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Carlos Miranda é diácono em Itália com sabores de Marco de Canaveses na bagagem

José Rocha

01-05-2021

"Para mim o Marco será sempre um lugar que guardo no meu coração, um lugar de repouso e de encontro com a família e com as minhas amizades mais antigas."

A 6 de abril, dois dias depois de se ter celebrado o domingo de Páscoa, Carlos Miranda foi, em conjunto com outro português, ordenado diácono na igreja mãe da Companhia de Jesus: a igreja do Gesù, em Roma. A ordenação do jovem natural da antiga freguesia de Fornos, na cidade de Marco de Canaveses, foi presenciado pelo padre provincial da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, e pelo cardeal português D. José Tolentino Mendonça, que presidiu à celebração.

Ao Jornal A VERDADE, Carlos Miranda reconhece ter vivido um momento “de agrado, muito intenso e muito profundo”, em que sentiu “alegria, consolação, paz e ao mesmo tempo pequenez perante a responsabilidade que o ser diácono comporta: ser diácono é estar ao serviço do amor de Deus, ao serviço da Igreja e do próximo”. Por isso mesmo, esta ordenação representa para si “mais uma etapa neste grande caminho de seguimento de Jesus”, caminho esse no qual espera vir a cumprir o “grande sonho” da sua vida: “ser sacerdote na Companhia de Jesus”.

Para o marcoense, o facto da ordenação ter acontecido no Vaticano pela mão de D. José Tolentino Mendonça teve um significado especial. “É um lugar de grande simbolismo, o que, sem dúvida, dá uma carga emocional muito grande à ordenação. Além disso, o ser ordenado pelo Cardeal José Tolentino de Mendonça deu ainda um ‘sabor especial’ à ordenação, não só por ser português, mas também por ser um homem que muito admiro, que, na sua proximidade e simplicidade, consegue transformar o mais pequeno gesto num ato de beleza”, disse.

Apesar da satisfação, Carlos Miranda lamenta o facto de, devido à COVID-19, esse momento não ter sido assistido ao vivo pelos seus familiares e amigos, que tiveram de assistir através de um ecrã. Porém, o agora diácono garante que todos “se fizeram sentir presentes de todos os modos possíveis” ao “superar a distância física de tantas maneiras diferentes e algumas bastante criativas. A todos estou verdadeiramente muito grato, pois o que inicialmente pensei que seria um vazio, foi preenchido de uma maneira tão rica e consoladora”, agradeceu.

Atualmente, o marcoense está a terminar o primeiro ciclo de Teologia na Universidade Gregoriana. Seguem-se dois anos, em mestrado, em que irá estudar um dos aspetos da Teologia que mais lhe interessa: “o diálogo desta com a ciência e cultura atual”. Depois disso, o seu futuro ainda é “incerto”, embora assuma que voltar ao Marco de Canaveses não está nos seus planos devido aos contornos da vida de missionário. “Sou chamado a dar a minha disponibilidade para ser enviado para onde a Igreja achar mais necessário, pelo que voltar à terra natal, no sentido de viver e trabalhar lá, não faz parte dos meus horizontes. Mas para mim o Marco será sempre um lugar que guardo no meu coração, um lugar de repouso e de encontro com a família e com as minhas amizades mais antigas. E claro, não poderei comer anho assado com arroz de forno ou doces do Freixo em nenhum outro lugar do mundo”, admitiu orgulhoso e com ‘água na boca’.

E, afinal, o que levou Carlos Miranda a seguir a Teologia? Em primeiro lugar, menciona as pessoas com quem se cruzou nesse “processo de encontros e de um aprofundar de conhecimento”, duas das quais de Marco de Canaveses. “O Dr. Nuno Higino, na altura pároco de Fornos, ou o falecido Eng. Mouro Pinto que tanto me ensinou nos escuteiros… são pessoas a quem sou muito agradecido e a quem devo tanto…”

Naturalmente, a vertente espiritual também teve um importante peso na escolha: “Quis aprofundar o conhecimento de mim mesmo, de Jesus, da fé, da Igreja e, em particular, da Companhia de Jesus e do mundo. Um aprofundar que me levou a descobrir um sentido de vida, um desejo de servir e de amar, de seguir Jesus”, recordou.

Para terminar, àqueles que, como ele, “procuram a vontade de Deus para as suas vidas”, Carlos deixa um conselho: “Tenham coragem e confiança pois, tal como nos dizia o D. José Tolentino de Mendonça na sua homilia na ordenação, não há alegria maior do que servir como Jesus nos ensinou”.