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Baião
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Puzzles, latas e memórias de uma vida: O projeto premiado de Baião que leva a "ginástica mental" a quem já se esquece

Hoje, 29 de janeiro, assinala-se o Dia Mundial do Puzzle. O que para a maioria é um passatempo de lazer, em Santa Leocádia de Baião transformou-se numa ferramenta de saúde pública.

O CECAJUVI venceu o "Prémio BPI Fundação ”la Caixa” 2025" e prepara-se para lançar, já em fevereiro, um projeto inovador de combate à demência. A missão é clara: se os utentes não podem ir à instituição, vai uma equipa especializada a casa deles. Entre as manhãs desportivas e as tardes de concentração, esta é a história de como se luta contra o tempo com afeto, onde até uma imagem de uma máquina de costura pode fazer brilhar os olhos de quem já perdeu as palavras.

Quem entra no CECAJUVI (Centro de Convívio e Apoio à Juventude e Idosos) e vê um grupo de seniores concentrado num jogo de tabuleiro, pode pensar que é apenas entretenimento. Mas, para Susana Pereira e Tânia Vieira, o que ali acontece é ciência aplicada com doses massivas de humanidade.

A instituição, situada num território onde a população é cada vez mais envelhecida, deparou-se com uma realidade dura: quem os procurava, chegava já com um declínio cognitivo avançado ou com demência diagnosticada. Faltava uma resposta que não se limitasse a cuidar, mas que estimulasse. Foi essa lacuna que motivou a candidatura ao Prémio BPI Fundação ”la Caixa”, conquistado em finais de 2025.

"O projeto é direcionado para pessoas com demência e declínio cognitivo, e o objetivo é desenvolver atividades de estimulação de forma estruturada e inovadora", explica Susana Pereira, diretora técnica que assumiu funções em outubro de 2020. A responsabilidade é grande, mas a equipa criada para o efeito está à altura: o projeto financia um grupo multidisciplinar composto por um terapeuta ocupacional, uma psicóloga e uma psicomotricista.

A ciência: A "reserva cognitiva" e o retardar do inevitável

A diretora técnica é rigorosa quanto às expectativas. Não se trata de uma cura milagrosa, mas de "retardar a perda". Susana Pereira recorre ao conceito de "reserva cognitiva" para explicar a importância do Dia Mundial do Puzzle.

"Do ponto de vista técnico, os puzzles e jogos de tabuleiro ativam várias funções em simultâneo: memória, atenção, linguagem e raciocínio. Esta ativação regular promove a capacidade do cérebro encontrar estratégias alternativas perante o envelhecimento ou a doença", detalha.

O objetivo é manter as capacidades por mais tempo e, acima de tudo, preservar a autonomia de cada um. Os resultados, segundo a responsável, são visíveis: "Melhoram a atenção, a capacidade de concentração, o humor e a confiança".

Inovação: Levar a terapia ao "conforto do lar"

A grande novidade deste projeto, que arranca, efetivamente, na segunda ou terceira semana de fevereiro, é a sua abrangência. Não se destina apenas aos 27 utentes de Centro de Dia ou aos 24 do Serviço de Apoio Domiciliário. É um serviço totalmente gratuito, aberto a toda a comunidade com mais de 65 anos, pensado e desenhado para ir ao encontro das pessoas.

"Vamo-nos deslocar a casa das pessoas", garante Susana. A equipa percebeu que muitos idosos não têm transporte ou, simplesmente, preferem não sair do seu "espaço de conforto e paz". Assim, a estimulação cognitiva bate-lhes à porta.

Além disso, o projeto abraça uma figura muitas vezes esquecida: o cuidador informal. "Ser cuidador não é fácil", reconhece a diretora. Por isso, as sessões também servirão para dar dicas e suporte emocional a quem cuida de familiares em situação de vulnerabilidade. A sinalização destes casos será feita em parceria com o Centro de Saúde e o Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS).

No terreno: Manhãs de atleta, tardes de estratégia

Quem aplica esta teoria no dia a dia é Tânia Vieira, animadora sociocultural na instituição desde junho de 2021. Lida diariamente com um grupo maioritariamente feminino, com idades compreendidas entre os 66 e os 95 anos.

Tânia descreve uma rotina meticulosamente planeada de acordo com o nível de energia dos utentes:

  • As Manhãs (10h15 - 12h00): É o horário nobre da atividade física. "Eles estão mais ativos", conta a animadora. Jogam bowling, participam no "jogo das latas", atiram bolas aos arcos ou fazem competições de "puxar a garrafa com o fio" (dois a dois). A competitividade é real e saudável, com os idosos a perguntarem ansiosamente: "Quando é que eu vou? Quando é a minha vez?".

  • As Tardes: Após o almoço, quando a sonolência aperta, a estratégia muda para atividades sentadas e cognitivas. É a hora dos puzzles, dos dominós, das cartas e dos jogos de memória.

"Já sou velho para isto": Vencer a resistência sem pressão

A introdução destas atividades nem sempre é imediata. Tânia Vieira concorda, quando questionada, que a primeira reação é muitas vezes de recusa: "Dizem 'já não vale a pena aprender nada', ou 'já sou velho'".

A "fórmula mágica" para ultrapassar esta barreira é a ausência total de pressão. "O objetivo é desfrutarem do momento. Quando percebem isso, a resistência transforma-se em envolvimento e encaram o jogo como algo divertido. Depois, até pedem para repetir", revela a animadora.

Para os casos de declínio cognitivo muito avançado, onde o utente já não consegue fisicamente pegar ou encaixar uma peça, a abordagem é inclusiva. "O facto de estarem ali a assistir, a interagir com um simples sorriso ou um olhar, traz bem-estar emocional. Mesmo sem executar a tarefa, estão a participar", reforça Susana Pereira. A música e a adaptação individual completam este quadro de cuidados.

A Costureira e a máquina: Uma lição de amor

Para ilustrar o impacto real destas terapias, Susana Pereira partilha uma história que emocionou a equipa. Havia uma utente, antiga costureira, cuja memória já estava muito afetada. As técnicas decidiram imprimir uma imagem de uma máquina de costura e transformá-la num puzzle.

"Quando a utente viu o resultado final, a felicidade dela foi imensa", conta a diretora. "Ela já não foi capaz de nos dizer o que aquilo era, não conseguiu verbalizar, mas foi um sorriso tão grande... Foi bom ver aquela felicidade".

É este o conselho que Susana deixa às famílias neste dia temático: integrem os jogos na rotina, mas adaptem-nos à história de vida da pessoa. "Mais do que a dificuldade do jogo, importa a consistência, o afeto e a partilha. Um puzzle adaptado pode ser um momento de amor".

Solidariedade, boccia e o encontro de gerações

Os benefícios extravasam a parte cognitiva; são um motor social. Tânia Vieira nota que o isolamento se esbate à volta de uma mesa de jogo. Cria-se uma rede de interajuda: "Eles dizem uns aos outros 'atira mais alto', 'faz assim'. Há solidariedade".

Os jogos funcionam também como ponte com o exterior. Tânia recorda os tempos em que iam jogar Boccia com outras instituições: "Era muito bom para eles, até reviam amigos que já não viam há muito tempo".

Internamente, a ponte faz-se com os mais novos. Durante as "férias divertidas" de verão, as crianças convivem com os idosos através dos jogos de tabuleiro. "O jogo facilita a conversa e promove o respeito mútuo. Para os jovens é uma aprendizagem humana; para os idosos é valorização pessoal", resume Susana.

Com o arranque do novo projeto previsto para meados de fevereiro, a diretora técnica faz questão de deixar uma palavra final de apreço a quem torna tudo isto possível: as colaboradoras da instituição. "É um trabalho diário, muitas vezes silencioso, feito com enorme profissionalismo e humanidade. São elas que transformam um simples puzzle num momento de dignidade".

Em Baião, a mensagem é clara: o envelhecimento não é um fim, e como diz Susana Pereira, "pode e deve ser vivido com respeito, estímulo e afeto".