posses económicas", começou por explicar Luís Soares a propósito da origem da ideia desta 'Escola Para Todos'.

Ainda em relação ao cenário em que várias crianças concelhias se viam em contexto pandémico, o responsável apontou que lhes eram "facultadas aulas online para darem continuidade à sua formação escolar. Mas estes não possuíam equipamentos informáticos, ficando por isso, impedidos de lhes aceder e colocando-os numa situação de absoluta desigualdade relativamente a outros seus colegas. Para além de lhes causar danos irreparáveis no seu percurso educacional! Tendo eu tido a possibilidade e a felicidade de ter desenvolvido a minha formação escolar e académica, não me pareceu justo, nem me sentiria bem comigo próprio, se nada fizesse para que o futuro dessas crianças/jovens ficasse irremediavelmente marcado porque lhes não foi dada a igualdade de oportunidade, decorrente do facto de os seus pais terem menos condições económicas."

Nasceu assim, a 'Escola Para Todos', que como o próprio nome indica, consistiu num pequeno contributo à reposição da igualdade de oportunidades a todas estas crianças/jovens, e um esforço para que a escola seja de todos e para todos, independentemente de onde são, das suas condições económicas, da sua religião e da sua cor.

Quando questionado sobre que papel desempenhou aquando do desenvolvimento da plataforma, Luís Soares confessa que foi quase como 'pau para toda a obra'. "O meu papel foi dos mais variados. Na plataforma online, idealizei o conceito e funcionamento. O design e a programação ficou totalmente a cargo do meu grande amigo (de todas as horas) Filipe Santos, que desafiei a ajudar-me e com quem já havia trabalhado quando liderei um projeto no movimento associativo estudantil na universidade. Na operacionalização, fiz de tudo um pouco, desde a recolha dos equipamentos em casa das pessoas, entregá-los e recolhê-los nas empresas de informática (Strongiga e Cinftec), que gratuitamente os recondicionavam, e transportá-los até às escolas, para que os mesmos fossem cedidos aos alunos", explicou.

O cinfanense reconhece que sempre foi solidário. "Sim, sempre o fui. Gratamente em minha casa e na escola sempre me foram incutidos valores como a solidariedade. Diria até que na comunidade que me rodeia e em geral os portugueses a solidariedade é quase uma questão cultural. Pessoalmente, pratico-a e defendo a ideia que essa deve ser sempre regra e nunca a exceção", frisou.

No caso de Luís Soares, esse sentido de responsabilidade em torno do ser solidário deu-se desde que se lembra "de ser gente". "Na escola primária, no ciclo e na secundária sempre me envolvi em ações de ajuda ao próximo. Sempre gostei muito de ver todos a sorrir de igual forma. Na idade adulta e com uma maturidade diferente, foi maior a consciencialização do quanto uma pequena atitude, um pequeno gesto, uma coisa tão insignificante para nós, pode ser tudo para quem mais precisa", recordou.

Também durante o ensino superior dinamizou diversos projetos solidários, que culminaram em "recolhas de sangue, de medula óssea, de bens e alimentos para ajudar outros estudantes, instituições e a Cruz Vermelha Portuguesa. Fizemos também recolha de rações para animais de associações que passavam dificuldades ou a procura de lares para esses animais", revelou.

E, para terminar, o cinfanense deixa a garantia de que, no que a solidariedade diz respeito, não quer ficar-se por aqui:

Tudo isto serve de motivação para continuar de uma forma humilde, desprendida e descomprometida a fazer mais e melhor pela nossa sociedade e por todos nós.