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Sociedade
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Estudo conclui que tratamento da insuficiência cardíaca pode ser acelerado com segurança

Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) revelou que o início simultâneo de dois tratamentos em doentes com insuficiência cardíaca é uma estratégia viável e segura.

Redação

A descoberta promete acelerar o acesso dos doentes às terapêuticas recomendadas pelas diretrizes internacionais, contrariando a prática clínica comum de introduzir os fármacos de forma faseada.

Até à data, existiam dúvidas sobre a eficácia e a segurança de iniciar diferentes medicamentos ao mesmo tempo, o que levava muitos médicos a hesitar por receio de efeitos adversos, optando por espaçar a introdução de um novo fármaco entre um a três meses. Segundo João Pedro Ferreira, professor, investigador da FMUP e autor principal do estudo, esta investigação demonstra que, com o acompanhamento adequado, uma abordagem mais rápida não só é exequível como segura.

Publicado no passado mês de janeiro no Journal of the American College of Cardiology, o ensaio clínico focou-se em doentes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, uma condição em que o coração tem dificuldade em bombear o sangue de forma eficaz. A investigação acompanhou 62 participantes (29 no grupo de tratamento simultâneo e 33 no grupo sequencial), com uma média de idades de 68 anos e maioritariamente do sexo masculino. Os pacientes encontravam-se a ser seguidos nas Unidades Locais de Saúde de São João, Santo António, Gaia/Espinho e Matosinhos.

Durante cerca de seis meses, a equipa testou a aplicação das terapêuticas consideradas o "pilar" no tratamento desta patologia: o sacubitril/valsartan e os inibidores do SGLT2. A monitorização focou-se na ocorrência de eventos clínicos relevantes, concluindo-se que o grupo que iniciou os dois fármacos em simultâneo não registou um aumento de complicações graves em comparação com a estratégia sequencial. Não se verificaram sinais de pior tolerância renal, baixas graves da pressão arterial ou alterações perigosas nos níveis de potássio, nem um aumento nas idas à urgência ou mortalidade.

João Pedro Ferreira, que integra também a unidade de investigação RISE-Health, sublinha os resultados positivos da intervenção conjunta. O investigador garante que ao fim de 12 semanas todos os doentes que continuavam no estudo já se encontravam a tomar ambos os medicamentos e que a maioria conseguiu atingir as doses-alvo pretendidas num espaço de 24 semanas.

A insuficiência cardíaca é uma doença crónica grave, caracterizada por sintomas limitantes como a falta de ar e a retenção de líquidos, assumindo-se como uma das principais causas de mortalidade em pessoas com mais de 65 anos. Em Portugal, estima-se que mais de meio milhão de pessoas vivam atualmente com esta patologia, uma fatia da população que poderá agora beneficiar desta nova evidência científica para uma otimização mais rápida e eficaz do seu tratamento.