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Lousada
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Quando a perda se transforma em missão: Diana Guimarães e o livro que nasceu do suicídio do pai

Natural de Nogueira, Lousada, Diana Guimarães, 37 anos, vive atualmente em Espanha, onde encontrou trabalho e estabeleceu a sua vida. No entanto, há dois anos, a sua vida sofreu um abalo inesperado que mudaria para sempre o seu percurso pessoal e profissional.

Redação

“No dia 23 de agosto de 2023, quando pensava que tudo na minha vida era perfeito, o meu mundo desabou”, recorda. Diana recebeu a notícia do suicídio do pai através de um GNR de Lousada, e desde então enfrentou um luto marcado por silêncio e dor.

O tabu que torna o luto ainda mais doloroso

“Infelizmente, o tema é tabu ainda e as pessoas não falam, por vergonha, por medos, por tabus, por medo a julgamentos. E isto faz com que o luto pelo suicídio seja ainda mais doloroso”, explica a autora. Depois do funeral, Diana regressou a Espanha e refugiou-se no trabalho, tentando ignorar a dor, até que o corpo lhe deu sinais claros de que algo tinha que mudar.

“No último fim de semana de julho do ano passado, sofri um enfarte. Foi aí que percebi que estava a fazer exatamente o mesmo que o meu pai, mas de uma maneira mais cobarde. Não me cuidava, não comia, não dormia, não descansava, e a única coisa que eu tinha como missão todos os dias era ir encontrar-me com ele para poder de alguma forma descarregar nele toda a infelicidade que rodeava a minha vida”, revela.

O ponto de viragem: parar para se cuidar

A experiência traumática levou Diana a refletir sobre a própria vida e a iniciar um processo de cura. “Quando caí e já não tinha mais onde cair, lembro-me que olhei nas luzes do hospital e perguntei ao meu pai: ‘Se queres que vá ter contigo, eu estou pronta para ir, mas não quero ir’”, conta.

É neste contexto que nasce o livro “Renasci do teu suicídio, meu pai”, escrito em forma de cartas que Diana dirigia ao pai, e que interpreta como se fossem respostas dele. “Foi isso que realmente me ajudou bastante. E com isto tudo comecei a desenvolver, nem sei se posso dizer um gosto, mas uma necessidade de estudar mais, de aprofundar os meus conhecimentos, de perceber em que é que a nossa sociedade está a falhar para que os suicídios sejam um número tão assustador e que infelizmente não param de crescer”, acrescenta.

O suicídio e o estigma social

Diana Guimarães admite que ainda reflete sobre a natureza do ato do suicídio. “Não sei se é coragem, se é fraqueza, realmente é uma coisa que eu não consigo ainda definir. O que eu sei é que, e é aquilo que eu sinto de verdade, que cada um de nós é responsável pela própria vida”, afirma.

A escritora sublinha que, quando uma pessoa sente necessidade de acabar com a própria vida, muitas vezes o que procura não é morrer, mas acabar com um sofrimento insuportável. “Não podemos ser nós a impedi-la. Agora, o que é que leva ao desespero? Eu não acredito efetivamente que a pessoa queira morrer; aquilo que eu acredito mesmo é que quer acabar com aquele sofrimento.”

O choque do inesperado

Diana recorda que nada no comportamento do seu pai dava indícios do que se seguiria. “Se lhe sou sincera, isto nunca me passou pela cabeça que o meu pai pudesse fazer. O meu pai era uma pessoa que aparentava uma felicidade extrema”, conta. A escritora recorda ainda palavras de uma prima: “Eu via todos os dias o teu pai e estava super bem, uma vida estável, uma vida aparentemente feliz.”

Na véspera do suicídio, o pai de Diana tinha partilhado fotografias de um jantar com amigos nas redes sociais. “Nada fazia pensar que isto pudesse acontecer”, sublinha, reforçando a sensação de falha na perceção social e na atenção às pessoas que sofrem em silêncio.

A necessidade de intervenção e escuta ativa

Diana alerta para a importância de criar espaços de atenção e diálogo desde cedo. “Temos que começar pelos mais pequenos, tem que haver um meio de intervenção… falar abertamente, explicar, ouvir os problemas.” Para a autora, a sociedade moderna, cada vez mais digital, corre o risco de negligenciar aquilo que realmente importa: a presença física, a escuta ativa, a atenção e o carinho.

Um livro sobre amor, família e um luto que desafia preconceitos

Apesar da dor que atravessa cada página, Diana Guimarães descreve o seu livro como uma história profundamente luminosa. “Posso dizer que é uma história muito feliz e muito bonita, porque conta a história de um pai muito presente, de um pai que vivia um amor louco pelos seus filhos e pela sua mulher”, afirma. Para a autora, era essencial mostrar que cresceu numa família “muito feliz, muito equilibrada, onde o amor é a base de tudo, onde há muito respeito — e afinal isto acontece”.

Escrever tornou-se um processo de cura, mas também uma forma de desmontar preconceitos sociais associados ao suicídio. Por isso, a edição espanhola inclui um prólogo assinado por um psicólogo especialista em luto, que considerou o livro uma obra de autoajuda. “Analisou o livro e considerou-o um livro de autoajuda, porque realmente desmistifica isto que nós podemos pensar enquanto sociedade: que o suicídio acontece em famílias desfavorecidas, em famílias com problemas de comunicação, em famílias desestruturadas.”

A autora insiste que esta visão está errada — e perigosa. “O suicídio acontece em qualquer pessoa, em qualquer situação familiar, em qualquer situação económica e ao nosso lado.” Para Diana, ignorar esta realidade perpetua o silêncio, afasta quem sofre e dificulta o apoio precoce e eficaz.

“Tudo o que me diziam me doía mais”: quando o luto isola

O luto por suicídio trouxe a Diana um tipo de dor que não esperava — uma dor que, mais do que silenciosa, a afastou de quem tentava ajudar. Questionada sobre se alguém percebeu o sofrimento profundo que a levou a um enfarte aos 36 anos, a autora não hesita.

“As pessoas preocupavam-se comigo, mas eu também vou ser sincera: eu não deixei que as pessoas se aproximassem”, confessa. O problema não era falta de afeto, mas a forma como qualquer palavra chegava até si. “Tudo o que me chegava me doía mais, me provocava mais dor. Isto é a particularidade do luto por suicídio.”

Expressões ditas com preocupação (e sem qualquer intenção de magoar) tornavam-se gatilhos de culpa. “Quando me diziam ‘tu nunca deste conta de nada?’, ‘o teu pai nunca deu nenhum sinal?’, isso, para mim, era culpa. Eu pensava: claro, o meu pai tinha que ter dado sinais e eu não dei importância. A culpada fui eu.”

A autora descreve um círculo difícil de quebrar: por um lado, a tentativa de apoio; por outro, a sensação de acusação, mesmo quando não era isso que lhe queriam transmitir. “Cheguei ao ponto de dizer: ok, eu preciso mesmo de estar sozinha e não ouvir.”

Até frases comuns de consolo se tornavam insuportáveis. “Quando diziam ‘o teu pai não gostaria de te ver assim, tens que ser forte’, dava-me raiva. Eu pensava: como é que o meu pai não gostaria de me ver assim se foi ele que me pôs assim? Eu era feliz até ontem, foi ele que mudou tudo isso na minha vida.”

Outras observações, como “o teu pai podia ter pensado em vocês”, intensificavam o conflito interno. “Tudo o que me dissessem me doía mais e eu precisei realmente de encontrar eu as minhas próprias respostas, e essas respostas estão contempladas neste livro.”

“Tenho duas datas de nascimento”: uma vida dividida pelo trauma

A perda do pai marcou Diana de forma tão profunda que alterou a própria perceção sobre quem é. Quando questionada sobre se esta experiência a tornou uma pessoa diferente, a resposta surge sem hesitação.

“Totalmente. Eu sempre digo: eu tenho duas datas de nascimento. Aquela em que nasci, no dia 27 de abril de 1988, e a minha nova data de nascimento, que coincide com a data da certidão de óbito do meu pai.”

O pai tinha 65 anos. Diana fala dele com ternura e com a certeza de uma ligação única. “Eu era a menina do papá. Aliás, posso-lhe dizer que a última mensagem que o meu pai escreveu do telemóvel foi para mim, a dizer-me justamente que ia fazer isto. A despedir-se de mim.”

A dor dessa mensagem coincidiu com outra certeza: o papel determinante do irmão mais velho para que conseguisse sobreviver emocionalmente àqueles dias.

“A maior preocupação do meu irmão, no funeral, no velório, nos dias seguintes… ele não conseguiu viver o luto dele. O meu irmão estava preocupado comigo sempre, sempre, sempre... a mil por cento. Eu acho que hoje não estaria aqui se não tivesse sido ele a amparar-me.”

Um livro escrito “desde a alma”

O processo de escrita surgiu como um instinto, uma necessidade visceral de dar voz ao que não conseguia dizer em voz alta. “O livro foi escrito de uma maneira muito terapêutica para mim. Eu comecei a escrever para o meu pai e comecei a sentir a necessidade de escrever respostas.”

Essas respostas, explica, não eram planeadas, surgiam de forma quase espiritual.
“Saíam desde a minha alma, como se fosse realmente o meu pai a dizer-me.”

A decisão de enviar o manuscrito para uma editora não foi ponderada, foi um impulso. “Não lhe sei dizer qual foi o dia em que tomei essa decisão. Foi algo que foi mais forte do que eu. Enviei e não esperava resposta.”

A resposta chegou, e foi surpreendentemente positiva. A editora mostrou interesse imediato e classificou o livro também como um instrumento de autoajuda. Mas essa boa notícia trouxe consigo um novo receio: a exposição da família.

A solução passou pela partilha transparente com os que lhe são mais próximos.
“Falei com o meu irmão e com a minha mãe. Expliquei tudo. E o meu irmão disse-me: ‘Diana, ajudou-te? Pode ajudar outras pessoas. Então força nisso, vai em frente. Tens o nosso apoio e estaremos aqui de coração orgulhoso.’”

O apoio não só foi total como se transformou em entusiasmo. “Eles estão mais ansiosos com a apresentação do livro do que eu mesma.”

Uma capa que guarda a presença do pai

Há um detalhe que Diana faz questão de sublinhar: a capa do livro, pensada ao pormenor, carrega uma homenagem íntima.
“A capa tem a mão do meu pai e o anel do meu pai, que era a marca de referência dele. Sei que qualquer pessoa que conheceu o meu pai… só de olhar para o anel, identifica.”

O impacto foi imediato. “Muita gente me ligou a dizer que ficou impactada quando viu a capa nas redes sociais, porque é impossível não fazer a ligação ao meu pai.”

Para Diana, este gesto encerra tudo o que o livro pretende ser: “É uma homenagem muito bonita a ele e é uma maneira de podermos ajudar outras pessoas que vivem o mesmo.”

“Se eu puder evitar um caso que seja, já valeu a pena”

A dimensão da missão que Diana abraçou ultrapassa em muito a esfera privada. O livro nasceu da dor mais íntima, mas depressa se transformou num propósito social.

“Se fosse só uma homenagem, posso-lhe dizer que não tinha entrado em contacto com políticos nem com comunicação social”, explica, justificando: “Iria fazer essa homenagem de forma particular, dentro da minha família. Mas, isto é um tema que tem de ser falado em voz alta. Os números são assustadores, e aqueles que não aparecem na realidade ainda mais.”

A autora fala com convicção: “Se eu puder fazer com que isto mude um pouco, se eu puder evitar um caso que seja… eu já sou feliz. Já mereceu a pena ter escrito este livro.”

Um livro descrito como coragem e amor

Quando perguntamos como é que o livro tem sido descrito, a resposta surge de imediato:
“Descrevem-no primeiro como um ato de coragem por o ter feito, e depois como uma história de amor — linda, linda.”

O feedback tem chegado de todos os lados e tem sido, nas suas palavras, “muito positivo”. Mas mais do que elogios, têm chegado pedidos, muitos deles carregados de urgência emocional.

“Há imensa gente a pedir o livro para oferecer a outras pessoas que estão a viver perdas pela mesma situação.” Entre esses pedidos, houve um que a marcou profundamente: uma mensagem vinda da Alemanha.

“Uma pessoa escreveu-me a pedir o livro para oferecer a uma familiar. O pai dela suicidou-se há quatro anos e desde então ela já tentou suicídio três vezes. Está internada numa clínica psiquiátrica, tem um filho que não consegue cuidar, não consegue viver, não consegue sobreviver a isto.”

Diana respira fundo antes de concluir:
“Se eu conseguir, de alguma forma, acompanhar este coração nesta dor… então essa é a minha missão. Essa é a missão do meu livro.”

Um convite para falar e para agir

A apresentação do livro será mais do que um lançamento literário: será um espaço de partilha, reflexão e participação ativa.

“Será um orgulho, uma honra, poder partilhar este momento com toda a gente que possa vir”, diz. Mas reforça que a presença do público tem um propósito maior: criar um espaço seguro e aberto.

“Vou estar acompanhada por um psicólogo especialista neste tema e vamos ter um espaço aberto a perguntas, dúvidas e também sugestões. Abrir o tema enquanto problema sem tentar encontrar soluções não fazia sentido.”

E essas soluções já estão a ser trabalhadas.

“Temos uma lista de hipóteses, de propostas, que esperamos que os nossos políticos aceitem para que possamos intervir de imediato, para que estes números possam diminuir brutalmente.”

Da dor à vocação: “Hoje dedico-me a acompanhar quem sofre”

A escrita sempre fez parte da vida de Diana, mas nunca imaginou que viesse a publicar um livro, muito menos um que nasceria de uma ferida tão profunda.

“Sempre gostei de escrever, sempre gostei muito de ler, sempre gostei muito de estudar, mas imaginar-me a escrever um livro nunca fez parte de mim”, confessa.
“Mas sim, é uma paixão que me orgulha muito.”

Curiosamente, a sua profissão não estava originalmente ligada ao tema. A vida, porém, encarregou-se de lhe mostrar outro caminho.

“Hoje dedico-me como coach de luto a acompanhar outras pessoas”, revela.
E este trabalho não se resume ao acompanhamento individual: Diana está envolvida em vários projetos sociais que pretendem trazer para a esfera pública temas que costumam ser empurrados para a sombra: a morte e a perda.

“Vivemos cada dia mais perto da morte. É preciso preparar-nos para ela para podermos realmente viver com intensidade e em total plenitude. Não podemos ignorar que ela um dia vai chegar.”