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Paredes
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A menina que fintou o "não": Maria Luíza persistiu e chegou à final do The Voice Kids

Na padaria dos pais, em Paredes, os dias agora são interrompidos por parabéns e abraços de clientes orgulhosos. Maria Luíza Pinheiro tem apenas 11 anos, mas já se sente "um bocadinho famosa".

A jovem, que divide o tempo entre o Conservatório de Música, os cadernos da escola e as competições internacionais de patinagem artística, é a grande finalista da equipa de Nena no The Voice Kids, com a final marcada para o dia 24 de maio. Mas, o que o ecrã da televisão não mostra é a história de uma persistência invulgar: foram precisos dois anos de rejeição e muita disciplina para que as cadeiras finalmente virassem.

Natural do Rio de Janeiro, Maria Luíza cruzou o Atlântico rumo a Portugal quando tinha apenas quatro anos. O sotaque suave que traz nas palavras mistura-se hoje com a vida construída em Paredes, onde a padaria da família serve de cenário a esta fase de glória. "Isto para mim faz a diferença, está a ser uma experiência incrível. As pessoas estão a ser muito simpáticas comigo e eu agradeço muito", confessa, rodeada pelo negócio dos pais, Milena e Luís, o seu grande suporte. "Sem eles, nada seria possível."

O gosto pelas artes não é uma herança genética. Na verdade, tudo começou graças ao irmão mais velho, hoje quase a fazer 20 anos, e que curiosamente "não canta, não dança, nem toca nada". Foi ele que, quando Maria Luíza tinha cerca de sete anos, lhe mostrou a série da Netflix 'Julie and the Phantoms'. A paixão foi imediata. "Já tenho, digamos, um meio artístico, de querer cantar. Apaixonei-me por aquilo desde pequenina."

A lição de Milena: A vitória mora na persistência

A viagem de Maria Luíza até à final do próximo domingo, 24 de maio, não foi um conto de fadas instantâneo. Foi uma prova de fogo. Em casa, a família já acompanhava o formato do The Voice há quase 10 anos, ainda viviam no Brasil. Estar "do lado de dentro" era impensável para a mãe, Milena Pinheiro, mas para a filha era uma promessa a cumprir.

Em 2024, a menina subiu ao palco nas Provas Cegas, mas nenhuma cadeira virou. "Eu pensei: 'pronto, já realizou o sonho, já foi'. Mas, ela disse-me que só deixaria de ir quando virasse as cadeiras", recorda a mãe. No ano seguinte, em 2025, o golpe foi ainda mais duro: Maria Luíza nem sequer passou nas seletivas para chegar às provas gravadas.

Quando decidiu tentar pela terceira vez, em 2026, Milena tentou proteger a filha da frustração: "Eu perguntei-lhe: 'Vais tentar todos os anos? E se não virares a cadeira? As pessoas vão falar'. E ela respondeu-me: 'Mãe, eu não ligo, eu quero é virar a cadeira'". A determinação deu frutos e hoje, ao vê-la bater-se de igual para igual com concorrentes mais velhos, o coração da mãe transborda. "Mais do que a expectativa do resultado da final, o que me deixa orgulhosa é ela não ter desistido perante dois 'nãos'."

O segredo do Conservatório e do "chazinho"

Ouvindo o conselho dos mentores Carlão e Cuca Roseta após a derrota de 2024, a jovem arregaçou as mangas. Começou por aprender violino numa escola em Castelo de Paiva, passou por aulas de canto e piano em Baltar e, hoje, é aluna no Conservatório de Música de Paredes, onde estuda canto, piano e formação musical para aperfeiçoar técnicas vocais.

Foi esse treino exaustivo que lhe deu o passaporte para a grande final. Na semifinal de 10 de maio, Maria Luíza arrebatou o público com "Tomorrow", o clássico do musical Annie (que estreou na Broadway em 1982). Deixou para trás concorrentes de peso como Mia Ribeiro, que interpretou o difícil "If I Ain’t Got You", de Alicia Keys, e Geovana Silva, que cantou o clássico português "Menina Estás à Janela", de Vitorino.

O segredo para não ceder aos nervos na semifinal? Preparação absoluta. "Antes de saber que ia ser essa música, eu já a trabalhava com a minha professora de canto no Conservatório há muito tempo. Quando descobri, fiquei mais tranquila, já sabia a letra toda e senti-me mais confiante", explica.

A atitude nos bastidores é a de uma profissional veterana: "É tomar um chazinho, dormir cedo e não tomar nada gelado, apesar de eu gostar muito de coisas geladas".

Entre os patins, o palco e a Disney

Se a rotina de um adulto já é desgastante, a de Maria Luíza é um quebra-cabeças de excelência. Além de boa aluna na escola (onde as suas disciplinas favoritas são o Português, o Inglês e a Educação Física), é atleta de alta competição em patinagem artística, tendo participado, recentemente, na Copa do Mundo, na Alemanha.

"Uso a Educação Física, a espargata e essas coisas, para me ajudar na patinagem", conta. O truque para não quebrar? "Disciplina, organização e, quando chego dos treinos com alguma dor, deito-me e descanso."

Curiosamente, os patins causam-lhe mais "frio na barriga" do que pisar o palco da RTP. "Parece que nasci a cantar. Não fico nervosa porque sei que o que treinei no Conservatório me deixa segura. Na patinagem sinto um friozinho na barriga, mas também desfruto muito."

O futuro com a Nena e a promessa de emoção

Entre os seus ídolos estão Fernando Daniel, Lady Gaga, Beyoncé, Christina Aguilera e a própria mentora, Nena, de quem ouve as músicas com frequência. Trabalhar com a artista portuguesa tem sido fundamental: "Ela é muito simpática e dá-me conselhos preciosos: 'não vás nervosa, dá o teu melhor que consegues'".

Estudante de canto lírico, é no entanto nas canções infantis, na Disney e nos musicais que a voz de Maria Luíza encontra a sua verdadeira "casa", um caminho apontado pela sua própria professora e que a jovem quer transformar em profissão: "Gostava muito de ser cantora profissional de musicais".

Com a grande final do dia 24 a aproximar-se, a música escolhida ainda é um segredo bem guardado, mas o objetivo está traçado com uma maturidade assombrosa para a sua idade: "Não quero só cantar. Quero tentar transmitir o máximo, impactar o público e emocionar cada pessoa que está lá dentro a ouvir aquela música".

Para trás ficam os "nãos", as horas de estudo e os chás quentes em detrimento das bebidas frescas. Hoje, a menina que atende ao carinho dos clientes na padaria paredense tornou-se na inspiração de outras crianças. Quando lhe perguntam que conselho deixa a quem sonha pisar o mesmo palco, a resposta sai-lhe da alma: "Nunca desistam dos vossos sonhos. Eu não virei cadeiras, fiquei muito triste, mas segui em frente e quis conquistar. Acreditem sempre".