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Penafiel
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Veio de férias, a pandemia "prendeu-a" e revolucionou a Ginástica Rítmica no Vale do Sousa: A história de Girlane Moura

Chegou a Portugal apenas para visitar a família, mas a covid-19 fechou as fronteiras e trocou-lhe as voltas ao destino. Cinco anos depois, Girlane Moura é a principal responsável por quase 200 meninas em Penafiel, Lousada e Paredes saberem a diferença entre uma fita e uma bola.

Com um passado marcado por dificuldade e superação no Brasil, a treinadora prepara-se agora para um grande desafio logístico: levar 40 ginastas a um grande torneio em Almada, enquanto luta por "milagres" num pavilhão onde o tempo é curto e os apoios escasseiam.

Nos próximos dias 13, 14 e 15 de fevereiro, a cidade de Almada vai receber uma autêntica "invasão" de talento vindo do Vale do Sousa. Cerca de 40 ginastas do Clube de Basquetebol de Penafiel (CBP) e do Aparecida Futebol Clube (Lousada) vão pisar os tapetes de um importante torneio de Ginástica Rítmica. À frente desta expedição está Girlane Moura, de sotaque doce mas pulso de ferro, que carrega nos ombros 27 anos de experiência e uma história de vida que daria, por si só, um filme.

Girlane Moura é hoje o rosto da Ginástica Rítmica na região, mas a sua presença em Portugal foi obra do acaso. "Eu vim fazer uma visita à família em Vilamoura, mas tive a questão da pandemia e não pude retornar. Fiquei presa aqui", recorda. Tinha bilhete de volta, mas o destino impôs-se. O que parecia um contratempo transformou-se numa missão de vida: implantar uma modalidade praticamente inexistente nos concelhos de Paredes, Lousada e Penafiel, onde muitos pais ainda confundiam a Rítmica com a Artística.

Da dificuldade no Brasil à elite da ginástica

Para perceber o nível de exigência que Girlane coloca em cada treino, é preciso recuar à sua infância dura no Brasil. A sua base artística veio do balé, que praticou desde os 7 anos, mas a entrada na rítmica aconteceu tarde, aos 12 anos, numa Escola Militar onde a prática desportiva era obrigatória.

"Eu estudava de manhã e tinha de fazer desporto à tarde. Havia umas 150 atletas a fazer exames e a treinadora era a Silva Sacramento, que já colocou muitas ginastas na seleção brasileira", conta. Girlane queria sobressair, mas a vida não lhe facilitava a tarefa. Vinda de uma família extremamente carente, com um pai português ausente e uma mãe que lutava sozinha pelo sustento das filhas, a jovem atleta enfrentava privações severas.

"Eu ficava muitas vezes sem me alimentar para poder ficar na escola o dia inteiro a treinar. Queria entrar na seleção". A fome não a travou. Treinava em casa, memorizava os movimentos e, no final, foi a terceira escolhida num universo de mais de 150 candidatas. Essa persistência moldou o seu caráter e levou-a a investir na sua formação técnica, fazendo cursos com treinadoras da escola russa e búlgara (a elite mundial da modalidade), licenciando-se em Educação Física e especializando-se em Patologia Clínica.

Antes de cruzar o Atlântico, Girlane deixou marca no seu país de origem. Criou o "GIG - Grupo Independente de Ginástica", um projeto social onde dava treinos gratuitos a crianças de bairros pobres, muitas vezes vítimas de abusos familiares. "Consegui ajudar aquelas crianças. Uma delas diz hoje que eu a salvei da morte", revela com emoção. O sucesso do seu trabalho levou-a ainda aos palcos da televisão, como coreógrafa no programa da Record com Sheila Carvalho, e ao prestígio da rede de colégios Salesianos.

O "Milagre" de Lousada e a "evangelização" da Rítmica

Em Portugal há cinco anos, Girlane começou por treinar Ginástica Artística no CBP. Contudo, a sua verdadeira paixão falou mais alto quando percebeu que havia terreno por desbravar. "Nenhuma ginasta tinha conhecimento da modalidade. Imaginavam que era artística", explica. Foi preciso ensinar, passo a passo, que esta é a ginástica dos aparelhos: a bola, a fita, o arco, as maças e a corda.

E entre eles, há um favorito indiscutível. "O sonho delas é fazer a fita", confessa a treinadora. É o aparelho que deixa as alunas "encantadas" pela beleza visual, mas Girlane é rápida a explicar a dura realidade técnica por trás da magia: "A fita é o aparelho mais difícil da modalidade. Qualquer detalhe perde muitos pontos".

Por norma da Federação Internacional, a fita está geralmente reservada para ginastas juniores ou seniores (a partir dos 14 anos). "Eu acredito que elas tenham esse sonho, mas é preciso muito trabalho para lá chegar", adverte, mantendo os pés das suas atletas bem assentes na terra antes de as deixar voar com a fita.

Hoje, Girlane coordena um autêntico "exército" de quase 180 atletas. Estão espalhadas pelo CBP (Penafiel), Aparecida FC (Lousada), EB de Baltar e pelos Conservatórios de Dança de Paredes e Paços de Ferreira.

Mas, a realidade no Vale do Sousa é dura quando comparada com os grandes centros. "No Porto, clubes como o Boavista ou o Guimarães treinam todos os dias. A ginástica lá é muito forte", reconhece. Em contraste, em Lousada (Aparecida), Girlane fala num "verdadeiro milagre". Com acesso limitado ao pavilhão: treinam apenas uma hora e meia às quartas e sextas, e um pouco mais ao sábado, a treinadora tem de rentabilizar cada segundo.

Para isso, não está sozinha. Conta com uma equipa técnica que inclui uma treinadora ucraniana, uma brasileira e monitoras como a campeã Sâmile Moura (a única atleta que já tinha experiência prévia). "Enquanto uma monitora faz o alongamento, eu estou a fazer autocorreções e a montar as séries. Tem de ser tudo cronometrado, é corrido, mas damos conta".

Uma juíza com coração de psicóloga

A metodologia de Girlane é clara e sem rodeios: "Não sou uma treinadora lúdica. Trabalhar a brincar com crianças de 4 ou 5 anos é quase impossível para mim, porque tenho um formato técnico há 27 anos e não consigo mudar".

Além de treinadora, Girlane é Juíza de Ginástica Rítmica (Grau 1 do IPDJ e Grau 2 de Execução), o que torna o seu olhar implacável. "Infelizmente, sou mais exigente por ser juíza. Quando monto as séries e faço a limpeza, sei exatamente onde elas vão perder pontos. Elas próprias já saem do tapete a dizer 'errei isto e isto'".

Para equilibrar esta exigência num desporto de perfeição, Girlane recorre à sua especialização em Psicologia do Desporto. Num contexto onde o tempo de treino é curto, ela foca-se na positividade. "O tempo que tenho com elas é pouco, por isso, além de corrigir, tenho de dar muitos pontos positivos. Trabalho a mente delas para que não desistam perante os obstáculos, porque a rítmica tem muitos".

Rumo a Almada: Logística pesada e falta de apoios

A participação no torneio em Almada é o culminar deste esforço. A logística para deslocar 40 pessoas é complexa e expõe a fragilidade dos apoios. "Os custos são suportados pelos pais, infelizmente", lamenta a treinadora.

Embora a Câmara de Lousada tenha cedido o autocarro após solicitação, as despesas de motorista, portagens, alimentação e a estadia na Pousada da Juventude recaem sobre os clubes e as famílias. Girlane é sincera na sua análise: "Se tivéssemos mais apoio das Câmaras, acredito que o trabalho renderia muito mais". A treinadora estende a crítica ao panorama nacional, recordando que até a nível de Seleção, os resultados internacionais (como no recente Mundial no Rio de Janeiro) ficam aquém do potencial devido ao "pouquíssimo apoio do governo".

"Ganhar é lucro" e o futuro da pequena Maria Alice

A comitiva que segue para Almada inclui ginastas de vários níveis, sendo que a maioria compete ainda na "Copa Base" (torneios de incentivo). No entanto, em Aparecida, já despontam duas atletas na 2.ª Divisão, lutando por vagas no Nacional.

Entre as promessas, destaca-se Maria Alice Dias. Com apenas 6 anos (começou aos 3 anos e meio), a menina de Aparecida é descrita por Girlane como um talento nato e "muito competitiva", já com vitórias em torneios estaduais. "Se conseguirmos aumentar a carga horária no futuro, ela tem perfil de Seleção Nacional", antevê a treinadora.

Contudo, para Almada, a ordem não é trazer medalhas a qualquer custo. "Elas sabem que vão para adquirir maturidade", sublinha Girlane. A treinadora que fintou a fome e a pandemia para ensinar ginástica no Vale do Sousa, tem uma filosofia muito própria para evitar a frustração das suas meninas: "Eu digo-lhes sempre: quero que se divirtam e façam uma boa apresentação. Ganhar? Ganhar é lucro".

No final, mais do que a técnica ou a flexibilidade, o que Girlane Moura quer deixar é uma lição de vida. "Quando a ginástica entra na vida delas, muda tudo por dentro. Muitos pais já tentaram tirar, mas há miúdas que se recusam a desistir". E enquanto houver essa vontade, Girlane continuará a fazer os seus milagres em Lousada, Penafiel, Paços de Ferreira e Paredes.