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Celorico de Basto
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Nuno Filipe Duro sagra-se Campeão Nacional de Cabeleireiro: Uma arte que cuida da alma

O talento e a dedicação técnica de Nuno Filipe Duro foram reconhecidos ao mais alto nível no setor da estética em Portugal durante a tarde deste domingo, dia 12 de abril, no âmbito da Expocosmética, realizada na Exponor em Matosinhos.

Redação

O profissional, natural de Celorico de Basto, alcançou o lugar mais alto do pódio no Campeonato Nacional do Cabeleireiro 2026, vencendo na categoria de Corte e Cor – Estilo Livre e garantindo ainda o terceiro lugar na categoria de Corte Clássico Masculino.

Esta competição é organizada pelo Centro Artístico e Cultural dos Cabeleireiros de Portugal (CACCP) e representa a prova de maior prestígio no setor, reunindo os melhores profissionais do país sob critérios de avaliação extremamente rigorosos. As provas, realizadas sob pressão e em tempo limitado, avaliam a técnica de corte, o domínio da cor, a criatividade, a execução e as condições de higiene de cada participante.

As raízes de uma paixão que nasceu no rés-do-chão

A história de Nuno Filipe Silva Duro Ribeiro com as tesouras não é um acaso do destino, mas sim uma herança visual que remonta à sua infância. Com 31 anos de idade, o agora campeão nacional recorda com clareza o ambiente onde o "bichinho" da profissão começou a ganhar forma, mais precisamente no rés-do-chão da casa da sua avó, onde vivia.

De acordo com o testemunho de Nuno Filipe, naquele espaço funcionava um barbeiro onde passava grande parte do seu tempo livre. "Inconscientemente, acho que o bichinho nasce dali, porque passei ali tanto tempo e tantas vezes. Fica-me com o Nuno, que eu vou só ali abaixo ao talho, diziam eles, e eu pedi-lhe às vezes também para ficar lá", revela o profissional sobre as suas memórias de infância.

Para Nuno Filipe, ir à barbearia era um ritual de fascínio que ia muito além do serviço de estética. O profissional explica que sempre foi um miúdo com uma maturidade acima da média e que adorava ler as revistas de carros e motos, mas sobretudo conversar. "Havia uma coisa que eu gostava muito de fazer, que era conversar com as pessoas. Sempre gostei muito disso. Queria era conversar com as pessoas e saber o que é que elas faziam", explica o cabeleireiro.

O percurso de sacrifício entre o design e a emigração

Antes de se entregar totalmente ao mundo da barbearia, Nuno Filipe Duro explorou outras vertentes artísticas, tendo passado pelo design gráfico e pela fotografia. No entanto, a vontade de seguir o sonho de infância esbarrava numa barreira financeira considerável, uma vez que o curso que desejava realizar no Centro de Estética Nacional tinha um custo de seis mil euros.

O profissional não baixou os braços e decidiu emigrar para França com o objetivo único de juntar o dinheiro necessário para a sua formação. "Juntei dinheiro, vim para cá e no dia que cheguei, no dia a seguir, fui inscrever-me no Centro de Estética Nacional e foi a melhor coisa que fiz até hoje na minha vida", afirma com orgulho.

A determinação de Nuno foi tal que, logo no primeiro mês de formação, enquanto aprendia as bases teóricas, já estava a montar o seu próprio espaço. O local escolhido foi precisamente o antigo rés-do-chão onde funcionava o barbeiro da sua infância, que na altura se encontrava vazio. "Não tinha lá nada e eu pensei: vai ser aqui. Acabou por ser o meu sítio de treinos durante o curso todo", recorda o campeão.

A filosofia do visagismo e a importância da teoria

Para Nuno Filipe Duro, ser um bom profissional exige muito mais do que saber manejar uma máquina ou uma tesoura. O cabeleireiro sublinha que a parte teórica é, frequentemente, a mais negligenciada mas a mais fundamental para formar um profissional de excelência. "Acho que a minha turma éramos vinte e poucos, só três ou quatro é que estão a trabalhar. Ou nos dedicamos mesmo à arte e percebemos a arte, ou então nunca vamos conseguir seguir em frente", adverte.

Um dos pilares do trabalho de Nuno é o visagismo, técnica que foi aprofundar através de uma formação em Espanha. Segundo o profissional, o visagismo permite adaptar o cabelo à estrutura óssea, à personalidade e até à profissão de cada cliente. "Eu não vou pegar num senhor bancário e vou-lhe pintar o cabelo de cor-de-rosa. Isso não faz sentido nenhum. A estrutura óssea é muito importante, a profissão é muito importante e a personalidade é muito importante", defende Nuno Filipe.

A profissão é descrita pelo marcoense como sendo extremamente exigente, tanto a nível físico como emocional. Nuno Filipe Duro destaca a necessidade de ser polivalente na interação humana, uma vez que tem de lidar com dezenas de personalidades diferentes todos os dias. "Tens de te adaptar a todas as pessoas para seres um bom profissional. Não podes falar um dia inteiro só de futebol porque é a tua paixão, ou só de carros porque é o que dominas", afirma o profissional.

A adrenalina da competição e o instinto nos dedos

Após cinco anos a participar regularmente em competições nacionais, Nuno Filipe Duro atingiu finalmente o primeiro lugar que tanto ambicionava. O profissional confessa que as competições são fundamentais para o crescimento técnico e para evitar a estagnação profissional. Além das provas, Nuno realiza cerca de cinco a seis formações anuais para manter as suas técnicas atualizadas.

Sobre o momento da final na Expocosmética, onde as provas têm a duração de 35 minutos, Nuno Filipe descreve uma sensação de quase automatismo fruto de anos de treino intenso. "Já estou tão habituado a isto que neste campeonato há um vídeo onde vês eu a cortar e a olhar para o lado cerca de três ou quatro segundos. Já passa a ser automático, é um instinto nos dedos", revela sobre a confiança demonstrada em palco.

A reação ao anúncio da vitória foi de profunda emoção e ligada às suas raízes familiares. "A primeira reação foi fechar os olhos, pôr a mão no ar e lembrar-me do meu filhote. A segunda foi chamar a pessoa que fez isso possível, o Rafael, que foi o meu modelo", partilha o cabeleireiro sobre o momento da consagração.

Cuidar da alma: O conselho para os novos profissionais

Com o salão aberto ao público, Nuno Filipe Duro encara cada serviço como uma oportunidade de cuidar não apenas da aparência, mas do bem-estar emocional de quem o procura. O profissional trabalha frequentemente com personalidades públicas, mas garante que o seu foco é sempre o mesmo: a autoestima do cliente. "Ir ao barbeiro é cuidar das pessoas. É cuidar das pessoas por fora e cuidar da alma das pessoas. É isso que eu faço", afirma convictamente.

Para os barbeiros e cabeleireiros que estão agora a iniciar o seu percurso, o campeão nacional deixa uma mensagem de encorajamento e uma definição profunda sobre a profissão. Nuno Filipe Duro acredita que o seu propósito de vida mudou radicalmente com o nascimento do seu filho, que hoje tem dois anos e meio, e é esse foco que o faz querer ser melhor todos os dias.

"Para os barbeiros iniciantes, ser barbeiro não é só pegar numa máquina ou numa tesoura, é cuidar da alma das pessoas. Cuidar da aparência física é muito importante, mas cuidar da alma do cliente também é muito importante", conclui o novo campeão nacional, que vê neste prémio não um ponto de chegada, mas um reforço da confiança para continuar a evoluir na arte que abraçou.