As irmãs Marisa Cunha e Manuela Cunha, juntamente com a sua mãe, Adelina Guimarães, natural de Figueiró, Amarante, unem forças para realizar as Peregrinações de 13 de Maio, levando normalmente consigo cerca de 400 peregrinos. 

Marisa Cunha, assistente social, dá uma pausa nas suas obrigações profissionais na semana de peregrinação para se dedicar a toda a logística necessária, “tanto no arranque, como na organização de refeições, desde compras a reservas em talhos e peixarias”. É a responsável pela organização de ementas: “Para isso, conto com a ajuda da minha mãe e de uma senhora que, mesmo não sendo cozinheira profissionalmente, é nossa cozinheira voluntária durante aqueles dias”, acrescenta. 

“É a partir do número de peregrinos e de voluntários – que, por norma, rondam as 480 pessoas – que definimos as ementas e organizamos calmamente o número de produtos que serão necessários para toda a caminhada. As ementas são formadas por sopa, prato principal, salada e legumes cozidos e sobremesa”, descreve, acrescentando ainda que prefere “colocar produtos a mais do que depois falhar pelo caminho, porque encontrar produtos necessários para tanta gente em pequenos supermercados não é fácil”.

De forma a evitar essa situação, Marisa Cunha faz toda a organização de forma a levar “tudo preparado desde o início da caminhada”. “Levamos arcas frigoríficas nos camiões para termos todos os produtos no número certo. Apenas os produtos frescos, como o pão, o fiambre e o queijo, são encomendados e comprados ao longo da caminhada”, completa.

A logística é organizada numa reunião que acontece antes do início da peregrinação, onde são decididas “as tarefas destinadas aos voluntários, sejam de limpeza, cozinha, cargas e descargas, ou lavagem da loiça”, sendo estas rotativas entre os voluntários.

Chegamos às escolas ou pavilhões entre as 08h30 e as 09h00, cerca de cinco horas antes dos peregrinos. Começamos por montar as barracas que irão fazer de cozinha e onde os peregrinos irão descansar e fazer as refeições. A partir daí, começamos a organizar todos os produtos que iremos utilizar e começamos logo a preparar todo o processo na cozinha”, informa. 

“Quando esta fase já está em andamento, começamos a descarregar as malas e os colchões dos peregrinos. Desta forma, quando chegarem terão tudo disponível para tomar banho e para, juntamente com os voluntários, decidirem onde querem dormir. Aqui contamos também com a ajuda dos guias para a organização dos pavilhões”, acrescenta Marisa Cunha.  

Nesta área, são “cerca de 80 voluntários, sendo que uns se dividem pela cozinha, pela ajuda direta aos peregrinos que seguem em carros para fornecer água e fruta ao longo da caminhada”, contando ainda com um médico, dois bombeiros de serviço e voluntários dedicados às cargas e descargas, sendo estes “voluntários que permanecem de uns anos para os outros”.

A irmã, Manuela Cunha, faz também serviço de voluntariado nas peregrinações, desde 1997 (embora tenha tido uma paragem de nove anos entre 2001 e 2010), estando ligada à área de enfermagem e auxiliando em contexto médico. “Ao longo da semana, dedico-me ao apoio psicológico que fazemos de manhã à noite, mas também ao tratamento físico, principalmente nos pés, mas também noutras situações que possam surgir”, constata. “Por norma, vou numa carrinha que acompanha os peregrinos de forma estratégica para que possa estar sempre o mais perto possível”, explica. 

Manuela Cunha admite que “há sempre situações que marcam” e recorda: “Tivemos um amigo que, na noite anterior à chegada ao Santuário, teve um problema familiar e, devido ao acompanhamento e ajuda que lhe dei, foi impossível para mim acompanhar os peregrinos e chegar com eles ao Santuário. Para mim, foi estar no lugar certo, no momento certo, porque estava a ajudar o meu amigo, mas, por outro lado, senti impotência, falta de entrega, senti que faltou alguma coisa”.

Esta foi uma situação de ajuda, mas Manuela Cunha conta ainda a situação física mais marcante: “Foi o peregrino que ficou com a planta do pé totalmente sem pele e continuava a caminhar como se nada tivesse nos pés. Ter que lhe fazer os pensos diariamente e ver que ele continuava normalmente foi algo que me marcou bastante”

Estas são situações que acabam por “obrigar” Manuela Cunha a persuadir os peregrinos para que terminem a peregrinação antes da chegada ao Santuário de Fátima. “Uma vez aconteceu uma peregrina estar grávida de três meses, algo que só descobrimos pelo caminho. Ela desmaiava frequentemente e tivemos que obrigá-la a parar”, testemunha, acrescentando que “os peregrinos não lidam bem com isso”, mas que os voluntários tentam explicar. “O que eu digo frequentemente é que uma mãe nunca quer o sofrimento de um filho, que ponha em causa a sua saúde, por isso a Mãe do Céu também não queria. Uso esta frase com regularidade para que eles percebam que o melhor é mesmo parar”, sublinha. 

As irmãs acrescentam ainda que “os futuros peregrinos devem treinar bastante, fazer etapas pequenas e ouvir os conselhos de muitas pessoas que colocam nas redes sociais os cuidados que têm que ter com os pés e com as pernas”.

Para além disso, informam que não há “um número limite para os voluntários”. “Aceitamos a ajuda que nos quiserem dar, até porque há áreas sobrecarregadas, nas quais nos dava muito jeito ter ajuda extra, por isso, estamos abertos a aceitar voluntários na peregrinação de 2023, visto que, este ano, não realizamos a peregrinação devido à situação pandémica”, terminam.  

Texto redigido com o apoio de Ana Ferrás, aluna estagiária da Universidade Fernando Pessoa.