A aldeia de Pias, do concelho de Cinfães, é recheada de tradições e costumes e são muitas as festas que, durante todo o ano, são realizadas para relembrar o que era feito antigamente. É o caso do Carnaval, que apresenta uma "das festas mais autênticas da região", o Entrudo.
As atividades vão desde a fogueira de rua, o baile de máscaras com Homens da Gaita, até à mostra de máscaras típicas, não esquecendo a corrida da comadre e do compadre, com o touro que encerra o programa.
Armanda Monteiro tem 76 anos e, desde sempre, que celebra o Carnaval em Pias. "Tenho muitas lembranças destes momentos, porque acompanhei sempre, desde pequena. A tradição manteve-se exatamente como era antes, só os bonecos é que deixam de ser de pau. Eu sou mesmo de Pias, nascida e criada, já nasci com a tradição. Fui estudar para o Porto, mas vinha sempre na altura do Carnaval, não gostava de ficar no Porto", descreveu.

Nos dias de hoje, ainda faz questão de participar, apesar de "já não ir lá para o meio". Mas a comadre "não pode faltar e coloco-a na minha porta".
A tradição contempla as corridas, que começam duas semanas antes do Carnaval. "Na semana dos compadres, as mulheres à socapa dos homens começam a preparar o 'triste' do Compadre, é feito de palha, tecidos de cores garridas e roupas velhas e fica bem escondido até ao dia em que será corrido. Já na semana das comadres, os homens juntam-se e começam a planear a construção da 'coitadinha' da Comadre feita com o mesmo material. A dado momento, no dia das Corridas do Compadre e da Comadre, surge um rebuliço no largo da aldeia e ouve-se o toque forte do corno. Nesta altura homens tentam roubar o Compadre tendo como destino a fogueira, já as mulheres tentam apoderar-se da Comadre", foi explicado.

O Touro de Pias é composto, habitualmente, por dois homens cobertos por uma ou mais mantas, com uns chifres no cimo da cabeça, e um rabo na traseira. "Estes, conduzidos pelo suposto dono do animal, correm a população que se encontra a assistir. Em certos momentos surge alguém que o tenta ordenhar mas este rapidamente entorna a leiteira com os seus coices atingindo a população", foi também referido.
O disfarce típico do Entrudo de Pias contempla mulheres mascaradas de homens e homens mascarados de mulheres, em que são utilizados chapéus, meias, calças, camisas e saias de cores garridas, luvas para que as mãos não sejam reconhecidas, e o elemento principal do disfarce 'a máscara de renda'. Toalhas, cortinas ou panos de renda são colocados na face para que a identidade do mascarado seja ocultada.

Armanda Monteiro passou a tradição para os seus filhos, que "desde sempre participaram" no Entrudo. No entanto, hoje em dia, apenas a filha vive em Pias, mas "também faz questão de colocar o compadre na porta".
Uma tradição que é "importante" ser mantida, segundo Armanda Monteiro. "Estas tradições são a identidade da terra e se não fizessem isto não havia nada, não se podem deixar morrer estes costumes", defendeu, acrescentando que espera que a tradição seja "passada de geração em geração. É importante que os mais novos continuem as tradições".
A septuagenária garante que, enquanto puder, irá continuar a participar nas tradições e sair de Pias não é uma opção. "Quando a morte vier, há-de levar-me daqui", concluiu.

