No final de 2019, Enya decidiu trilhar o seu próprio caminho, fundando o L’Enz Design Studio. A escolha de Paços de Ferreira como sede não foi acidental. O amor falou mais alto e a ligação familiar do seu companheiro ditou a geografia. "O meu noivo, o André, é natural de Paços de Ferreira. Como tem uma família grande e queria estar perto deles, acabámos por comprar aqui uma casa. No início, eu nem sequer conseguia dizer «Paços de Ferreira», a pronúncia era-me mega difícil", graceja. Além da hospitalidade das gentes locais, onde assegura que "todos abrem as portas e são muito acolhedores", a localização é um trunfo estratégico formidável. "Estou a 45 minutos de São João da Madeira, a meia hora do Porto e a 20 minutos de Felgueiras e Guimarães. Posso entrar no carro e chegar rapidamente a qualquer fábrica, em qualquer direção".
A trabalhar lado a lado com Inês Soares, o estúdio L'Enz colabora com nomes de peso como a adidas, a Thursday Boots e designers londrinos emergentes. Enya afasta, no entanto, o romantismo puro associado à profissão. "Quem me dera desenhar o dia todo, mas a verdade é que isso representa apenas 10% do nosso trabalho. A maior parte do tempo é passada em reuniões, na elaboração de fichas técnicas, na procura e seleção de fornecedores e no acompanhamento dos desenvolvimentos nas fábricas", assegura.
Para Enya, o sucesso nesta área exige uma polivalência absoluta. "Sempre digo que desenhar é a parte mais fácil. O verdadeiro desafio é ter a consciência de que estamos a desenhar algo que tem de se tornar real. O mais complexo é conseguir explicar aos outros exatamente aquilo que estamos a imaginar", sublinha a mentora, que também partilha o seu saber com alunos do London College of Fashion. "Um bom designer precisa de ter uma excelente cultura geral, um conhecimento abrangente. Eu sei um pouco de tudo. E, como costumo dizer, não sei tudo, mas conheço sempre alguém que sabe".
Com a mira sempre apontada ao futuro, o ano de 2026 marca uma nova fase de investimento na identidade do próprio estúdio, aprimorando a comunicação e a presença digital. E embora o derradeiro objetivo seja lançar uma marca própria de calçado, Enya mantém os pés bem assentes na terra, consciente da dureza da indústria. "Como conheço bem a indústria, tenho plena consciência de tudo o que pode correr mal, dos custos envolvidos e da enorme dificuldade do processo. Ter uma marca de calçado não se resume a ter um desenho bonito. Há todo um trabalho de marketing, logística e serviço ao cliente. Espero um dia reunir a equipa certa para me ajudar a erguer uma marca própria com toda a estrutura que a atualidade exige", conclui. Até lá, continuará a desenhar o futuro a partir de Paços de Ferreira, projetando Portugal para o mundo a cada novo par de sapatos.