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Paredes
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Dia do Antigo Combatente | "Atravessar riachos com água pela boca e a arma no ar": O combate de uma vida do furriel António Oliveira contra o esquecimento

Assinala-se hoje, 9 de abril, o Dia do Antigo Combatente. A data, ancorada na trágica memória da Batalha de La Lys (1918), estende-se hoje aos veteranos de todos os conflitos, com um peso inegável para a geração que combateu no Ultramar.

António Joaquim Oliveira, residente em Bitarães, Paredes, é um desses rostos. Antigo furriel miliciano dos "Rangers" e atual presidente da Delegação do Vale do Sousa da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra, relata-nos uma vida dividida entre o inferno das emboscadas em Angola, os traumas silenciosos do regresso e a mágoa profunda perante um país e um poder político que, lamenta, "não querem saber do sacrifício para nada".

A História de um país não se escreve apenas nos tratados de paz ou nos gabinetes ministeriais; escreve-se no suor, no sangue e na memória daqueles que marcharam para a frente de batalha. O 9 de abril é, por excelência, o dia dessa memória. Contudo, nas ruas, a data passa muitas vezes despercebida. "Não ligam nada a isso", atira, sem rodeios, António Joaquim Oliveira. Aos 84 anos, a lucidez e a retidão com que fala são as mesmas que o guiaram nas matas de Angola há mais de meio século.

Hoje, no dia em que o Estado evoca a efeméride e assinala o 108.º aniversário de La Lys nas cerimónias oficiais no Mosteiro da Batalha, onde a sua delegação do Vale do Sousa marcou presença, o antigo combatente e comerciante automóvel aposentado abre-nos as portas do passado.

De jovem "lusito" aos Comandos de Intervenção

A viagem de António Oliveira começou muito antes de pisar solo africano. Fez parte da última incorporação de 1963. Tinha acabado de celebrar 22 anos quando seguiu para Mafra com o objetivo de tirar o curso de oficiais milicianos. Durante 18 meses, a sua preparação desenhou um mapa de norte a sul de Portugal: de Mafra seguiu para Tavira para a especialidade, subiu a Braga para dar duas recrutas, rumou a Lamego para integrar os "Rangers", passou por Chaves para instruir soldados, desceu a Tancos para o perigoso curso de minas e armadilhas, até chegar a Abrantes. O destino final era inevitável: o embarque para 28 meses de comissão na Guerra do Ultramar.

No dia em que recebeu a guia de marcha, o jovem furriel não sentiu revolta, mas, sim, o peso de um juramento antigo. "Recordei muito aquilo que aprendi na escola primária, numa canção que dizia: 'Somos pequenos lusitos, mas já firmes e leais. Temos como obrigação defender a nossa pátria e os nossos pais'. Fui mesmo com o sentido de defender o meu país."

Em Angola, o cenário foi de exigência extrema. Começou no Norte, mas o eclodir dos ataques a Leste obrigou à deslocação da sua unidade. E não era uma unidade qualquer. António Oliveira pertencia a uma tropa de intervenção — uma companhia independente composta por 152 homens, sem interferências diretas de um batalhão, o que lhes conferia uma mobilidade tática formidável. Juntamente com uma companhia de fuzileiros navais, patrulharam uma vasta área desde o Luso até Lumbala, rasgando o Rio Zambeze até Caripande, mesmo na fronteira com a Zâmbia.

O batismo de fogo e o medo silenciado

Numa guerra de guerrilha, não há trincheiras marcadas nem frentes visíveis. O inimigo era invisível e o sobressalto permanente. "A 'gente' vai sempre tenso... será que vai ser aqui, vai ser ali?", recorda.

As emboscadas eram o pão nosso de cada dia, numa delas, António acabou mesmo por sofrer um ferimento na perna. Mas, no meio do caos, o verdadeiro teste não era apenas balístico, era psicológico. O "batismo de fogo" ficou-lhe gravado na memória. Durante mais de uma hora debaixo de intenso tiroteio, o pânico ameaçou tomar conta da tropa.

"Havia lá um que dizia 'ei, que eu vou morrer aqui'. E eu também estava a ver a coisa mal, sou humano como os outros, também tive medo. Mas, só lhe dizia: 'cale-se, deixe-se estar quietinho e não se mexa'." A patente pesava mais do que o pavor. Como líder, o furriel teve de trancar as próprias emoções a sete chaves: "O que seria eu demonstrar que tinha medo e os meus soldados dizerem: 'olha, o nosso chefe é um medroso'? Nunca exteriorizei." Depois do choque inicial, relata a frieza a que o ser humano é obrigado: o medo visceral transforma-se num instinto de sobrevivência habituado ao som das balas.

O regresso e as feridas invisíveis

Cerca de 10 mil homens deixaram a vida no Ultramar. Dos que voltaram, muitos trouxeram uma guerra silenciosa dentro da cabeça. Se António Oliveira teve a sorte de regressar sem sequelas psicológicas ("felizmente nunca tive problema nenhum"), o mesmo não pode dizer dos seus camaradas.

Na delegação do Vale do Sousa, o antigo furriel testemunhou as dores do stresse pós-traumático em primeira mão. "Tínhamos ali indivíduos com coisas inacreditáveis. Indivíduos que dormiam com a pistola debaixo da travesseira, indivíduos que de noite gritavam." É aqui que o veterano faz questão de erguer um monumento às grandes heroínas da retaguarda: as esposas. "Ajudámos muitas esposas. Há muitas mulheres que sofreram imenso com estes indivíduos que ficaram completamente passados."

Uma vida de voluntariado no Vale do Sousa

Foi para não deixar os seus homens para trás que António Oliveira abraçou o associativismo. Juntou-se à Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra (APVG) no ano 2000. Dois anos depois, assumiu a presidência do núcleo local e, em 2003, fundou oficialmente a Delegação do Vale do Sousa, cuja dedicação lhe valeu um louvor nacional da APVG no triénio 2003/2005.

Hoje, lidera uma estrutura com cerca de 4.300 sócios (que pagam uma quota anual de 25 euros). Durante anos, a delegação foi um autêntico centro de saúde e apoio jurídico, providenciando medicina geral, psicologia, psiquiatria, enfermagem e advocacia, para além de tratar de toda a complexa burocracia dos ex-combatentes. "É um voluntariado. Não ganho nada com isto, antes pelo contrário, às vezes tenho de pôr do meu dinheiro", confessa.

A luta pelos direitos traz vitórias lentas, mas sentidas. António destaca que, a partir deste ano de 2026, os ex-combatentes passaram a usufruir da isenção total no pagamento de medicamentos. A isto soma-se o recém-criado Cartão de Combatente, que lhes permite deslocações gratuitas na região. "Poucas coisas para já, mas alguma coisa nos tem dado", reconhece.

O silêncio do Estado e a mágoa de uma geração

No entanto, as pequenas vitórias burocráticas não apagam o fosso que se cavou entre a sociedade e os seus veteranos. A desilusão de António Oliveira com a apatia institucional é palpável. Durante anos, enviou meticulosamente o plano de atividades e orçamentos da associação para todas as câmaras municipais da região. Há dois anos, desistiu. "Não ligam nada. Não querem saber disso para nada", lamenta, lembrando com saudade os tempos em que ainda conseguia encher a Casa da Cultura de Paredes com palestras e exposições sobre o Ultramar.

O contraste entre o que os soldados deram e o que Portugal lhes devolveu condensa-se num desabafo amargo: "Fui defender a pátria... e depois houve alguém que deu tudo aos outros de borla."

Neste 9 de abril, António Joaquim Oliveira pede apenas que o país pare por um segundo para tentar visualizar o que é o limite da resistência humana. "O sacrifício que fizemos, a dor que passámos, o suor... Um indivíduo com a mochila às costas a atravessar riachos com água quase até à boca, com a arma no ar... Não fazem ideia. Ninguém faz ideia. Só quem lá andou é que pode dizer alguma coisa."

Ele lá andou. E hoje, no Vale do Sousa, continua firme, leal e de guarda ao seu posto, combatendo agora não nas margens do Zambeze, mas nas margens de um país que teima em esquecer a sua própria História.

 Apoio ao ex-combatente: A Delegação do Vale do Sousa da APVG mantém o seu serviço de proximidade para os veteranos da região e respetivas famílias.

  • Sede: Instalações da Junta de Freguesia de Bitarães (concelho de Paredes).

  • Horário de atendimento: Segundas, quartas e sextas-feiras, das 14h00 às 17h00.