logo-a-verdade.svg
Penafiel
Leitura: 8 min

Gulbenkian investe 3,4 milhões no Tâmega e Sousa: Um 'combate' de 8 anos para que o código postal não defina o futuro

O Programa "Gulbenkian Aprender" acaba de arrancar com um investimento milionário na região. Mais do que um apoio escolar, o projeto-piloto junta fundações, escolas, municípios e o Governo numa missão clara: acompanhar centenas de alunos vulneráveis do 5.º ao 12.º ano e provar que o talento não tem classe social.

A coordenação regional estará a cargo do Instituto Empresarial do Tâmega

O Ponto C – Cultura e Criatividade, em Penafiel, foi o palco escolhido no dia 24 de fevereiro para a apresentação oficial de um dos mais ambiciosos projetos educativos a nascer na região nos últimos anos. Com um investimento global de 3,4 milhões de euros da Fundação Calouste Gulbenkian, o programa "Gulbenkian Aprender" vai atuar em 38 agrupamentos de escolas dos 11 municípios da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Tâmega e Sousa, sob a coordenação do Instituto Empresarial do Tâmega (IET).

O diagnóstico que traz a Fundação a este território é duro, mas real. A região destaca-se a nível nacional pela elevada proporção de alunos que dependem da Ação Social Escolar (ASE), com alguns concelhos a registarem taxas na ordem dos 80%.

Nuno Fonseca, presidente da CIM do Tâmega e Sousa, não esconde a dualidade do momento: "É um projeto agridoce. Por um lado, mostra aquilo que são os problemas que esta região tem do ponto de vista da educação, mas, por outro lado, temos aqui também uma grande oportunidade." O autarca recorda o peso da história local, lembrando que "vivemos numa região onde as pessoas deixaram de estudar muito cedo para começar a trabalhar". Por isso mesmo, deixa um reparo: "Temos de deixar uma palavra de gratidão aos pais por poderem proporcionar aos seus filhos esta oportunidade de continuidade dos estudos, que é extremamente importante para mudar o paradigma de toda a região."

A Missão: Desligar o futuro do berço

Para Pedro Cunha, gestor da Iniciativa Gulbenkian Aprender, o propósito central do programa não deixa margem para dúvidas. "A missão é fazer com que os percursos de escolaridade e profissionais dos jovens desta região sejam indiferentes, sejam desligados da família e do contexto em que nasceram", explica. "Habituámo-nos à ideia de que as pessoas que nascem em contextos com mais fragilidades não conseguem prosseguir para as suas primeiras escolhas. Nós queremos interromper essa relação", considera.

A seleção dos alunos baseou-se em dois critérios estritos: pertencer a famílias apoiadas pela ASE e terem sido sinalizados pelas próprias escolas como tendo grande potencial, mas que, devido à falta de recursos familiares, estariam em risco de nem concluir o ensino secundário.

O projeto arranca agora com 150 alunos, passando para 300 [mais 150] em setembro, e mais 100 no ano letivo seguinte, o que totaliza as 400 famílias. Trata-se de um piloto de três anos que visa testar e validar metodologias para o longo prazo. "Ao fim de três anos, temos de entregar à sociedade resultados", garante Pedro Cunha.

Para garantir que ninguém fica para trás, o programa assenta numa estratégia de intervenção multissetorial brutal, com cinco apoios distintos para cada criança:

  1. Apoio educativo: Clubes gratuitos e semanais de leitura, escrita, matemática e inglês, com parceiros de peso como o British Council.

  2. Mentoria: Apoio continuado para ajudar no percurso e nas escolhas vocacionais (com a UMinho e MentorArt).

  3. Bolsa Financeira: Um apoio material anual não só para educação e saúde, mas também para acesso à cultura (como ir ao teatro ou a um concerto).

  4. Parentalidade Positiva: Apoio direto às famílias para lidar com as dúvidas e problemas normais da educação de adolescentes (com a UPorto).

  5. Enriquecimento sociocultural nas férias: A garantia de que os jovens vão sair da região durante as pausas letivas. "Vamos mostrar-lhes o mundo que existe para lá do Tâmega e para lá do Sousa, sempre com o Tâmega e Sousa no coração", frisa o gestor do projeto.

E no final do 12.º ano? Pedro Cunha levanta o véu sobre o ensino superior: "A Fundação faz este ano, precisamente, 70 anos e já demos mais de 30 mil bolsas de estudo. Somos especialistas em ajudar alunos talentosos e com baixos recursos a pensarem sem limitações."

Um laboratório com os olhos do Governo postos

A singularidade do "Gulbenkian Aprender" motivou a deslocação de dois membros do Governo a Penafiel. Alexandre Homem Cristo, Secretário de Estado Adjunto e da Educação, enalteceu a iniciativa da sociedade civil e sublinhou a raridade de um projeto com esta duração. "O acompanhamento destes alunos ao longo de um período tão longo e estrutural da sua formação é decisivo. Conhecemos muitos projetos que têm implementação num curto espaço de tempo e os seus efeitos não perduram. Aqui, garante-se que os alunos têm tempo para assimilar e para se desenvolver ao seu ritmo."

Homem Cristo apontou ainda o dedo à fatalidade das "expectativas": "Muitas vezes, são alunos que têm bons desempenhos, mas sobre os quais o potencial não é concretizado porque as expectativas para eles também não são iguais às de outros alunos de outros territórios. Este projeto tem o valor de lhes abrir horizontes."

Clara Marques Mendes, Secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, corroborou a visão, apelidando a iniciativa de "extraordinária" por "trabalhar o presente para preparar o futuro". Quando questionada sobre se este nível de apoio e igualdade não deveria ser garantido, à partida, pelo próprio Estado, a governante defendeu a complementaridade.

"Trabalhamos todos em conjunto. O Estado continua a fazer a sua parte, mas o trabalho destas fundações e instituições é uma mais-valia. Muitas vezes, o Estado, percebendo a importância de alguns destes projetos, também pode ajudar a melhorar determinadas políticas públicas através desta experiência", notou, rejeitando ainda a ideia de um país a duas velocidades: "Sempre achei que não há só Porto e Lisboa. Não podemos deixar de ter em atenção determinadas fragilidades de regiões mais do interior, que precisam que se trabalhe mais para a coesão social."

O impacto transformador na economia local

Do lado de quem governa o território, a expectativa é que este investimento de 3,4 milhões de euros transcenda a sala de aula e mexa com a economia da região. O anfitrião da sessão, Pedro Cepeda, presidente da Câmara Municipal de Penafiel, focou-se no dia seguinte ao projeto-piloto de três anos.

"A validação destas metodologias é fundamental para darmos sequência a esta implementação, para que não seja um projeto que dure apenas três anos, mas que as aprendizagens perdurem no terreno", afirmou o autarca. Para Pedro Cepeda, a capacitação destes jovens é a chave para inverter o ciclo regional: "O objetivo final é termos jovens preparados para os desafios do mundo atual e para o mercado de trabalho. Tudo isto resulta depois no desenvolvimento económico desta região, que ainda tem indicadores para além daquilo que nós desejamos". "Projetos como este podem ser transformadores do nosso território", acrescenta. 

Com a vontade alinhada entre escolas, municípios, famílias, IET e a Fundação Gulbenkian, o Tâmega e Sousa prepara-se agora para oito anos de trabalho árduo. Como resumiu Pedro Cunha: "Nada na vida se consegue sem trabalho. E todos nós vamos trabalhar para uma só causa: levar estas crianças tão longe quanto elas quiserem ir."