Tinha cinco anos quando os pais começaram a estranhar pequenos sinais. Leonardo, hoje com 11, estava mais pálido e com a barriga ligeiramente inchada. “Ele não se queixou de nada. Nós é que começámos a perceber que algo não estava bem”, recordam.
Numa consulta de rotina no centro de saúde, no dia 14 de junho de 2019, a suspeita ganhou forma. A palpação abdominal levou a um pedido urgente de ecografia. O exame revelou um tumor já de dimensão significativa no rim direito. O diagnóstico confirmou-se: tumor de Wilms, um cancro renal pediátrico raro. “O cancro nas crianças é assim: aparece. Não há explicação. Acontece. E pronto.”
Nesse mesmo dia, Leonardo foi encaminhado para o Hospital de Penafiel e, de seguida, para o IPO do Porto. O processo foi rápido e marcado por decisões firmes da equipa médica. “A médica disse logo: vocês vão ficar aqui no fim de semana. Não iam resolver nada nesses dias, mas não nos mandaram para casa com aquela incerteza. Isso é humanidade.”
A cirurgia implicou a remoção total do rim direito. “Ele ficou sem um rim. Faz parte do tratamento.” Seguiram-se sessões de quimioterapia e radioterapia, concluídas em fevereiro de 2020, já às portas da pandemia. O período mais duro ficou marcado por noites quase sem dormir e pela tentativa permanente de proteger o filho da dimensão do que estava a acontecer. “Ele sabia que estava doente, mas nunca aprofundamos. Vivemos aquilo com ele da forma mais serena possível.”
Durante os internamentos, optaram por não procurar informação excessiva nem comparar casos. “Cada caso é um caso. Eu não fui à internet ver nada. Li apenas um relatório do IPO sobre o tipo de tumor e as taxas de sobrevivência. Depois foquei-me no essencial: acompanhar o meu filho.” No Hospital, encontraram um ambiente que descrevem como surpreendentemente esperançoso. “Estamos a falar de doenças terríveis, mas ali não se vê desespero. Os profissionais são especiais. Não é por ser o nosso filho; é mesmo o que sentimos.”
Hoje, Leonardo está em vigilância anual. Não é considerado formalmente curado, mas não voltou a precisar de tratamentos. “Para todos os efeitos, ele está bem. Vive como qualquer miúdo.” Tem apenas de manter cuidados acrescidos, nomeadamente na hidratação, por ter apenas um rim. “Perdeu um órgão, é verdade. Mas leva uma vida normal.”
O percurso teve também impacto no trajeto escolar. A entrada no primeiro ano foi adiada por um ano, mediante relatório médico. Atualmente, frequenta o quinto ano, com aproveitamento regular. “Ele é um miúdo afável, muito querido. Toda a gente gosta dele.”
Antes mesmo da doença oncológica, o diagnóstico de um atraso no desenvolvimento já tinha sido vivido como um drama familiar. “Na altura, isso já foi um choque para nós. Hoje percebemos que procuramos demasiado a perfeição nos nossos filhos. Não há ninguém perfeito.” Leonardo continuou a ser acompanhado em terapias da fala e ocupacional e evoluiu positivamente. “Foi trabalhado e hoje é um miúdo normal. Nem mais, nem menos do que os outros.”
Se há algo que esta experiência deixou foi uma mudança de perspetiva. “Dispensavamos bem que ele tivesse passado por isto. Não nos torna melhores por si só. Mas dá-nos outra forma de olhar para a vida.” Falam de empatia, de tolerância e da importância de partilhar experiências para que outros pais encontrem conforto. “Quando descobrimos que um filho tem uma doença destas, é um choque brutal. Mas temos de olhar para o copo meio cheio.”
A mensagem que querem deixar é simples: confiar na medicina, manter a esperança e aceitar os filhos como são. “Temos hospitais de referência e profissionais extraordinários. O que estiver ao alcance vai ser feito.” E, acima de tudo, focar no presente. “Nós fomos postos à prova. Mudámos para sempre. Mas hoje escolhemos viver assim: o nosso filho está bem. E é isso que importa.”
