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Paredes
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Sem guiões e a "ler a sala": Como um estudante de Paredes se tornou um fenómeno nacional da argumentação

Aos 21 anos, o currículo do paredense José Pedro Teixeira já se lê como o guião de um filme onde o protagonista fala mais rápido do que a própria sombra. Estudante do 4.º ano de Direito na Universidade de Lisboa, acumula medalhas, prémios de melhor orador e distinções internacionais.

Mas, desengane-se quem pensa que o seu sucesso é feito de guiões decorados em frente ao espelho ou heranças familiares no mundo da advocacia. A sua arma secreta é o improviso, o humor e uma autenticidade desarmante. De Vilela para a capital e para o Brasil, esta é a história do jovem que prova que, no tribunal ou na vida, o segredo é "saber ler a sala".

Quando os miúdos da sua idade pediam consolas e passavam horas em videojogos, José Pedro Teixeira não tinha (nem nunca pediu) uma PlayStation. O seu "jogo" era outro: passava as férias a devorar livros e a assistir a debates no YouTube. Sem advogados ou figuras públicas na família, a paixão pela argumentação brotou de forma orgânica, alimentada por uma vontade incessante de comunicar, de ouvir e de estar com os outros.

Essa vocação natural encontrou palco cedo. Desde os tempos de delegado de turma na primária, passando pelo escutismo e pela Cruz Vermelha, até à liderança da Associação de Estudantes da Escola Secundária de Vilela, José Pedro sempre quis ter "um lugar à mesa". Hoje, já com uma pós-graduação em Direito da Igualdade no bolso e distinguido com a Medalha de Ouro do Município de Paredes na categoria Ensino e Educação, o jovem de 21 anos prepara-se para ser advogado. Mas, o momento em que percebeu que a sua voz tinha o poder de mover plateias aconteceu de forma caricata.

O dia em que a ganga venceu os fatos e as gravatas

A epifania deu-se na sua estreia no Parlamento dos Jovens. Sem saber o que o esperava, viajou para a sessão no Porto vestido de forma perfeitamente informal: calças de ganga, t-shirt e a camisa aberta. Ao chegar, o choque visual foi imediato, todos os outros alunos envergavam fatos e gravatas numa cerimónia solene.

O tema em debate, contudo, fez-lhe confusão. Após comentar com uns colegas de Santo Tirso que "aquilo não fazia sentido nenhum", foi desafiado a subir ao palco. E subiu. Com as suas calças de ganga, sem rede e sem guião, discursou com tal convicção que o resultado foi avassalador: a sala inteira levantou-se e aplaudiu-o de pé. Acabou por se candidatar na hora a porta-voz distrital e foi eleito pela esmagadora maioria para representar o Porto na Assembleia da República. "Foi o momento em que percebi que dar voz às ideias daqueles que me rodeiam era a minha grande paixão", confessa.

O bicampeão do improviso e o "xeque-mate" no Brasil

Essa capacidade de improviso continua a ser a sua imagem de marca. Exemplo disso foi a sua mais recente vitória, onde se sagrou, pelo segundo ano consecutivo, o Melhor Orador na Ronda Sul da prestigiada competição académica "Supremo Moot Court de Justiça" (cuja grande final nacional, contra a Ronda Norte, se disputa na próxima terça-feira).

A vitória deste ano teve um sabor especial: na véspera das alegações, a equipa apercebeu-se de que tinha preparado a defesa para as posições erradas. No dia seguinte, no Tribunal da Relação de Lisboa, José Pedro teve de deitar o guião fora e improvisar o discurso por completo. "Não gosto de treinar ao espelho, nem de escrever frases. Gosto de escrever ideias. O que me valeu foi saber ler a sala", explica.

Foi também este instinto que o levou a cruzar o Atlântico para participar na CAMARB – Competição Brasileira de Arbitragem e Mediação Empresarial, em São Paulo, em representação da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (a única instituição portuguesa presente). No Brasil, enfrentou dois grandes choques: primeiro, teve de fazer "treinos especiais" para abrandar a velocidade supersónica com que fala em Portugal; segundo, deparou-se com um ambiente jurídico extremamente rígido e desprovido de humor.

A sua personalidade não o deixou recuar. José Pedro recorreu às suas "piadinhas jurídicas" para quebrar o gelo. "O carnaval já terminou no Brasil, mas a contraparte vem cá falar de uma fantasia jurídica", atirou num dos debates. Os juízes brasileiros ficavam surpreendidos, mas acabavam a rir e, mais importante, a dar-lhe razão.

A sua "obra-prima" em terras de Vera Cruz aconteceu quando falava em segundo lugar. A equipa adversária usou a metáfora de um jogo de xadrez para explicar como iriam "apanhar a rainha". Na sua vez, José Pedro roubou a metáfora e fez xeque-mate: "A contraparte vem a este tribunal falar de um jogo de xadrez, mas é pena que não traga as peças todas e mesmo assim queira ganhar o jogo a todo o custo. Esqueceu-se de dizer isto e isto...". O júri ficou fascinado e a sua equipa venceu a alegação.

O humor como arma (O caso Camões)

Quando as famosas "brancas" atacam, é o humor que o salva. Mas, o humor também serve para desmontar argumentos delicados. Numa competição recente sobre direitos das crianças, debatia-se a legitimidade de um programa de TV transmitir imagens de crianças a fazer birras ou a chorar. O Ministério Público simulado considerava a exposição excessiva.

Na defesa da televisão, José Pedro voltou a ler a sala e atirou uma piada cirúrgica: "Mas, o que é que era suposto? As crianças serem reproduzidas a citar de cor a lírica camoniana? Não é normal que chorem e façam birras? Se é normal, como é que expor isso ofende a sociedade?". O argumento passou com distinção.

"O rapaz mal tem tempo para respirar"

Aos 21 anos, a sua vida é um turbilhão. A expressão que melhor o define vem da sua própria mãe: "O rapaz mal tem tempo para respirar". Antes de ir para Lisboa, chegava a casa apenas para anunciar que saía dali a uma hora para os Escuteiros, para a Cruz Vermelha de Vilela ou para a Câmara Municipal. Os feriados e jantares de família, como o aniversário do avô, eram muitas vezes interrompidos pelas suas obrigações como coordenador de voluntários. A mãe reclama, mas ele sabe que o faz com um "orgulho imenso" por vê-lo feliz e a ajudar os outros.

Em Lisboa, onde é também Conselheiro Pedagógico na Faculdade de Direito, os amigos lidam com a sua agenda com humor. Quando se sentam num café, a brincadeira é recorrente: "Vamos ver quantos minutos é que o Zé tem para nós hoje". José Pedro admite ser uma "presença pouco presente", sempre com o telemóvel a tocar para resolver problemas alheios, mas sabe que, nas suas costas, os amigos o admiram e dizem que "é um orgulho tê-lo como amigo".

O pilar invisível: A saúde mental

Por trás de um orador confiante e de um aluno brilhante, há uma maturidade rara para lidar com os próprios limites. José Pedro faz questão de sublinhar que a sua calma em palco não vem apenas do talento inato, mas do acompanhamento psicológico.

Durante a adolescência, atravessou um período intenso que o levou a procurar ajuda, elogiando publicamente a sua psicóloga, Cathia Chumbo. "Tirou-me quaisquer tipos de problemas que poderiam ter surgido. A saúde mental e a ansiedade são coisas com que muitos jovens e bons oradores sofrem. Se nós não estivermos bem connosco mesmos, não conseguimos estar bem para os outros, nem a falar bem", atesta, confessando que ainda hoje mantém esse acompanhamento.

O futuro, a política e a autenticidade

Apesar de ouvir constantemente que "fala como um político" e que devia seguir essa via, José Pedro recusa liminarmente a política como forma de viver ou de sustento. O foco está na advocacia e, acima de tudo, em manter a sua essência. O jovem paredense rejeita "vestir heterónimos". É conhecido na Faculdade precisamente por ser um Conselheiro "normal", que fala da mesma forma com um caloiro no corredor ou com um professor catedrático. "O facto de nunca deixar de ser quem sou é a chave", garante.

Aos jovens do concelho de Paredes que olham para o seu percurso e pensam que chegar a Lisboa ou ao Brasil é um sonho distante, José Pedro deixa um recado claro, banhado na humildade: "Deus não acordou um dia iluminado e apostou todas as suas fichas em mim. Qualquer pessoa pode conseguir. O céu é o limite".

Contudo, deixa o conselho mais importante para o fim, provando que a sabedoria não se mede apenas em lábias jurídicas: "Sejam jovens. Não deixem que os estudos entupam a vossa vida. Ter uma boa base de amigos e saber chegar a casa, beber uma cerveja e desligar é muito, muito importante".