Artigo de opinião de Pedro Maciel Barbosa, fisioterapeuta Unidade Local de Saúde de Matosinhos, professor e investigador no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

Apesar dos avanços consideráveis ​​no tratamento – prevenção, tratamento e reabilitação – o AVC é a segunda causa mais comum de morte e uma das principais causas de incapacidade em adultos na Europa (1).

Os avanços nos cuidados agudos significam que mais pessoas sobrevivem com sequelas, com grandes implicações para as suas vidas, as suas famílias e a sociedade em geral (2).

Após 15 anos do diagnóstico de AVC, a literatura aponta que dois terços (63%) das pessoas vivem com alguma incapacidade física, quase dois em cada cinco (39%) apresentam depressão e mais de um quarto (30%) desenvolve compromisso cognitivo. Além disso, são muito mais propensos do que pessoas que não sofreram AVC a viver com outra doença (3).

Com o objetivo de otimizar a funcionalidade e autonomia, a reabilitação pode constituir um serviço poderoso que salva vidas, reintegra pessoas e minimiza custos para as famílias e sociedade (4).

Neste âmbito, a Fisioterapia, sempre em conjunto com outras profissões da área da reabilitação (Fisiatria, Terapia da Fala, Terapia Ocupacional, Psicologia e Enfermagem), pode ajudar os sobreviventes de AVC a participar nas atividades de vida diária, na vida familiar e, quando em idade ativa, a recuperar a participação profissional (5).

A reabilitação, no entanto, não tem sido priorizada em muitos países e frequentemente apresenta poucos recursos. Esta situação não é uma surpresa, pois a reabilitação é muitas vezes vista como uma estratégia de retorno quando as intervenções preventivas, promocionais ou curativas falham, e como um serviço específico para alguns elementos da população. Em contraste com a fase aguda, a reabilitação e as fases posteriores do circuito de cuidados e tratamento do AVC têm sido relativamente negligenciados pelos sistemas de saúde e de investigação (8).

Na verdade, os sobreviventes de AVC em toda a Europa enfrentam inconsistências no tipo e na qualidade das terapias a que tem acesso, muitas vezes dependendo do local onde vivem.

Aguardam demasiado tempo para que suas necessidades imediatas de reabilitação sejam avaliadas e as terapias iniciadas, em geral recebem cuidados sem a intensidade suficiente ou por períodos demasiado curtos (7, 8).

Na Declaração de Helsingborg de 2006, a meta para 2015 de que todos os pacientes com AVC na Europa deveriam ter acesso a um atendimento contínuo, desde o tratamento agudo até a reabilitação em unidades dedicadas ao AVC falhou (5).

Felizmente, há evidências convincentes de que o AVC é altamente evitável, tratável e gerível e existe o potencial para reduzir drasticamente a carga do AVC e suas consequências a longo prazo (9). Há suporte científico e segurança para afirmar que muitas intervenções da Fisioterapia e restantes áreas da reabilitação são custo-efetivas na melhoria dos resultados funcionais e podem ser usadas como modelos de sucesso no cuidado destes pacientes (9).

O planeamento das etapas de alta e transferência entre níveis de cuidados e acompanhamento devem ser garantidos (11). Estes aspetos melhoram a satisfação e permitem criar circuitos mais eficazes dentro do sistema de saúde. Por outro lado, o envolvimento ativo dos pacientes e familiares parece ser benéfico, e os serviços de saúde precisam entender e abordar as lacunas neste apoio ao longo do processo de reabilitação (9).

Para cumprir as metas ambiciosas estabelecidas para 2030 pelo Plano de Ação Europeu para o AVC, os decisores políticos precisam de reconhecer a necessidade de desenvolver vias coerentes de tratamento e reabilitação do AVC, que reduzam os atrasos no tratamento e garantam uma melhoria na qualidade (9).

  1. Johnson CO, Nguyen M, Roth GA, Nichols E, Alam T, Abate D, et al. Global, regional, and
    national burden of stroke, 1990–2016: a systematic analysis for the Global Burden of
    Disease Study 2016. The Lancet Neurology. 2019;18(5):439-58.
  2. Rajsic S, Gothe H, Borba HH, Sroczynski G, Vujicic J, Toell T, et al. Economic burden of stroke:
    a systematic review on post-stroke care.
  3. Crichton SL, Bray BD, McKevitt C, Rudd AG, Wolfe CD. Patient outcomes up to 15 years after
    stroke: survival, disability, quality of life, cognition and mental health.
  4. Lijing L Yan CL, Jie Chen, Rong Luo, Janet Bettger, Yishan Zhu, Valery Feigin, Martin
    O’Donnell, J Jaime Miranda, Dong Zhao, and Yangfeng Wu. Stroke. In: Prabhakaran D, Anand S,
    Gaziano TA, et al., editors. Cardiovascular, Respiratory, and Related Disorders. 3rd edition.
    Washington (DC): The International Bank for Reconstruction and Development /The World
    Bank; 2017.
  5. Matchar DB, Bilger M, Do YK, Eom K. International Comparison of Poststroke Resource Use:
    A Longitudinal Analysis in Europe.
  6. Stucki G, Bickenbach J Fau – Gutenbrunner C, Gutenbrunner C Fau – Melvin J, Melvin J.
    Rehabilitation: The health strategy of the 21st century. (1651-2081 (Electronic)).
  7. The Changing Role of the Hospital in European Health Systems. Cambridge: Cambridge
    University Press; 2020.
  8. Stevens E, Emmett E, Wang Y, McKevitt C, Wolfe C. The Burden of Stroke in Europe: Stroke
    Alliance for Europe; 2017.
  9. Norrving B, Barrick J, Davalos A, Dichgans M, Cordonnier C, Guekht A, et al. Action Plan for
    Stroke in Europe 2018-2030.
  10. Dee M, Lennon O, O’Sullivan C. A systematic review of physical rehabilitation interventions
    for stroke in low and lower-middle income countries.
  11. Forster A, Brown L Fau – Smith J, Smith J Fau – House A, House A Fau – Knapp P, Knapp P Fau – Wright JJ, Wright Jj Fau – Young J, et al. Information provision for stroke patients and their
    caregivers.