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Sequelas da COVID-19 impedem enfermeira de Felgueiras de trabalhar

José Rocha

25-04-2021

“O meu maior receio é o dia de amanhã e a ansiedade de não saber quando é que vai passar totalmente. Quero trabalhar e não consigo, mesmo em casa”, lamentou a enfermeira.

O dia 4 de novembro vai ficar para sempre na memória de Fátima Lachado Vieira. Aos 53 anos, a enfermeira do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS) recebeu o resultado do teste à COVID-19, que deu positivo e cujas sequelas a têm impedido de regressar ao trabalho.

Na altura, mesmo antes de ser testada, a profissional clínica natural de Borba de Godim, na Lixa, concelho de Felgueiras, confessa já estar ciente de que estaria infetada. “Na altura, tinha todos os sintomas: congestão nasal, dores horríveis no corpo, … depois fiz o teste e durante dez dias tive tudo: diarreia, vómitos, cefaleias e, desde o primeiro dia, uma dor na pleural”, que é a membrana que reveste os pulmões e o interior da parede torácica.

De imediato, mais do que com a própria saúde, Fátima temeu pelo bem-estar da família mais próxima: a filha e o marido, já que, pela profissão que desempenha, já tinha cortado o contacto físico com os respetivos pais. “Fiquei infetada durante as férias, pois havia falta de pessoal e tive de ir trabalhar. Depois, estava em casa e só tinha contacto com o meu marido, porque a minha filha também é enfermeira e então separámo-nos. Eu e o meu marido praticamente não dormimos juntos, só estávamos juntos à refeição - colocamos uma segunda mesa para podermos comer juntos”, relatou.

Com todos estes cuidados, nenhum dos restantes elementos da família ficou infetado, o que deixou a felgueirense a suspirar de alívio. “A família é sempre aquilo em que pensamos mais e foi um alívio saber que não estavam infetados”, admitiu.

Para além desse “desconforto maior” que a preocupação com a família representou, Fátima confessa que se sentiu o “orgulho ferido” pelo facto de, independentemente dos elevados cuidados que tinha, ter ficado infetada. “Era muito exigente comigo e com os outros! Toda a gente me criticava pelo excesso de cuidados e depois senti o orgulho ferido”, contou.

Fátima é enfermeira no CHTS há 29 anos. Em janeiro, depois de ter testado negativo, tentou regressar ao trabalho, mas as sequelas da infeção não o permitiram. “Em casa, só de ir da casa de banho ao quarto cansava-me. Sentia uma grande fadiga e, passado um mês, quando voltei a trabalhar, só estive no hospital cerca de 20 dias. Depois tive de voltar, porque não aguentava mais a dor e o cansaço. Até a falar se notava”, recordou com amargura.

Desde então, a enfermeira encontra-se de baixa médica e sem perspetiva para regressar à função que desempenha há quase três décadas. “Já fiz cinesioterapia, visto ter sequelas de espessamento da pleura, o que neste momento me provoca dor e fadiga. A nível pulmonar e no coração não tenho nada, mas estimativa de regresso não tenho. Fui a uma consulta com um médico de pneumologia e ele disse-me que nem pensar em trabalhar para já”, disse.

A par dos sintomas anteriormente descritos, Fátima debate-se ainda com uma depressão, resultante do período passado em casa. “O meu maior receio é o dia de amanhã e a ansiedade de não saber quando é que vai passar totalmente. Quero trabalhar e não consigo, mesmo em casa”, lamentou.

Por isso mesmo, a felgueirense alerta que a pandemia “não é tão fácil como se pensa”, E justifica: “No início, tive menos sintomas, mas agora, todos os dias são diferentes e não há um dia que passe sem dor”, terminou.