Aos 44 anos, Alberto Fonseca, natural da Lomba, Amarante, viu a sua vida mudar drasticamente quando descobriu que um tumor maligno habitava nos últimos 20 centímetros do seu intestino. Hoje, acredita que falar sobre o problema pode ajudar outras pessoas, mas também a si mesmo, visto que “falar é um sintoma de desabafo do próprio sofrimento”.

Em abril de 2021, Alberto Fonseca começou a sentir que havia alguma coisa que não estava bem: “Andei dois meses bastante mal, sentia-me inchado, como se tivesse acumulação de gases. Andava em constante desespero. Cheguei a chorar sozinho no trabalho, porque não aguentava o mal-estar e não sabia de onde surgiam”

O desespero levou-o a procurar ajuda médica, mas sem sucesso. “Recorri a vários médicos, mas a resposta era sempre a mesma: acumulação de gases. Receitaram-me várias vezes medicação para as dores e para libertar gases e, mesmo depois de terminar a medicação, o mal-estar não se alterava, pelo contrário”, completa. 

A situação foi piorando, sem que se soubesse qual era o problema que gerava as dores extremas, a falta de apetite e a perda de peso. A “acumulação de gases era cada vez mais incomodativa” e para Alberto Fonseca já era impossível manter uma vida saudável. “Sentia que algo não estava bem. Na minha hora de almoço, em tempo de trabalho, vinha o mais rápido possível para casa para me poder deitar no sofá e fazer alguns exercícios de forma a mover os gases com a intenção de os libertar”, confessa.

“Sempre senti fome, mas, ao mesmo tempo, sentia-me muito cheio devido à acumulação de fezes e gases no organismo. Durante dois meses, não comia praticamente nada, o que fez com que perdesse três quilos”, revela. 

23 de junho de 2021 é um dia que “não vou esquecer, embora ainda não soubesse o que estava por vir”. “Senti-me obrigado a parar o trabalho porque aquele mal-estar já se tornava insuportável”, lembra. Logo no dia seguinte, Alberto Fonseca teve mais uma consulta e, mais uma vez, o diagnóstico não se alterava, situação que o obrigou a pensar noutras alternativas: “Tomei dois clisteres, mas a situação só piorou. Depois disso, nunca mais consegui largar gases, já não tinha posição para estar. Eu tentava todas as posições para me sentir melhor, mas não conseguia”, acrescenta. 

A 26 de junho, os amigos do amarantino já não o reconheciam: Alberto Fonseca “tinha perdido o brilho e a boa disposição”. No mesmo dia, um “amigo próximo” conseguiu uma consulta que viria a dar o diagnóstico certo. “Às 22h00, esse meu amigo ligou-me a dizer que no dia seguinte, 27 de junho, às 8h00, tinha uma consulta com um médico no Marco” e foi aí que a sua “vida mudou”, afirma. 

“Depois da consulta e sem me dizer nada em concreto, enviou-me para o Hospital de Santo António, no Porto. Informou-me que tinha um médico que esperava por mim nas urgências”, recorda. Acompanhado pela esposa, o amarantino foi submetido “a uma série de exames, sem saber o que estava por vir”. “Não sei precisar a hora, chegou um médico à minha beira e disse-me, com a maior frieza, que eu tinha um tumor maligno no intestino e que ia ser operado de urgência”, declara, emotivo. 

“Neste momento, só pensava na minha esposa e na minha filha. É um momento difícil, que nunca imaginamos que vai correr bem, algo que não se explica, um sentimento de vazio e impotência, medo e incerteza”, acrescenta. Alberto Fonseca viu-se numa situação “difícil de definir”, quando o médico que o acompanhava perguntou se tinha algum familiar consigo. “Disse que tinha a minha esposa, ao que ele me disse que a iria chamar para eu lhe dar a notícia, mas eu pedi, por favor, que o fizesse por mim. Não tive coragem de dizer à minha esposa que tinha cancro”, confessa.

Depois de descobrir o que o fazia sofrer nos últimos meses, Alberto Fonseca teve que se despedir da esposa e seguir para o bloco operatório, onde seria submetido a uma operação de urgência. “A primeira operação, no dia 27 de junho, não correu como esperado. O tumor foi removido e fizeram logo a ligação do intestino, mas algo não ficou bem e, dois dias depois, os médicos perceberam que as fezes estavam a sair para o meu organismo”, conta, explicando que este problema obrigou-o a ser submetido a uma segunda operação dois dias mais tarde. “Nesta segunda operação, os médicos decidiram colocar-me o saco de colostomia, que me acompanha até hoje e continuo sem saber quando é que o vou largar”, constata. 

“Uma coisa que pode incomodar muita gente é a necessidade de mudar o saco de colostomia, um processo que requer algum cuidado, mas que eu faço com muita naturalidade”, revela, mostrando um grande à-vontade com o assunto. “Eu sei que tenho que trocar o saco pelo menos duas vezes por dia. Claro que depende do que vou comendo ao longo do dia, mas, por norma, é esse o horário. Não sinto vontade, mas sinto alguma coisa quando o saco está a encher”, explica.

Alberto Fonseca mostra-se tranquilo com o processo a que foi submetido e que o acompanha diariamente. “Quando estou no café com os meus amigos, até brinco com a situação. Digo que vou mudar a fralda e, no nosso meio, é tudo mais que normal, isto porque não tenho complexos e acho que é assim que tem que ser. Os meus amigos sempre me deixaram à vontade e eu tenho que lidar com a situação com naturalidade”, expõe, animado. 

“Ao longo do processo, fiz 12 sessões de quimioterapia e perdi 14 quilos. Felizmente, nunca tive grandes sintomas, a única coisa que tenho, até ao dia de hoje, é uma fragilidade térmica que me faz sentir uma espécie de choque”, revela Alberto Fonseca sobre o processo de recuperação. “Os choques que senti eram e continuam a ser incomodativos. Qualquer corrente de ar, principalmente nas mãos, fazia com que eu sentisse choques. A beber água fresca sentia na garganta um choque térmico esquisito. Isto acontece porque a pele está mais sensível”, acrescenta.

Depois de quase um ano de todo este processo e de já ter recuperado o peso perdido, mesmo acompanhado pelo saco de colostomia, Alberto Fonseca considera que ultrapassou esta fase. “Quando percebi que estava limpo, senti que foi uma grande vitória na minha vida. Depois de todo o processo, é um sentimento inexplicável perceber que se ganhou esta batalha”, termina, com orgulho.

Texto redigido com o apoio de Ana Ferrás, aluna estagiária da Universidade Fernando Pessoa.