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Opinião
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Opinião: Macacos me mordam, balde de cracas

Ou os oculi e os cirripedes.

Redação

Abracemos o risco de pensar que não estamos

numa agonia, mas num parto; não no fim,

mas no início de um grande espectáculo.

Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco)

Parafraseando um herói da juventude, o truculento Haddock: «Macacos me mordam.»

Levamos o tempo a discutir os oculi da nave, e trocamos os mesmos amiúde, mas a embarcação continua lenta, e vai perdendo momento. Mas ninguém fala do verdadeiro problema: as cracas, essa criatura fascinante, sobejamente estudada por Charles Darwin.

A nossa Câmara mimetiza claramente este fascinante processo evolutivo. Enquanto náuplios, nadam livremente, mas rapidamente se metamorfoseiam em cípides, tendo por único propósito procurar um local para se agarrarem. Para isso, desenvolvem uma visão apurada. Quando agarram a cabeça ao casco, calcificam e perdem o sentido da visão, e estendem os cirros em rede para filtrar o seu alimento.

Até aqui, tudo bem: a evolução, a natureza, a necessidade de sobreviver. Mas quando os mesmos calcificam numa embarcação – chamemos-lhe Câmara Municipal – começam os problemas. O arrasto, a perda de velocidade, a ineficiência de recursos para mover a nave.

Com o descontentamento da tripulação, muda-se a figura de proa (os oculi fenícios, o executivo camarário), numa tentativa totémica para melhorar a viagem. Mas a solução contraria as leis da física: os percebes continuam agarrados ao casco, cegos e calcários. Multiplicam-se exponencialmente, diminuindo ainda mais a velocidade.

A solução? Um pouco mais de energia para compensar o arrasto e manter a velocidade. Tudo bem se dispusermos dos recursos.

Mas o perigo maior não é a perda de velocidade: é a degradação do casco.

Vejamos dois exemplos, entre os muitos que poderiam dar-se.

As caixas de correio electrónico da Câmara. Não funcionam. Ou funcionam apenas para consumo interno, no seguimento da mais antiga tradição Cartuxa. O cidadão escreve, espera, volta a escrever, espera mais. Quando obtém resposta – se obtém –, vem assinada por um cípide qualquer, sem nome, sem rosto, sem olhos. Uma resposta burocrática e estúpida, arrancada a ferros, que não responde ao perguntado. As cracas filtraram o pedido e excretaram a borra burocrática.

A protecção civil. As soluções práticas que se pedem – limpeza de linhas de água, manutenção de acessos, planos de evacuação que não sejam meros aglomerados de árvores mortas para cumprir lei – essas soluções não chegam. Chegam tardias, incompletas, ou não chegam de todo. Porquê? Porque as cracas, agarradas ao casco, sofrem de atrofia sensorial evolutiva. Perderam os oculi. Só sabem estender os cirros e filtrar. As respostas, quando vêm, são um parto instrumentalizado.

Se nada for feito, o casco apodrece e naufragamos.

Por isso proponho: que se limpe o casco, e se ponham as cracas em saborosos pratos cozidas e com limão. Isto é, colocar as mesmas ao serviço do cidadão.

Artur Pereira