Felizmente, hoje, no nosso país, as crianças têm acesso a uma escola pública gratuita.

Se recuarmos umas décadas, damos conta de uma realidade bem diferente. Nem todos iam à escola e estudar era algo reservado às classes mais privilegiadas. As pessoas mais simples (quase todas) ficavam-se pela 4ª classe e, dali, saltavam diretamente para os campos agrícolas ou fábricas.

Estudavam os mais ricos ou, nalguns e raríssimos casos, os filhos de gente muito simples que tinham, estranhamente e contornando o fado das humílimas origens, uma boa cabeça.

Foi esse o caso de uma história que me é bem próxima. D. Maria, analfabeta e mulher do campo como todas as da sua aldeia e do seu tempo, foi chamada à escola. Apresentou-se de lenço na cabeça, avental e socas, trajes de quem antes teria, certamente, pensado o gado, sulcado as terras, ceifado o milho, ordenhado cabras e ovelhas. “A sua filha tem de continuar a estudar”, dissera a professora

. Não sei o que a D. Maria terá sentido ao ouvir estas palavras. Os filhos, naqueles tempos, eram ajudas preciosas aos pais e o mais provável era que a boa cabeça que se destacava na escola, também fosse boa nas lides de casa e nos campos que amanhava a D. Maria.

Diz a filha, recordando essas memórias, que sentia um certo orgulho por ver a sua mãe, tão simples, entre os pais de filhos de doutores. A filha prosseguiu estudos, num esforço económico nada fácil para a família, mas que trouxera ganhos sociais naquele que viria a ser o tempo futuro, o agora nosso presente. Hoje o esforço económico é maioritariamente assegurado pelo estado.

A escola continua a ser uma instituição muito importante. A segunda mais importante depois da casa (família) e a primeira quando esta falha.

A sua importância não se mede pelas notas que os meninos vão tirando nas fichas logo no primeiro ano, mas sim pela soma gradual das aprendizagens que se vão transmitindo e adquirindo, pelas melhorias que se vão conseguindo, pelos amigos que vão sendo feitos, pelas descobertas que vão sendo realizadas, pelos valores que se vão incutindo, pelos passeios dados, pelos recreios e pelas palavras transformadoras dos professores.

“Tens um jeito particular para ler, para escrever, para contar, para dançar”. Não importa que jeito é. Há sempre qualquer coisa numa criança e importa deixar bem claro que esse jeito existe.

Os pais devem relaxar no que toca às notas e garantir que a criança, em primeiro lugar, se porte bem, para que ela possa aprender, deixar que os outros aprendam e que o professor tenha condições e paciência para ensinar.

Talvez alguns “défices de atenção” possam ser evitados de chegar à escola, cultivando a atenção de quem é pequenino com atividades ricas que não passam pela visualização de vídeos no “youtube” e “tik toks” à refeição para manter a criança calma e ocupada.

De facto, o uso de tecnologias entre os 0 e os 5 deve ser acautelado. No meio dos benefícios, não podemos podemos esquecer a extensa lista de contra-indicações já amplamente conhecida pela maioria: perturbações no sono, comportamento, obesidade… Porém, convém ressalvar a existência de estudos, mais recentes, que associam a visualização excessiva de televisão a atrasos na fala, cognição e socialização.

Não será difícil reconhecer que a televisão ou o tablet diminuem significativamente a interação pais/ filhos numa fase em ela é tão importante. Um desafio a todos os pais, numa era de “bleeding edge”, onde as boas cabeças, face à diversidade de problemas que enfrentamos (económicos, ambientais, geopolíticos, energéticos, urbanísticos…) nunca foram tão importantes. Voltar à escola é, afinal, um reduto de esperança e uma oportunidade para transformar o mundo.

Ana Pimenta (Psicóloga da Educação e diretora da empresa Preceptor