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A revolução dos cravos e a “falta de liberdade” dos tempos modernos

Ana Magalhães

25-04-2021

Conheça o testemunho de Arcanjo Luís, natural de Favões, na freguesia de Bem Viver, mas a residir em Alpendorada, Várzea e Torrão, no concelho de Marco de Canaveses, que viveu a época da revolução do 25 de Abril.

D/R

Cravos vermelhos nas pontas das espingardas em “substituição” das balas. Militares nas ruas e a população em alvoroço. O 25 de Abril de 1974 ficará, para sempre, na história de Portugal como o dia em que se colocou um ponto final ao regime ditatorial vivido no país até então.

Se questionarmos os mais antigos sobre esta data, certamente a resposta será “ninguém imagina o que se vivia na época”. Os relatos são de “medo” de se falar em política em público, ou até de se sair à rua sozinho. Os mais velhos recordam uma época descrita como “opressora e de muito receio”.

Se, atualmente, a “falta da liberdade” é colocada em causa devido à pandemia da COVID-19, que obrigou o país a parar e as pessoas a fecharem-se em casa, antigamente, esta era uma realidade, não em termos físicos, mas pela “falta da liberdade de expressão”.

Arcanjo Luís, natural de Favões, na freguesia de Bem Viver, mas a residir em Alpendorada, Várzea e Torrão, no concelho de Marco de Canaveses, viveu esta época e garante: “a falta de liberdade é totalmente diferente. Hoje não podemos sair de casa por causa do confinamento o que significa uma privação da liberdade física, enquanto anteriormente ao 25 de Abril a privação era mais de natureza intelectual, não era possível exprimir livremente o nosso pensamento sem sofrer as consequências e por isso havia o medo de se dizer o que se pensava”, recordou, em declarações ao Jornal A VERDADE.

O homem, atualmente com 73 anos, não foi “um participante ativo da revolução dos cravos”, apesar de, nos anos anteriores ao 25 de Abril, ter estado no Regimento de Infantaria de Aveiro, em serviço militar. “Entrei para a tropa em 1970 e saí em finais 1973. A minha grande preocupação, na altura, era não ser chamado para o Ultramar”, refere, acrescentando que, já na época, “havia uma certa crítica ao Estado, por parte dos militares”. Nas imediações do quartel, “eram feitas várias reuniões pré-25 de Abril”, revela.

HUGO CASTRO

No dia da revolução, Arcanjo Luís, já fora do serviço militar, tinha ido ao Porto “a uma consulta” e acabou por integrar a manifestação como cidadão. “Sentimos que alguma coisa de muito importante estava para acontecer e, depois da rendição do Marcelo Caetano, tivemos a certeza de que tinha sido colocado um ponto final na ditadura que se vivia no país”, sublinhou.

O marcoense garante que esta data ficará “para sempre” marcada na sua vida. “Não era um ativista, mas procurava estar informado. Ouvia rádios em onda curta, que nos davam algumas informações sobre a situação do país, e tinha uma certa preparação para ser um pouco crítico sobre a situação que se vivia”, disse.

Após o 25 de Abril, Arcanjo Luís esteve ligado à implantação do partido PPD no concelho e, segundo afirma, realizou “sessões de esclarecimento em todas as freguesias no concelho”, explicou. Nas eleições para a Assembleia Constituinte foi candidato a deputado, tendo exercido funções a partir de setembro de 1975 e, em abril de 1976 participou na aprovação da Constituição, pelo que atualmente é ‘Deputado Honorário’. “Fui também deputado na Assembleia da República, entre 1976 e 1979”, referiu ainda em entrevista ao Jornal A VERDADE.

“Para mim Abril foi sobretudo o alvorecer de um novo dia em que a esperança se juntava à crença de que era possível viver num mundo diferente, mais livre e mais justo”, concluiu.