Março de 2020. Mês em que o país parou devido à pandemia da COVID-19. Passados quase dois anos, e depois de muitos momentos marcantes, com o aparecimento, a cada passo, de variantes da doença, o mundo viu-se agora a braços com uma nova estirpe: a Ómicron.

Apesar de ser “muito mais contagiosa”, esta vairante provoca “uma doença menos grave”, o que leva muitos especialistas a defenderem que o país encontra-se numa fase endémica e não pandémica.

Em entrevista ao Jornal A VERDADE, o pneumologista Agostinho Marques explicou o momento atual da doença, bem como o que se pode esperar para os próximos tempos. “Ainda antes desta variante, quando o outono começou, houve um aumento de casos. Contudo, eram, de uma maneira geral, menos graves. O número de óbitos, em outubro e novembro, continuou a ser residual e os internamentos muito mais baixos”, começou por explicar.

Para o diretor clínico do Hospital Santa Isabel, da Santa Casa da Misericórdia de Marco de Canaveses, a principal razão prende-se com o facto de “a maioria da população ter vacina, o que mudou completamente o comportamento da doença”. Contudo, e com o passar do tempo “a vacina foi perdendo a força”, o que levou à necessidade da aplicação de uma dose de reforço. “Há uma diferença enorme entre quem faz o reforço e quem não faz. Não se tem ouvido falar em surtos em lares, mudou por completo o panorama”, acrescentou.

No entanto, o mundo “ligou” novamente o radar de alerta quando se começou a ouvir falar de uma nova variante, que foi denominada de Ómicron. “Este tipo de vírus vai sempre sofrendo alterações, há mutações, que muitas vezes são inviáveis, apenas sobrevive se tiver alguma vantagem sobre a sua antecessora, nomeadamente se for mais contagiosa”, explicou.

E foi exatamente o que se comprovou com a variante Ómicron, que é “muito mais contagiosa”, mas “muito menos agressiva” e que causa “doença mais leve”. De acordo com Agostinho Marques, “é equivalente às constipações com um pouco de irritação na garganta. Claro que, em alguns casos, é pior do que isso, mas o grosso das situações é uma infeção. É daquelas doenças a que estamos habituados, nesta altura do ano, mas com o título COVID-19”, sublinhou.

E vai mais longe, defendendo que “a COVID-19 está a causar muito poucos óbitos”, o que comprova que “a doença é mais benigna”. Segundo o médico, “em janeiro do ano passado, havia números muito altos, mais baixos que os atuais, mas os números eram feitos por pessoas que tinham sintomas e pelos seus contactos diretos. Hoje não é isso que acontece. A esses somam-se mais as pessoas sem sintomas que são encontradas pela testagem sistemática. Há um número muito alto, mas que em rigor nem doença é. Na maior parte dos atuais milhares de positivos, a larga maioria não tem nenhum desequilíbrio na sua saúde”.

Outra das diferenças encontradas na nova variante é o tempo de incubação que, de acordo com Agostinho Marques, é mais curto. “Entre o contágio e o aparecimento da positividade é muito mais rápido. O vírus está muito mais adaptado aos nossos mecanismos e isso tornou-o mais viável e transmissível, mas também mais suave, como habitualmente acontece com o vírus da gripe. Hoje sabemos que quando há sintomas nos dois dias anteriores há grande carga viral e nos dois dias seguintes também e depois decai, a doença passa muito depressa”, explicou.

Redução de isolamento para sete dias é uma decisão “muito conservadora” por parte da Direção-Geral da Saúde

Com a redução do período de incubação houve também a necessidade de se reduzir o número de dias de isolamento. No passado dia 30 de dezembro, a Direção-Geral da Saúde (DGS) anunciou a passagem de dez para sete dias de isolamento. Decisão que Agostinho Marques considera ser “conservadora”. “Cinco dias era o ideal, só para aquele período fundamental e sem interromper o trabalho para os contactos que estão vacinados. Uma vez que a doença é muito mais benigna já não nos autoriza a dar cabo do país”, defendeu.

Para Agostinho Marques, a COVID-19 já não é uma doença pandémica, mas sim endémica. “Já não o é há algum tempo. Desde que a variante Delta atenuou e a vacinação avançou, a situação passou a ser endémica, ainda que com muita gente atingida. Os casos vão acalmar, acredito que vamos passar um verão tranquilo e, no outono, vamos ter outra vez muitos casos, tal e qual como acontece com a gripe”, sublinhou, acrescentando que é nesse momento que deve ser feito um novo reforço da vacina, “não em todos, mas sim nas pessoas mais velhas. O reforço que se está a fazer é com a mesma vacina original Estou em querer que, no outono deste ano, haverá reforço com uma vacina adaptada a estas variantes, como acontece com a da gripe”.

Agostinho Marques garante que não há “necessidade de alarme”

O pneumologista defende que devem “haver medidas de desconfinamento”, uma vez que “não há necessidade de alarme”, apesar de considerar que “é importante ainda haver alguma contenção, durante algum tempo, para não sobrecarregar os cuidados de saúde primários”.

“Nos últimos tempos, o tom dos especialistas tem mudado. Já podemos encarar o problema, mas a sociedade tem de funcionar e a vida voltar à normalidade. A nossa ambição é voltar à antiga normalidade, não é viver de máscara”, frisou Agostinho Marques.

E é exatamente na obrigatoriedade de máscara que assenta a próxima questão. O médico considera que, por enquanto, esta ainda “é importante para ajudar a conter o avanço das infecções”, nomeadamente em lugares fechados. Contudo, e após o decréscimo de casos, haverá a necessidade de “se ter coragem para retirar o uso de máscara. Os Governos têm mais dificuldade em tirar do que pôr, porque tem sempre um risco muito grande, pelo que há cautela por questões de agenda política”.

No que à obrigatoriedade dos testes diz respeito, Agostinho Marques acredita que se “deve manter em espetáculos e em jogos de futebol”, porque concentra um grande número de pessoas. Sobre a abertura dos bares e das discotecas, o profissional de saúde é a favor. “Abrir com a obrigatoriedade de testes. É melhor tê-los abertos do que fechados. Estando abertos, e com obrigatoriedade de testes, estão controlados. Estando fechados, as pessoas divertem-se de outra forma, não controlada”, concluiu.