Acreditando ou não no poder das rezas e das orações, são várias as pessoas que continuam a procurar nas crenças populares antigas, uma cura para as suas doenças.

Tradições que não ficaram enterradas no passado e que Engrácia Mota, de 77 anos, mantém vivas. Foi aos 22 anos que aprendeu a “coser pulsos, costas, braços”, o que lhe era pedido. “Aprendi com a minha falecida sogra, que sabia talhar tudo”, conta Engrácia Mota que não conhecia a prática popular, “mas ia lá e via”, conta ao Jornal A VERDADE.

Curiosa com o que via, perguntou como funcionava o processo e foi-lhe explicado que “se a pessoa tiver a carne descolada dos ossos diz-se que está aberto”, e com uma reza, “feita durante três dias e com nove repetições de cada vez”, as pessoas ficavam bem.

Engrácia Mota aprendeu a oração e, rapidamente, começou a receber “muitas pessoas” em casa. “Constatou-se que eu sabia ‘coser’ e o povo começou a vir a minha casa”

 “Eu te coso pulso aberto, fio torto, por isso mesmo é que eu coso por poder da virgem maria, apóstolo Santiago, milagroso São Silvestre, que o nosso senhor seja o verdadeiro mestre, tudo o que te faço tudo o que te preste”

Oração

Engrácia Mota relembra uma das primeiras situações, um senhor que trabalhava num talho e que estava com muitos problemas na mão, “não conseguia pegar na faca para cortar a carne e já tinha gasto muito dinheiro”. O talhante, “sem saber o que mais fazer”, descobriu, através de uma nora de Engrácia que esta sabia “coser” e procurou a sua ajuda. “Eu expliquei-lhe: deito um bocadinho de água a ferver na chocolateira (nome típico dado ao púcaro de barro usado durante a reza), começo a oração e a água sobre, mas se não estiver aberto não vai uma pinga de água para dentro”, recorda. Na quarta repetição da oração, “a água sumiu e a bacia ficou sem uma gota de água”, conta Engrácia Mota que concluiu as nove repetições da oração. Depois dos três dias cumpridos, “o homem ficou bem e deu-me os parabéns porque já conseguia cortar muito bem a carne”, recorda.

A partir daí a mensagem começou a espalhar-se e Engrácia recebia “pessoas de todo o lado”. Apesar de nunca ter sido “um modo de vida, as pessoas tinham consciência e davam alguma ajuda. É claro que eu gasto gás para pôr a água a ferver, não é pelo trabalho”.

Uma tradição que se irá prolongar no tempo, pois também as netas, Catarina, Filipa e Sofia, aprenderam com a avó Engrácia a oração. À neta Sofia, ofereceu uma chocolateira e metade do seu novelo. “Já coseu, portanto tenho três netas que já sabem”.

Engrácia Mota continua a “coser” tudo às pessoas que a procuram que, ainda hoje, “são muitas”.