Emília Vasconcelos, docente há mais de 20 anos, alerta para um sistema focado em "números e metas", onde os jovens já não são obrigados a pensar e se limitam a copiar respostas do ChatGPT.
O Ministério da Educação, Ciência e Inovação propõe que os alunos do 12.º ano possam concluir o ensino secundário sem ler uma obra integral do nosso único Prémio Nobel da Literatura. Enquanto a tutela e associações do setor defendem a "diversidade", no terreno as críticas sobem de tom.
Emília Vasconcelos, docente há mais de 20 anos, alerta para um sistema focado em "números e metas", onde os jovens já não são obrigados a pensar e se limitam a copiar respostas do ChatGPT.
O futuro de José Saramago nas salas de aula portuguesas está em cima da mesa e o debate promete aquecer até ao próximo dia 28 de abril, data em que termina a consulta pública lançada pelo Governo. Em causa está uma proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais (AE) do 12.º ano, apresentada pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), tutelado por Fernando Alexandre.
Atualmente, os programas escolares do último ano do secundário preveem a escolha obrigatória entre dois dos mais aclamados romances do Prémio Nobel português: "Memorial do Convento" (1982) ou "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984). Contudo, a nova matriz governamental pretende introduzir uma terceira opção, dando aos professores a possibilidade de escolherem a obra "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde" (1994), de Mário de Carvalho, em detrimento do autor de Azinhaga.
Esta alteração específica não surge isolada. Segundo o MECI, insere-se numa reforma mais ampla do currículo que tem como pilares a atualização de conteúdos e revisão da matriz curricular, a integração da dimensão digital e da Inteligência Artificial de forma transversal, e a reorganização do ensino básico. O objetivo do Governo é que estas alterações entrem em vigor de forma gradual a partir do ano letivo de 2027/2028. Para já, o ministério garante que pretende recolher contributos de especialistas, universidades, escolas e da sociedade em geral, participações que serão posteriormente analisadas pelo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA).
A medida tem encontrado ecos positivos em alguns setores pedagógicos. Em declarações à RTP, Carla Marques, da Associação de Professores de Português, explicou que a introdução da obra de Mário de Carvalho visa precisamente "aumentar a diversidade" e as "temáticas possíveis" na sala de aula. A especialista sublinhou que o livro proposto trata de questões muito atuais, como a "decadência da sociedade", o "populismo" e os "extremismos".
No entanto, a perspetiva de quem lida diariamente com os alunos é radicalmente diferente. Emília Vasconcelos, residente em Tabuado (Marco de Canaveses) e professora de Português há mais de 20 anos, atualmente a lecionar numa escola profissional em Valongo, foi apanhada de surpresa pela notícia em pleno final de período, uma fase marcada pela habitual sobrecarga de atas, reuniões e avaliações, sem que qualquer orientação da direção da escola tenha ainda chegado aos docentes.
Confrontada com a possibilidade de os alunos terminarem o secundário sem ler o nosso único Nobel na íntegra, a professora é perentória. "Não acho que seja uma atualização. Acho que é um retrocesso, é deixar de valorizar aquele que nos representa a nível mundial por ser o nosso único Nobel na literatura", afirma a docente.
Sobre a introdução de Mário de Carvalho como grande "novidade", Emília Vasconcelos desmonta a premissa, revelando que o autor já faz parte do plano de estudos. "Eu já dou Mário de Carvalho no 12.º ano. Dou o conto contemporâneo 'Famílias Desavindas' e parece-me muito bem", explica, reconhecendo, contudo, a diferença abismal de exigência entre os dois escritores. "Penso que será de menor complexidade compreender a obra de Mário de Carvalho em comparação com Saramago. Gosto muito de Mário de Carvalho porque ele é muito 'arejado' nas suas ideias, mas Saramago exige maior reflexão, maior pensamento crítico por parte dos alunos. Não consigo encontrar um ponto de comparação entre um e outro neste momento."
A docente, assumidamente fã de Saramago, alerta ainda para um problema prático da desobrigação: "Sendo facultativo, nós podemos sempre lecionar. Mas, depois não teríamos tempo para dar os conteúdos obrigatórios." A professora teme que a decisão do Governo esteja, no fundo, ligada aos resultados nas avaliações: "Eventualmente, o que possa ter levado a esta decisão é mesmo os resultados não serem os melhores, porque, efetivamente, os alunos têm alguma dificuldade a compreender Saramago."
O primeiro contacto com a escrita de José Saramago é, historicamente, um choque para os jovens. "Se eu pedir a um aluno para ler um texto do 'Memorial do Convento' sem qualquer preparação, uma leitura à primeira vista vai correr mal, porque eles não estão preparados para a ausência de pontuação", confessa a professora marcoense. "Os alunos falam sempre de Saramago quase como um monstro, porque é muito difícil de compreensão".
Ainda assim, a barreira inicial é ultrapassável através do trabalho do professor. Emília Vasconcelos revela que utiliza crónicas do livro "Deste Mundo e do Outro" para mostrar a criatividade do autor e onde os jovens "até conseguem achar piada, achar sentido e identificar-se". Ultrapassada a estranheza da forma, a reação muda. "Eles depois vão percebendo a nível de conteúdo e de mensagem, e os alunos realmente gostam das obras, gostam das histórias que Saramago conta", relata.
A coerência do programa também justifica a manutenção do Nobel. "Este ano, consegui dar o 'Memorial do Convento' e depois abordei ainda um bocadinho do 'Ano da Morte de Ricardo Reis', porque nós damos Fernando Pessoa, damos Ricardo Reis no 12.º ano, e faz sentido falar sobre a obra de Saramago."
Para Emília Vasconcelos, o afastamento de leituras complexas é apenas o sintoma de uma doença maior que afeta o sistema de ensino. A professora denuncia de forma contundente uma "política de facilitismo" em que os alunos "não são obrigados a pensar, não são obrigados a tomar decisões".
O peso das estatísticas e o medo do insucesso parecem ditar as regras nas escolas. "Nós professores, e agora em final de período, temos a sensação que por causa de números e metas há uma série de políticas que quase nos dizem que nós não podemos reprovar alunos", desabafa. A docente concorda em absoluto com a aplicação de medidas especiais para jovens com dificuldades ou incapacidades, mas traça um limite claro: "Agora, nós temos que aplicar [essas medidas] aos alunos que têm essas dificuldades e aos alunos que são preguiçosos e não querem trabalhar. Parece que estamos a criar uma sociedade de 'vamos todos fazer o menos possível para não aborrecer, para que os meninos consigam os objetivos', e isso é muito mau."
O resultado desta falta de exigência está à vista nas salas de aula, agravado pelas novas tecnologias. "Efetivamente, acabamos por não ter jovens que pensam por si, que não leem, que não têm sentido crítico nenhum e agarram-se às redes sociais e ao ChatGPT. O ChatGPT até lhes dá respostas erradas e eles reproduzem-nas porque não têm sentido crítico", alerta a professora.
No meio de uma reforma curricular que promete integrar a Inteligência Artificial e debater o "populismo" com novas obras, Emília Vasconcelos deixa um recado em defesa da dificuldade que forma o caráter intelectual: "Temos que desafiar os nossos alunos, temos que lhes dar algo que os faça pensar, que os obrigue a mobilizar competências de diferentes áreas. É claro que há alunos que têm mais dificuldades em aferir conclusões, mas isso é como em todos os conteúdos. As dificuldades persistem, não é só com o Saramago."