logo-a-verdade.svg
Sociedade
Leitura: 5 min

"Blue Monday": Hoje é, alegadamente, o dia mais triste do ano (e o tempo lá fora parece concordar)

Chama-se "Blue Monday" e calha na terceira segunda-feira de janeiro. Embora a ciência rejeite o rótulo, a data ganhou vida própria. Hoje, 19 de janeiro de 2026, a meteorologia em Portugal parece ter-se aliado a esta teoria melancólica.

Redação

Se acordou hoje a sentir que o fim de semana já vai longe, que as luzes de Natal são uma memória distante e que o verão nunca mais chega, não está sozinho. Celebra-se (ou lamenta-se) hoje a "Blue Monday" – ou Segunda-feira Azul –, uma data que carrega o infame título de "dia mais triste do ano".

A efeméride não é oficial, mas a coincidência deste ano é difícil de ignorar: o estado de espírito sugerido pela data encontra um espelho nas previsões meteorológicas para Portugal.

Uma fórmula matemática (com muito marketing à mistura)

A origem deste conceito remonta a 2005 (com raízes em 2004), quando o canal britânico Sky Travel lançou uma campanha de imprensa baseada numa equação desenvolvida por Cliff Arnall, um psicólogo então ligado à Universidade de Cardiff. O objetivo era comercial: identificar o momento em que as pessoas estariam mais suscetíveis a marcar férias para fugir à tristeza, impulsionando as vendas de viagens.

Arnall criou uma fórmula curiosa que tentava quantificar a melancolia. A equação cruzava variáveis como:

  • As más condições meteorológicas típicas de janeiro;

  • O nível de endividamento acumulado durante a época festiva;

  • O tempo decorrido desde o Natal;

  • O fracasso das resoluções de Ano Novo;

  • Os baixos níveis motivacionais e a necessidade de agir.

O resultado apontou para a terceira segunda-feira de janeiro. Curiosamente, anos mais tarde, o próprio autor viria a distanciar-se da criação, admitindo que se tratava de pseudociência sem validação empírica. Contudo, o fenómeno mediático já estava instalado.

O cenário em Portugal: Inverno rigoroso valida o "Azul"

Se a base científica é nula, a realidade atmosférica de hoje dá força ao mito. Segundo as previsões do IPMA para este 19 de janeiro, o cenário em Portugal continental foi condizente com a melancolia da data.

O inverno instalou-se com convicção: com céu muito nublado, especialmente nas regiões Norte e Centro, acompanhado de temperaturas baixas e formação de geada no interior. O vento, soprando de norte e noroeste, acentuou a sensação térmica de frio, sobretudo nas terras altas. Embora o Sul possa ter vislumbrado algumas abertas, o frio foi transversal. O cenário repete-se nas ilhas, com instabilidade e chuva fraca nas zonas altas da Madeira.

Porque é que o "Azul" é triste?

A associação da segunda-feira à tristeza não é nova. Há muito que o primeiro dia da semana de trabalho carrega estigmas, desde o "Saint Grouchy" (Santo Rabugento) até ao conceito moderno de "Smonday" (a ansiedade que começa ainda no domingo à tarde).

Ma,s a ligação específica da cor azul à tristeza tem raízes literárias profundas. O primeiro registo conhecido pertence a Geoffrey Chaucer, escritor inglês do século XIV, que no poema The Complaint of Mars escreveu sobre "lágrimas de azul e um coração ferido". A expressão "feeling blue" (sentir-se azul/triste) perpetuou-se na língua inglesa e globalizou-se.

O reverso da medalha: O dia mais feliz

Para contrabalançar o peso deste dia, a mesma "ciência" que criou a Blue Monday identificou o seu oposto. O dia mais feliz do ano está associado ao solstício de verão, ocorrendo habitualmente entre 21 e 24 de junho. Nessa altura, a combinação de dias longos, temperaturas quentes, convívio ao ar livre e a antecipação das férias cria o pico oposto de felicidade.

Mais do que uma data no calendário

Apesar das origens comerciais, a Blue Monday acabou por ganhar uma utilidade social inesperada. Especialistas em saúde mental aproveitam a efeméride não para validar a "tristeza programada", mas para alertar para fatores reais: a depressão sazonal, a fadiga pós-festas e a pressão financeira de janeiro são desafios legítimos.

Quer seja o dia mais triste do ano ou apenas mais uma segunda-feira fria de janeiro, a verdade é que o conceito perdura. E se hoje sentiu o peso do dia, lembre-se: a culpa pode ter sido apenas da equação de Cliff Arnall – ou do céu cinzento que cobriu o país.