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Paços de Ferreira
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De Joanesburgo para a Capital do Móvel: O percurso brilhante de Enya Oliveira no design de calçado

Enya Oliveira nasceu em Joanesburgo, na África do Sul, mas foi em Portugal que encontrou o alicerce para construir uma carreira de excelência na indústria do calçado.

Redação

Aos 32 anos, a designer luso-sul-africana já desenhou sapatos para figuras de renome como Cristina Ferreira e Cristiano Ronaldo, colaborou com a britânica Sophia Webster e aprendeu os segredos da profissão ao lado de Luís Onofre. Hoje, a partir do seu próprio ateliê em Paços de Ferreira, o L’Enz Design Studio, desenvolve projetos originais para marcas internacionais de peso, provando que o talento, aliado a um profundo conhecimento técnico, não tem fronteiras.

Uma herança artística e o apelo inesperado do calçado

Filha de pais portugueses — com raízes familiares divididas entre Lisboa, Algarve e Fátima —, Enya cresceu num ambiente onde a criatividade sempre esteve presente. A arte corria-lhe nas veias de forma inata. "A minha família esteve sempre muito ligada às artes, à pintura e ao desenho, pelo que foi algo que já nasceu comigo", recorda. Com um pai arquiteto, uma mãe ligada ao design de interiores e um tio designer gráfico, a inclinação para este universo era evidente.

No entanto, perante as escolhas habituais das suas amigas, que se inclinavam para o design de moda tradicional, Enya procurava um rumo distinto. "Eu não queria fazer o que toda a gente estava a fazer, basicamente. A minha bisavó tinha sido gaspeadeira, algo que eu desconhecia completamente na altura. Mas a verdade é que sempre gostei muito de sapatos. Um dia, simplesmente pensei: e se fosse designer de calçado?", confessa. O que parecia apenas o desejo de ter um sapato "mega específico" para o baile de finalistas transformou-se no grande propósito da sua vida profissional, numa área que, como a própria admite, "não é muito comum na África do Sul".

O regresso às raízes e o desafio da adaptação

Em 2013, movida pela reputação inquestionável da indústria nacional, Enya aterrou em Portugal para ingressar na Academia de Design e Calçado, em São João da Madeira. A escolha do destino foi imediata: "Quando decidi seguir este percurso, o primeiro destino que me veio à cabeça foi Portugal. Honestamente, nem pensei em ir para outro lado, até porque sou portuguesa".

Apesar da convicção, o choque cultural e a barreira linguística foram imensos. Acostumada a conversas de mesa com os avós, Enya depressa percebeu que o vocabulário técnico exigia muito mais. "Houve quem dissesse que eu duraria apenas seis meses. E porquê? Porque, quando cheguei a Portugal, não conseguia ler nem escrever e falava muito mal a língua. Não achavam que fosse capaz", relembra.

Com o apoio incondicional da mãe nos primeiros meses e a entreajuda dos colegas de curso, a designer superou os obstáculos. A realidade do ensino em Portugal foi também uma agradável surpresa face ao panorama do seu país de origem: "Fiquei muito surpreendida porque venho de um país onde se tem de pagar para tudo. Não existem subsídios nem temos uma estrutura idêntica".

Foi durante o curso que surgiu o momento de viragem. No verão de 2014, Enya iniciou um estágio curricular com o consagrado estilista Luís Onofre, experiência que se estenderia até à coleção primavera-verão de 2015. A oportunidade de vivenciar o chão de fábrica mudou tudo. "Foi incrível estar a desenhar dentro da fábrica e conseguir ver, em poucas horas, um produto passar do papel em 2D para a realidade em 3D. O Luís Onofre tinha tudo à mão e deixou-me entrar no seu mundo sem qualquer limitação, tornando-se num mentor muito importante para mim", assume.

De Itália aos passos de Cristina e Cristiano

Procurando alargar os seus horizontes, a designer embarcou num programa Erasmus em Pádua, Itália, onde colaborou com o estúdio Eclectica, desenvolvendo propostas para gigantes como Love Moschino e Tosca Blue. "Itália vive em torno das feiras. Ir pela primeira vez à MICAM e à Lineapelle representou um momento de enorme crescimento profissional", salienta. O regresso a solo nacional abriu-lhe as portas da televisão e do grande público através da marca CF Cristina. Curiosamente, Enya estava longe de imaginar a dimensão do projeto: "Como venho da África do Sul, a verdade é que, quando recebi o convite, não fazia a menor ideia de quem era a Cristina Ferreira".

Desde a primavera-verão de 2016 até 2019, acompanhou sete coleções da apresentadora. "Acompanhava o processo do início ao fim", relata. O grande desafio passava por "criar uma coleção coerente que representasse a Cristina", equilibrando os modelos de assinatura com os fundamentais modelos de massas (volume drivers), essenciais para a sustentabilidade comercial.

A inquietude criativa levou-a a Londres, em 2019, para trabalhar com a aclamada Sophia Webster. Mergulhada no universo experimental da London Fashion Week, Enya descreve o período de seis meses como "surreal". Contudo, um convite irrecusável fê-la regressar a Portugal: desenhar para a marca CR7, associada a Cristiano Ronaldo. Como designer sénior de calçado e acessórios, liderou a criação de 33 coleções num segmento predominantemente masculino. Perante as restrições contratuais do jogador, que a impediam de explorar as tão desejadas sapatilhas, a criatividade teve de imperar. "Tínhamos de pensar noutra forma de apresentar o calçado, continuando a agradar ao público masculino", explica. Fazer parte da equipa destas duas figuras de proa portuguesas é hoje motivo de grande orgulho: "Fazer parte disto foi muito especial para mim".

A consolidação em Paços de Ferreira e a realidade do estúdio

No final de 2019, Enya decidiu trilhar o seu próprio caminho, fundando o L’Enz Design Studio. A escolha de Paços de Ferreira como sede não foi acidental. O amor falou mais alto e a ligação familiar do seu companheiro ditou a geografia. "O meu noivo, o André, é natural de Paços de Ferreira. Como tem uma família grande e queria estar perto deles, acabámos por comprar aqui uma casa. No início, eu nem sequer conseguia dizer «Paços de Ferreira», a pronúncia era-me mega difícil", graceja. Além da hospitalidade das gentes locais, onde assegura que "todos abrem as portas e são muito acolhedores", a localização é um trunfo estratégico formidável. "Estou a 45 minutos de São João da Madeira, a meia hora do Porto e a 20 minutos de Felgueiras e Guimarães. Posso entrar no carro e chegar rapidamente a qualquer fábrica, em qualquer direção".

A trabalhar lado a lado com Inês Soares, o estúdio L'Enz colabora com nomes de peso como a adidas, a Thursday Boots e designers londrinos emergentes. Enya afasta, no entanto, o romantismo puro associado à profissão. "Quem me dera desenhar o dia todo, mas a verdade é que isso representa apenas 10% do nosso trabalho. A maior parte do tempo é passada em reuniões, na elaboração de fichas técnicas, na procura e seleção de fornecedores e no acompanhamento dos desenvolvimentos nas fábricas", assegura.

Para Enya, o sucesso nesta área exige uma polivalência absoluta. "Sempre digo que desenhar é a parte mais fácil. O verdadeiro desafio é ter a consciência de que estamos a desenhar algo que tem de se tornar real. O mais complexo é conseguir explicar aos outros exatamente aquilo que estamos a imaginar", sublinha a mentora, que também partilha o seu saber com alunos do London College of Fashion. "Um bom designer precisa de ter uma excelente cultura geral, um conhecimento abrangente. Eu sei um pouco de tudo. E, como costumo dizer, não sei tudo, mas conheço sempre alguém que sabe".

Com a mira sempre apontada ao futuro, o ano de 2026 marca uma nova fase de investimento na identidade do próprio estúdio, aprimorando a comunicação e a presença digital. E embora o derradeiro objetivo seja lançar uma marca própria de calçado, Enya mantém os pés bem assentes na terra, consciente da dureza da indústria. "Como conheço bem a indústria, tenho plena consciência de tudo o que pode correr mal, dos custos envolvidos e da enorme dificuldade do processo. Ter uma marca de calçado não se resume a ter um desenho bonito. Há todo um trabalho de marketing, logística e serviço ao cliente. Espero um dia reunir a equipa certa para me ajudar a erguer uma marca própria com toda a estrutura que a atualidade exige", conclui. Até lá, continuará a desenhar o futuro a partir de Paços de Ferreira, projetando Portugal para o mundo a cada novo par de sapatos.