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Penafiel
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De Penafiel para o Top 100 do Ténis Mundial: João Couto e a arte de treinar a mente para vencer

Nasceu e cresceu em Penafiel, mas a sua área de atuação estende-se aos courts de ténis internacionais. Aos 23 anos, João Couto transformou a sua paixão multidisciplinar pelo desporto numa carreira dedicada a uma das áreas mais determinantes, e por vezes negligenciadas, do alto rendimento: a performance mental.

Redação

Como mental coach, João já trabalhou com alguns dos nomes mais sonantes do circuito ATP e prepara-se agora para democratizar as ferramentas da alta competição, lançando um projeto focado no combate à ansiedade e às insónias do público em geral.

O percurso de João Couto no mundo do desporto começou muito antes de ouvir falar em mental coaching. A sua sede de atividade física sempre foi insaciável. "Sempre tive a ânsia de praticar mais desportos, de aprender com que desportos é que me iria familiarizar mais, sempre foi uma coisa minha", recorda o jovem penafidelense, garantindo que a motivação partiu inteiramente de si próprio.

O seu currículo desportivo impressiona pela diversidade. Ténis, boxe, natação, Muay Thai e, mais recentemente, o trail running. "Praticava o ténis três vezes por semana e então tinha que preencher os outros dias com outras coisas diferentes... O desporto sempre foi a minha vida". Para João, a justificação para esta multiplicidade é simples: "Não gosto de desistir".

A academia e a paixão pela "performance"

Quando chegou a altura de decidir o futuro profissional, João não teve dúvidas. Contrariando a tendência de manter o desporto apenas como hobby, apostou na formação especializada. Começou o curso de Desporto no Colégio de São Gonçalo, do 10.º ao 12.º ano. Seguiu-se a licenciatura em Desporto e Atividade Física e, posteriormente, o mestrado, ambos no ISCE Douro, em Penafiel.

Foi no meio académico que começou a desenhar a sua verdadeira vocação. O que guarda dessa época? "Consistência e persistência". Mas foi no último ano de mestrado que se deu o clique. "Foi lá que adquiri a minha paixão pela performance", sublinha.

O seu sonho assumido era claro: "Acompanhar um jogador de ténis". O porquê desta modalidade prende-se com as características intrínsecas do jogo. "O ténis tem muitos momentos de pressão e um jogador que faça um bom jogo pode acabar por perder por causa de detalhes, em segundos". Foi essa fragilidade mental, a diferença entre ganhar ou perder num ápice, que fascinou o jovem de Penafiel. "Como é que alguns atletas tendem a lidar melhor com a pressão do que outros? Foi algo que sempre me fascinou".

O que faz um Mental Coach?

Para atingir o seu objetivo, João Couto mergulhou em estudos de caso e desenvolveu uma metodologia própria, focada na alta voltagem do circuito mundial. Mas afinal, o que faz exatamente na prática?

"O mental coach é uma pessoa que ajuda o atleta a ter uma performance mental especificamente no momento do jogo", clarifica João, fazendo questão de fazer uma distinção ética fundamental: "Não sou psicólogo... Isto é mais para performance e não substituiu o trabalho da psicologia".

O seu trabalho foca-se nas reações sob pressão. Através do projeto Nexus Mental Performance, João aplica uma abordagem baseada em "sessões noturnas" personalizadas. "O que tento fazer é relacionar tudo, todos os dias, com o ténis... sessões personalizadas noturnas para os atletas ouvirem e sobressaírem de certa forma (...) tudo tem a ver com esses momentos de alta pressão".

Sobre o peso da mente no desporto individual, João é categórico: "Absolutamente tudo". E dá um exemplo de como a falta de preparação mental pode arruinar uma carreira promissora: "Vou dar o exemplo de um jogador de futebol. Ele tinha o físico, tinha o talento, tinha absolutamente tudo, mas não tinha a parte mental. A parte mental foi descurada e, sendo assim, acabou. Quando o mental não está ali presente, é muito difícil as coisas acontecerem da forma que têm de acontecer".

Para quem procura uma dica rápida para lidar com a pressão, o mental coach oferece um conselho de ouro: "Nunca pensar no passado nem nunca pensar no futuro, estar sempre no presente e controlar o presente através da respiração".

Dos courts de elite para a mesa de cabeceira do cidadão comum

O trabalho de João Couto rapidamente deu frutos, levando-o a colaborar com atletas de topo. Embora os acordos de confidencialidade o impeçam de revelar o nome de um jogador do Top 10 mundial com quem trabalhou, João partilha alguns dos nomes que já passaram pelas suas mãos.

"O primeiro que segui durante seis meses, no ano passado, chama-se Miomir Kecmanović. É um tenista sérvio (...) dos melhores jogadores do mundo, já foi top 17", revela. Outro nome de peso é o do americano Stefan Kozlov, "foi número um dos juniores... o ranking maior dele foi o 102". Atualmente, a Nexus patrocina também duas atletas: Karl Poling e Lilian Poling.

Contudo, o impacto destas sessões nos atletas revelou um "efeito secundário" surpreendente. "Nós recebíamos muitos feedbacks dos atletas a dizer que dormiam melhor, que estavam relaxados durante o dia", conta João.

Foi esta constatação que o levou a criar uma nova vertente do seu projeto, direcionada a "pessoas ditas não atletas", que lidam com ansiedade, insónias e stress diário. "Nós temos aqui um espaço para criar e para trazer isto para pessoas que têm problemas normais do dia-a-dia. E foi isso que eu fiz".

As sessões foram adaptadas, transformando-se num "ritual" noturno. O objetivo a longo prazo é ambicioso: "O meu maior objetivo com isso é, daqui a alguns anos, ser a face mesmo do relaxamento noturno. É o que me estou a focar, porque se se relaxar à noite, nós temos um espaço maior para depois podermos trabalhar, obviamente durante o dia, o foco e isso tudo".

João Couto não esquece o poder preventivo do exercício físico. "A prática do desporto, primeiro, deixa o corpo cansado. E depois (...) cria uma tendência para dormirem melhor, para se sentirem melhor com elas mesmas. É um bem-estar diário incrível".

A terminar a entrevista, o jovem mental coach deixou o convite para que tanto atletas como o público em geral explorem o seu trabalho. A missão de João é clara: quer seja para ganhar um Grand Slam ou apenas para conseguir uma noite de sono descansada, o segredo começa sempre na forma como treinamos a mente.