Aproximava-se o tempo da Páscoa. E com ele, o telefone tocava mais vezes. A farinha e o açúcar adensavam-se nos armários. Ou pela casa do meu tio Albano, na corte Cabo, ou mais tardiamente, na casa de baixo, onde tínhamos o forno a lenha. Há já algum tempo, que os ovos iam sendo guardados. E caso não os houvesse para guardar, arranjavam-se ovos caseiros para comprar. Tentava-se a manteiga caseira de vaca, nas gentes da Granja, que a faziam (e ainda há quem faça) muito bem. Caso não se conseguisse, comprava-se manteiga Primor. Encomendava-se o fermento de padeiro. Mandavam-se vir embalagens inteiras de farinha Rainha, usada para o Pão Leve e Merlindes, porque era a predileta da minha mãe. Para os Biscoitos de Manteiga, poderia ser “outra qualquer”. Mas para aqueles doces, tinha de ser a Rainha e na sua impossibilidade, a Branca de Neve.

Não se podia esquecer das folhas de papel, para forrar as formas, depois cortadas em biquinhos, a enfeitar o Pão Leve. Algumas formas (que a minha mãe chamava folhetas) foram-se desgastando e furando no fundo, do tanto que conhecerem o intenso calor, do forno a lenha. Eram forradas, debaixo do papel para os biquinhos, com um ou dois pacotes de farinha vazios, para não se notar os pequenos buraquitos e o pão de ló não se queimar por baixo. Eram folhetas particulares. Já com muitos anos (algumas talvez, com a mesma idade que eu), mandadas fazer ao senhor Abílio de Quinhão, das latas de chapa, retangulares, em que antigamente se vendiam as azeitonas.

Avizinhava-se uma semana mais longa que o habitual e de frenesim, sem igual. Mas num desenrasque surpreendente, como se todos os dias fosse o que ela sempre fizesse, a minha mãe tinha pela frente centenas de ovos para bater, enfarinhar, cozer e cobrir. Muitos kilos de Biscoitos para amassar, cozer e cobrir. Mas, do que me lembro (e sempre a Páscoa era uma consumição) começava na terça-feira de tarde. Duas fornadas de Pão Leve: uma para a tia Lucinda e outra, para a senhora Maria do Carmo, do Cabeço. Este era o dia mais tranquilo, porque o Pão Leve e os Merlindes era o mais simples de se fazer.

Na quarta-feira seria o dia de Fermentãos. Para “as do presidente” e para a senhora Maria dos Anjos. E para quem desse para fazer, nos intervalos das fornadas, de várias dúzias de ovos e vários kgs de Biscoitos, que iam ao forno. Lembro-me nitidamente de ver a senhora Adelaide, sentada naquela arca velha de madeira, do lado de baixo do forno, na casa do meu tio Albano. E com o seu jeito tranquilo e pausado de ser, pedir calma à minha mãe, que se atrapalhava com a cor do Pão Leve, que dentro do forno, estava a escurecer… Era preciso tapá-lo, para não queimar por cima, antes de cozer. E isso era feito de forma propícia, de quem se desenrasca com o que tem. E uns rolos de alumínio não eram ao jeito, de abarcar tão grande forno. Eram, então, usados os papéis internos, dos sacos da ração, que se compravam para os bezerros.

Na quinta-feira era dia dos doces para a Paiva, para os Morgados, para os da Fonte ou do Carvão. Ou para os da Vila Nova e os do Lugar d’Além… Era o dia dos que houvesse tempo, para se fazer. E na sexta-feira faziam-se os que ficaram, do dia anterior. E mais alguns pedidos, que sempre à última da hora, acabavam por surgir. E nesse dia Santo, a minha mãe começava a fazer os nossos, que perduravam até sábado e se cobriam na madrugada de domingo. Dos doces feitos para a nossa casa, a maioria era para oferecer. E mais pessoas aparecessem, que ela sempre teria mais para dar…

A minha mãe levantava-se às 5 ou 6 horas, da manhã. E de vésperas ter-se-ia deitado por volta das 2 horas da madrugada. É que depois de cobertos os Biscoitos e os Merlindes (trabalho sempre feito pela noite dentro) era preciso lavar todo o material utilizado, que ao outro dia seria novamente usado. Preparar e arrumar o espaço. E deixar tudo pronto, para de manhã recomeçar. A parte mais “calma” (sem contar as queimadelas nos dedos, com o açúcar em ponto) era sem dúvida, a cobertura dos Biscoitos de Manteiga e dos Merlindes. Mais pessoas se juntavam para cobrir os doces e a boa disposição era garantida. Falava-se sobre histórias engraçadas. O antigamente ou a atualidade, enquanto se sacudia a farinha dos Biscoitos. E se preparavam os tabuleiros, para os colocar a secar ou se esperava o açúcar ficar em ponto. Este era aquecido numa espécie de tacho antiguíssimo de cobre, ao lume, numas temperes, ao calor das labaredas das pinhas (amealhadas previamente, a contar-se para os Doces da Páscoa). O fumo espalhava-se pela casa. E esse era difícil de suportar. Depois de cobertos com açúcar em ponto, os Doces tinham de ser todos virados, para secarem de ambos os lados. E nesses entretantos, comia-se um ou dois e bebia-se um chá ou leite quentes, em contraste com o frio sentido do lado de fora da porta.

A semana antes da Páscoa, era sempre um tempo de muita exigência, responsabilidade e trabalho, para a minha mãe. Sempre assim foi. E sempre o fez de forma gratuita. Por vezes, sem ajuda da parte, de quem lhos encomendava. Às vezes, questiono-me onde ia buscar tanta agilidade, força, destreza e coragem para estes dias. O seu trabalho no campo ficava para depois, em prole, de quem a ela se dirigia, poder ter os Doces, na mesa, no dia de Páscoa. Acho que além dela ser ferrenha, frenética, de uma força imensurável de trabalho, a arte da doçaria lhe corria nas veias. Era hereditário. E estava-lhe nos genes… Muitas outras pessoas se dedicaram a fazer estes doces e fizeram ganho deles ou o seu sustento. Mas da linhagem direta das Júlias, a minha mãe foi (e é) a única descendente viva, que fez estes doces tradicionais. Hoje já não os confeciona. Falta-lhe a saúde, que lhe permitia tantos ovos bater e tantos Biscoitos amassar.

O Pão Leve, os Merlindes e os Biscoitos de Manteiga dela tinham um sabor especial. Como não há igual. Nem nunca vai haver. Talvez por ser descendente da linhagem inicial desta tradição. Talvez por ser minha mãe e isso lhes dar um toque peculiar. Talvez pelas fadadas mãos, que Deus lhes concedeu para trabalho. Para doces, para temperar carnes, fazer assados no forno e outras tão boas iguarias, que se deleitava em confecionar.

A minha mãe aprendeu a arte dos Doces das Júlias e da cozinha, com o pai (Antero Resende) e com a tia Dulce. E até há uns anos atrás, manteve viva essa tradição. Hoje, já não a mantém. Falham-lhe as costas, para se poder desenrascar, no meio de tantas fornadas de doces, nem que lhe corresse mal, como várias vezes aconteceu. Duma vez, os papéis de cobrir os doces no forno (os tais, feitos dos sacos da ração) começaram a arder e a minha mãe, com tamanha aflição, grande parte dos biscoitos caíram no chão. Como não estava ninguém presente, para quem eram os doces, a minha mãe comprou os ingredientes e fez nova fornada de Biscoitos, suportando todos os encargos…

A minha mãe sempre foi (e é) do bem. Sem retribuição financeira, confecionava estes doces, para todos os que lhe pediam. Fosse na Páscoa. Para casamentos. Para eventos festivos. Ou ocasiões especiais. “As pessoas pedem-me e eu não sei dizer que não!” era a resposta que sempre me dava, quando eu a confrontava ou a avisava do ritmo frenético que levava, por esta altura. E sempre ela, a quem assim o quis, ensinou a receita destes maravilhosos doces. Sem esconder segredos, truques ou manias. Sempre se dispôs, a expor tudo. E a ensinar quem quis aprender. E ensinou tanto. Ofereceu ainda mais… E deu muito de si.

Tenho-lhe orgulho nesta forma de ser. Nesta humildade predisposta do bem, aos outros. No sim, aos apelos que lhe eram pedidos. Quer da minha mãe, quer do meu pai. Que assentia que nessa semana, ela o não acompanhasse nas lides do campo. Porque hoje em dia, já não há pessoas assim. Disponíveis e prestativas. De bom grado. Sem pago! E talvez até tenha sido demais… Foi demasiado trabalho para ela. Lembro-me tão bem de tantas vezes a ver de joelhos a misturar a farinha, nas seis dúzias de ovos, que tinha acabado de bater. Do seu rosto corado, do intenso calor do forno. E do lenço que sempre usava, bem preso na cabeça, para que nenhum dos seus longos fios de cabelo, se atravesse a cair, na massa dos doces.

Sei que se voltasse atrás, novamente ela o voltaria a fazer. A minha mãe foi uma eterna doceira, sem nunca doceira o ser. Mas sendo-o, na sua mais bela e pura forma de ser. E pela mulher que foi. Que é. Pelo seu bondoso coração. E pela linhagem de que é fruto. De que, também eu, sou descendente direta. Da qual eu tenho a sorte de pertencer. E tive o privilégio de aprender. Em honra dos Doces das Júlias e em homenagem à Mestre Donzília, pela sua generosidade e bem-fazer, nunca a sua bondade se há de esquecer e nunca as suas receitas se hão de perder…

Lúcia Resende

(Texto dedicado à minha mãe, que imensamente merece este reconhecimento, pelos Doces das Júlias, que nunca faltaram na mesa de tanta gente, pela altura da Páscoa e em diversos eventos festivos.

Autora de algumas fotografias: Helena Figueiredo.)