logo-a-verdade.svg
Marco de Canaveses
Leitura: 6 min

Em Amesterdão, Henrique Pinto venceu uma bolsa de um milhão para continuar a investigar o Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas 

Tem 26 anos, é natural de Tuías, e está a terminar um doutoramento em Amesterdão, na Holanda, dedicado ao estudo das doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, o Parkinson ou a Esclerose Múltipla.

Redação

Henrique Pinto é um jovem investigador que venceu uma bolsa no valor de um milhão de euros para continuar a investigação durante quatro anos. 

O interesse pela ciência surgiu cedo. “Quando era pequeno já dizia que queria ser cientista. Nunca quis ser médico, apesar de ser o caminho mais comum quando alguém se interessa por estas áreas. Sempre me atraiu mais o ‘back office’, investigar, descobrir curas para as doenças”, recorda. Sem antecedentes familiares na área da Saúde, Henrique encontrou inspiração numa tia professora de Físico-Química, que lhe despertou o gosto pela ciência ainda antes do ensino secundário.

Foi nessa fase que começou a desenhar o seu percurso académico. A escolha recaiu sobre Bioengenharia, por aliar as ciências da saúde às engenharias. Ingressou na Universidade do Porto, entre a FEUP e o ICBAS, onde concluiu o Mestrado Integrado, especializando-se em Engenharia Biomolecular, a vertente mais ligada à investigação científica. “Sempre tive um grande interesse pelas Neurociências, em especial pelo Alzheimer. A minha bisavó teve a doença e, mesmo que de forma inconsciente, isso marcou-me. A ideia de nos irmos perdendo ao longo do tempo tocou-me profundamente”, confessa.

Esse interesse levou-o a procurar um doutoramento com forte componente prática, caminho que o conduziu até à Holanda. Em Amesterdão, Henrique desenvolve um projeto inovador que visa criar modelos laboratoriais dos vasos sanguíneos do cérebro, utilizando células de pacientes com e sem doença. “O objetivo é construir um modelo o mais semelhante possível ao cérebro humano em laboratório e perceber como determinados fármacos atuam nestes vasos sanguíneos”, explica. A metodologia poderá abrir portas a novos avanços no tratamento do Alzheimer e de outras doenças neurodegenerativas.

O doutoramento na Holanda distingue-se também pelo enquadramento profissional. “Aqui, os doutorandos são vistos como trabalhadores, temos contrato e salário, o que dá uma estabilidade diferente. É muito ‘mãos à massa’ e isso faz toda a diferença”, sublinha. Ainda assim, emigrar não foi fácil. A primeira experiência no estrangeiro aconteceu durante o Erasmus, em 2020, em pleno início da pandemia. “Foi uma verdadeira terapia de choque. Estar fora num período tão instável ensinou-me que, com uma boa rede de apoio e comunicação, tudo se consegue.”

A chegada de uma bolsa no valor de um milhão de euros

Recentemente, o trabalho desenvolvido pela equipa recebeu um reconhecimento significativo: a atribuição de uma bolsa de investigação no valor de um milhão de euros, com a duração de quatro anos. “Foi uma ideia que surgiu para dar continuidade ao projeto após o doutoramento. Em parceria com empresas, uma associação de doentes de Alzheimer e uma farmacêutica, conseguimos criar uma candidatura muito sólida”, explica. A notícia foi recebida com emoção. “Estava no escritório quando a minha chefe me ligou. Tive uma reação mesmo efusiva”, admite.

Apesar das oportunidades internacionais e da qualidade de vida que encontra na Holanda, Henrique Pinto não esconde que o seu objetivo passa por regressar a Portugal. “Quero estabelecer uma carreira e uma linha de investigação que possa levar para Portugal. As raízes estão aqui. Dou muito valor ao sol, às pessoas, à família. Quando pensar em construir a minha própria família, quero que seja cá”, afirma.

Aos mais novos, deixa uma mensagem clara, baseada na sua própria experiência. “Os pais devem deixar os filhos seguir a sua vocação e experimentar. Se seguirem aquilo que realmente gostam, serão bons profissionais. Se não, é muito mais difícil.” E acrescenta: “No início da carreira devemos desprender-nos um pouco do conforto e experimentar. Só assim percebemos verdadeiramente qual é o nosso caminho.”

O projeto

No centro do projeto que Henrique Pinto desenvolve está um modelo laboratorial inovador que procura reproduzir, de forma fiel, o funcionamento dos vasos sanguíneos do cérebro humano. A partir de células adultas, inicialmente diferenciadas, o investigador procede à sua desdiferenciação até obter células estaminais, capazes de se transformar em qualquer tipo celular.

Essas células são depois direcionadas sobretudo para células endoteliais específicas dos vasos sanguíneos cerebrais, responsáveis pela chamada barreira hematoencefálica — uma estrutura altamente seletiva que protege o cérebro, mas que também dificulta a passagem de fármacos. Em muitas doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, esta barreira encontra-se danificada muito antes do aparecimento dos sintomas, permitindo a entrada de moléculas nocivas no cérebro e contribuindo para o início da doença.

Para ultrapassar a limitação de estudar apenas um tipo celular, Henrique desenvolveu modelos mais complexos, os chamados organóides, que integram vários tipos de células do cérebro. Estes modelos permitem testar, em condições normais e patológicas, se os fármacos conseguem chegar ao cérebro e como atuam, abrindo caminho à deteção precoce e a estratégias para travar a progressão da doença ainda antes de ela se manifestar clinicamente.