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Celorico de Basto
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De Fervença para o Mundo: Vitória, a jovem bailarina de 8 anos que leva Celorico de Basto a Dublin

Com apenas oito anos de idade, Vitória Ribeiro já sabe o que é pisar os grandes palcos e arrecadar o ouro.

Redação

 Natural de Fervença, no concelho de Celorico de Basto, a jovem bailarina prepara-se para viver o sonho de qualquer atleta da sua área: disputar a final mundial do Dance World Cup, que terá lugar na cidade de Dublin, na Irlanda. O passaporte para esta prestigiada competição foi carimbado na Exponor, no Porto, onde Vitória conquistou um majestoso primeiro lugar num solo contemporâneo.

O talento da jovem celoricense traduz-se em números impressionantes. No total da sua recente participação no Porto, entre provas a solo e dança em grupo, a bailarina arrecadou oito medalhas, distribuídas entre seis de ouro, uma de prata e uma de bronze. Mas, por trás do brilho das medalhas, existe uma história de dedicação extrema, sacrifício familiar e uma paixão que nasceu de forma inocente em frente a um ecrã de televisão.

O despertar de uma paixão aos dois anos e meio

A ligação de Vitória à dança começou muito antes de ter idade para frequentar o ensino básico. Patrícia Ribeiro, mãe da bailarina, recorda o momento exato em que a filha descobriu o fascínio pelo ballet. A inspiração surgiu através do cinema de animação.

"Ela viu o filme 'Bailarina'. Tinha dois anos e meio, pouco mais. Ficou encantada e disse logo que queria ir para o ballet", partilha a mãe. A princípio, a família reagiu com surpresa. Conhecendo a energia inesgotável da menina, duvidaram que a disciplina clássica fosse o seu caminho. "Ficávamos a olhar para ela com alguma dúvida, pois, como é muito ativa, não achávamos que fosse uma atividade de que fosse gostar", confessa.

No entanto, a vontade de Vitória não era passageira. Em casa, a menina "começava a ensaiar pequenos passos, pedia sempre para ver vídeos de ballet e tentava aprender através da televisão". A procura por uma escola começou, mas a primeira experiência não correspondeu às expectativas da criança, que "sentia que não aprendia o suficiente". O destino acabou por levá-las à Academia de Dança Nun’Álvares (ADN), em Fafe, uma instituição que já era uma referência para a família.

Sacrifícios familiares em prol de um sonho

A entrada na ADN exigiu uma reestruturação profunda na dinâmica familiar. A viverem em Celorico de Basto, a logística de levar Vitória todos os dias aos treinos em Fafe revelou-se um desafio. Foi então que Patrícia Ribeiro tomou uma decisão drástica por amor à filha.

"Na altura, não tínhamos disponibilidade de horários para a conseguir levar à ADN. Foi então que acabei por me despedir do meu trabalho", revela Patrícia, que atualmente trabalha como rececionista na própria academia para poder acompanhar a filha de perto. "Agora, tento conciliar a rotina com o meu atual trabalho na academia, que não é a tempo inteiro, para ter tempo de a acompanhar à dança. Como ela vai todos os dias, precisa de quem a leve. Temos de ter os horários muito bem organizados para conseguirmos conciliar tudo."

O esforço tem dado frutos. Por sugestão dos professores, Vitória começou a participar em competições e a adaptação foi imediata. "Ela delirou logo no início. Não sabíamos muito bem o que envolviam as competições, mas ela começou a competir e nunca mais quis parar. Aliás, já disse que quer ir estudar para Londres para ser uma grande bailarina", conta a mãe, orgulhosa.

Maturidade, perfeccionismo e resiliência

Apesar da tenra idade e de frequentar o 3.º ano na Escola Básica da Mota, Vitória demonstra uma maturidade invulgar. A transição para o 1.º ciclo trouxe receios à família, que temia que a carga horária a fizesse perder o foco. No entanto, a bailarina tem gerido a sua rotina com uma disciplina férrea.

"Tem conseguido conciliar muito bem os trabalhos de casa e o estudo com os treinos de dança, reservando ainda tempo para brincar e estar connosco. Gere tudo isso muito bem, com a nossa ajuda, claro", explica Patrícia. A determinação da menina é o seu maior trunfo: "Se não consegue aprender um passo à primeira, não desiste até o executar na perfeição. Acredito que é mesmo esta paixão pela dança que a faz superar os pequenos obstáculos próprios da sua idade."

Este foco transporta-se também para a sala de aula. A dança moldou o caráter de Vitória, tornando-a metódica e organizada. "A professora diz-me frequentemente que ela é das crianças mais perfeccionistas de toda a turma. Gosta de ter tudo direitinho e bem alinhado. Na dança acontece o mesmo, faz questão de ter o seu uniforme impecável. Sinto que ela cresceu muito a nível emocional", sublinha a mãe.

Nem tudo são vitórias e a resiliência de Vitória já foi testada. Num dos recentes solos de ballet, competiu lesionada e não alcançou os primeiros lugares. A forma como lidou com a frustração impressionou a família. "Ela reagiu muito bem, porque tem a noção de que tanto se pode ganhar como perder, já que há outras crianças com muito talento na dança. Sabe lidar perfeitamente com a possibilidade de não ficar classificada", partilha Patrícia. Curiosamente, mesmo não subindo ao pódio nessa prova específica, a sua pontuação foi suficientemente alta para garantir o apuramento para os mundiais.

A caminho de Dublin e a realidade dos apoios em Portugal

A preparação para as finais de julho em Dublin está a ser intensa. O currículo de Vitória já conta com passagens por competições como o All Dance, o Grand GT no Algarve e a Dorsal Cup, além de workshops em Londres, onde tenta "aprender sempre algo novo para trazer consigo e poder dizer que dominou mais um passo".

Agora, os treinos extra multiplicam-se. "Inicia os treinos às 16h30 e só termina por volta das 20h00 ou 21h00", descreve a mãe. A isto junta-se o peso financeiro das competições internacionais. Patrícia Ribeiro não esconde as dificuldades inerentes à falta de apoios institucionais à dança em Portugal, quando em comparação com outros países.

"Temos a noção de que os outros países dispõem de apoios que não existem em Portugal, principalmente na área da dança. Têm de ser sempre os pais a suportar tudo, o que, por vezes, se torna financeiramente pesado. Vamos competir contra a Inglaterra e outros países que já têm outra mentalidade de treino e ajudas governamentais de que nós não dispomos", desabafa. Para mitigar estes custos, a ADN organizou a "Gala da Primavera", um evento criado para angariar fundos que ajudem a suportar as despesas das famílias dos bailarinos de competição.

Apesar das adversidades, o sentimento dominante é de um orgulho imenso, partilhado não só pela família, mas por toda a comunidade. "Tem sido muito acarinhada pela família, amigos, vizinhos e por toda a população da nossa terra", relata Patrícia, visivelmente emocionada.

A terminar, a mãe de Vitória deixa uma palavra de incentivo a todos os pais que hesitam em investir nas paixões dos seus filhos: "Considero muito importante que as crianças pratiquem uma atividade de que realmente gostem. Ajuda no seu desenvolvimento e a estarem mais concentradas e focadas na escola. Adquirem uma maturidade muito maior e tornam-se muito mais autónomas. Aconselho vivamente que deixem as crianças seguir os seus sonhos e que os pais tentem sonhar em conjunto com elas. É fundamental."