A cultura e as tradições de Paredes preparam-se para ultrapassar fronteiras e marcar presença na Ilha de Gozo, em Malta, no próximo dia 21 de maio. O grupo feminino Raízes Medievais, inserido na associação de artes performativas enRaiz’arte, sediada na freguesia de Gandra, será o único representante nacional no projeto internacional "Flags of Unity". Este evento reunirá delegações de Portugal, Itália e Malta para celebrar a história, a dança e o património cultural europeu através de um intercâmbio de coreografias e técnicas de bandeiras e danças de época.
A escolha da enRaiz’arte para este projeto é o culminar de cinco anos de dedicação à comunidade e à salvaguarda do património imaterial. A fundadora e atual presidente, Cátia Soares, relata que a associação nasceu da necessidade de preencher uma lacuna cultural que encontrou ao mudar-se de Valongo para Gandra.
"Quando cheguei aqui, comecei a perceber que havia esta falha cultural, de algo mais até a nível infantil. Como me mudei para cá na altura da pandemia e não havia nada, comecei a procurar também alguma coisa para em que os meus miúdos pudessem participar", recorda Cátia Soares, cuja formação base está ligada ao ensino primário.
Foi com base nesta necessidade que a enRaiz’arte se estabeleceu, promovendo música, dança e teatro. O primeiro grande evento, segundo a diretora, foi um encontro de danças realizado em Gandra com um grupo muito reduzido. Contudo, o sucesso ditou a expansão para o Centro Cultural de Paredes.
A associação foca-se em oferecer uma alternativa ao panorama habitual das danças. "Nós tentamos sempre mostrar a outra parte do lado mais comercial das danças, porque quando estamos habituados a ouvir falar num espetáculo de dança, provavelmente falamos mais de street dance, hip hop e funk. Nós diferenciámo-nos um bocadinho por aí", explica Cátia. Ao longo dos anos, exploraram vários ritmos, desde as danças afrolatinas a projetos pontuais para captar faixas etárias mais adultas, mantendo sempre a dinâmica infantil e juvenil.
O sucesso da vertente medieval do grupo nasceu quase por acaso. A responsável revela que "a dança de roda é sempre um tema muito comunitário" e que a oportunidade de se dedicarem à recriação histórica surgiu após o convite de uma freguesia vizinha para atuarem na sua primeira feira medieval.
"Começámos a trabalhar os temas medievais e foi algo que captou a atenção das miúdas todas do grupo, porque se apaixonaram logo pelo tema", conta Cátia Soares. A partir desse momento, as Raízes Medievais começaram a percorrer feiras dentro e fora do concelho, realizando até espetáculos ao vivo com a banda bracarense Odores de Maria.
Mas o que torna as atuações das Raízes Medievais tão cativantes e autênticas? Cátia responde inicialmente com humor – "Porque as obrigo"" –, antes de explicar a verdadeira filosofia do grupo. "É um dos trabalhos das formadoras fazer com que a bailarina se sinta bem. Só assim conseguimos transparecer ao público que quem está a dançar num palco, seja onde for, está a fazer aquilo que gosta. Não acredito que haja aqui nenhuma que esteja obrigada. É o primeiro ponto para passarmos uma boa energia".
O convite para o "Flags of Unity" chegou através do Município de Paredes, que reconheceu a qualidade do trabalho da associação divulgado nas redes sociais. Cátia Soares ainda guarda na memória o momento em que revelou a novidade às jovens bailarinas, no final de uma atuação no pavilhão da Rota dos Móveis.
"Acabámos a atuação, reuni-as e disse-lhes que tinha uma coisa muito importante para lhes contar. Ainda estávamos todas no palco e os pais nas bancadas. Lembro-me perfeitamente de os pais dizerem: 'Mas o que é que se passa? Por que é que elas estão todas a gritar e eu não estou a perceber nada?' Elas ficaram muito eufóricas", relata com entusiasmo.
A experiência, que se dividirá entre cinco dias em Malta em maio e mais cinco dias em Itália em setembro, promete marcar as jovens bailarinas. "Vai ser uma experiência única, claro, por toda a experiência envolvente. Algumas vai ser a primeira vez que vão andar de avião, ou que vão ficar fora de casa. Terão todo um contacto com uma cultura e país diferentes, com pessoas diferentes, que as faz crescer em muitos níveis", antevê a diretora. Cátia descreve o projeto como uma ponte cultural, onde a partilha será essencial, reforçando o reconhecimento do trabalho de salvaguarda do património desenvolvido em Paredes.
Apesar dos sucessos alcançados, Cátia Soares não esconde que captar novos elementos para as artes performativas é "um trabalho de partir pedra". A presidente nota que, nas faixas etárias mais jovens, a dança tem de competir com a agenda sobrecarregada entre o futebol, a catequese e a escola, sendo necessário "mudar mentalidades para este tipo de atividades". Ainda assim, a recetividade da comunidade é calorosa, com o grupo a ser constantemente requisitado para festas populares e eventos de angariação.
Cátia reforça ainda que os benefícios destas atividades no desenvolvimento infantil são indiscutíveis: "As capacidades vão sendo desenvolvidas desde cedo. Vamos vendo os resultados e o quanto é bom, notamos que realmente há ali uma diferença na criança que conseguiu alcançar os objetivos a que lhe propusemos no início".
Para aqueles que sintam curiosidade pelo trabalho desenvolvido na enRaiz’arte, o convite de Cátia Soares é simples e aberto. "Através das redes sociais hoje em dia é fácil o contacto. É fácil também conseguirem encontrar a morada da nossa sede, aqui em Gandra. Há sempre abertura para aulas experimentais, sem qualquer tipo de compromisso. Basta, no fundo, aparecerem, tentarem perceber se há algo que gostam, que lhes diga alguma coisa, que lhes toque na alma."
