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Marco de Canaveses
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“Há barulho em Lisboa”: A história do antigo combatente que ouviu a Revolução dos Cravos pela rádio 

Sentado à frente de um rádio, de fones nos ouvidos e rodeado por mais de 50 militares do Quartel-General de Nampula: foi assim que Eduardo Abrantes viveu o 25 de Abril de 1974.

Redação

Sendo um dos cinco operadores encarregados de ouvir e transcrever os noticiários nacionais e estrangeiros para a criação de um boletim informativo durante o serviço militar em Moçambique, poucas eram as novidades que escapavam aos olhos de Abrantes.

“No dia 25 de Abril, calhou de não estar de serviço logo de manhã, só ia entrar no período da tarde”, recorda o antigo combatente. No entanto, logo pela alvorada daquela quinta-feira de 1974, um motorista bateu à porta do alojamento dos operadores de rádio. Trazia ordens do Capitão António Melo de Carvalho: um dos militares devia apresentar-se de imediato no quartel para iniciar o serviço.

Estranhando esta necessidade repentina, Eduardo Abrantes questionou o motorista: “Perguntei-lhe o que tinha acontecido e ele respondeu: ‘Não sei, o capitão só me mandou aqui para levar um operador para o quartel depressa porque há barulho em Lisboa’”.

Ao ouvir isto, o combatente não pensou duas vezes. Vestiu-se num instante e seguiu com o camarada para o Quartel-General, sem saber o que o esperava. “Fui com ele para o quartel e foi lá que passei o dia todo, não almocei nem jantei nesse dia. Fiz 25 horas seguidas de serviço nesse dia”, conta Eduardo Abrantes.

A carga de trabalho foi tal que, pelas 08h00 do dia seguinte, o antigo operador ainda estava agarrado às transcrições das notícias da revolução. “Estava lá na nossa secção quando o telefone tocou, era o capitão que, quando soube que era eu a responder, perguntou logo: ‘Ó rapaz, tu ainda aí estás?’”.

Eduardo Abrantes recorda com afeto estes momentos partilhados com António Melo de Carvalho, um dos Capitães de Abril presente na primeira reunião do Movimento dos Capitães, realizada a 9 de setembro de 1973, no Monte do Sobral, no Alentejo.

Aliás, tal era a confiança entre oficial e soldado que, pouco depois dessa primeira reunião, o militar marcoense ficou com o pressentimento de que algo estaria para acontecer. “Já andava desconfiado de que se ia passar alguma coisa. Uns tempos antes da revolução transcrevi uma notícia da BBC de Londres sobre uma reunião de oficiais das Forças Armadas numa herdade no Alentejo. Fiquei ali com a pulga atrás da orelha, transcrevi aquilo mas não juntei às outras notícias. Depois o capitão foi lá à nossa secção e confrontei-o com esta notícia. ‘Ó rapaz, tu não sabes como isto é importante’, disse-me ele. Virei para ele e disse: ‘Ó meu capitão, vai-me desculpar, mas se me disser o que é, fico a saber’. E aí ele disse: ‘Isso era o que tu querias, mas não te posso dizer nada’”.

Desde esse momento, Eduardo começou a desconfiar do que estaria para vir, embora o próprio admita que as notícias que lhe passavam pelas mãos já indicavam ventos de mudança. “Não estranhei ouvir sobre a revolução, pelas notícias que lia notei um conjugar de acontecimentos que indicavam algo que estava por vir”.

Assim, no dia da Revolução dos Cravos, perante o corte das comunicações nacionais, Eduardo Abrantes e todo o Quartel-General de Nampula foram percebendo o que se passava em Portugal através dos noticiários estrangeiros.

“Enquanto estava lá sentado com o rádio e o gravador, atrás de mim deviam estar entre coronéis, tenentes, majores, capitães e soldados, mais de 50 pessoas. Tinha colocado o rádio em voz alta e ali estávamos a ouvir as notícias vindas de Londres a relatar o que tinha acontecido e como o golpe tinha sido consumado. Quando acabou a emissão começaram todos à minha volta aos abraços e aos parabéns, foi um momento de alegria”.

A milhares de quilómetros do epicentro da Revolução dos Cravos, foi assim que o 25 de Abril se fez sentir no Quartel-General de Nampula: através das ondas curtas de um rádio e da dedicação de um operador.