Luís Oliveira, coordenador de estrada e das equipas de enfermagem do grupo "Amigos dos Peregrinos - G.F. Penafiel", é um dos rostos desta missão solidária, dedicando os seus dias a cuidar daqueles que caminham movidos pela fé.
O grupo "Amigos dos Peregrinos - G.F. Penafiel" cumpre esta quarta-feira, 13 de maio, o momento mais aguardado da sua jornada. Nesta data, em que os católicos recordam a primeira das aparições de Nossa Senhora aos três Pastorinhos, o grupo penafidelense alcança o ponto alto da sua peregrinação no Santuário de Fátima.
Luís Oliveira, coordenador de estrada e das equipas de enfermagem do grupo "Amigos dos Peregrinos - G.F. Penafiel", é um dos rostos desta missão solidária, dedicando os seus dias a cuidar daqueles que caminham movidos pela fé.
Aos 33 anos, o percurso de Luís Oliveira é pautado pela dedicação ao próximo. Natural de Penafiel, divide o seu tempo como técnico superior do município e bombeiro voluntário na sua cidade, uma farda que veste com orgulho há cerca de dez anos. A sua ligação à peregrinação tem raízes profundas na família. Como o próprio explica, o seu pai e a sua mãe têm uma vasta experiência nos caminhos de Fátima, ultrapassando já as duas décadas de jornadas a pé.
A criação do grupo "Amigos dos Peregrinos" surgiu da constatação de uma falha na sua terra natal. "Sempre fiz parte da direção do Grupo Folclórico de Penafiel, em que o meu pai é presidente, e ambos íamos a Fátima a pé. Fui durante 11 anos como peregrino", começa por contar. No entanto, "durante o caminho sentíamos a necessidade de criar algo igual para Penafiel. Tínhamos muitos peregrinos em Penafiel, mas tínhamos esse défice, essa falência, de não haver nenhum grupo que levasse os nossos conterrâneos até Fátima".
Foi dessa vontade conjunta que o projeto ganhou forma. O processo foi rápido e impulsionado pela liderança familiar. "Quando dei por mim, já o meu pai tinha criado todo o enredo, toda a organização, e quando dei por mim só tive que dizer que sim", confessa, assumindo assim a exigente responsabilidade de coordenador de estrada e das equipas de enfermagem. "Pusemos mãos à obra", acrescenta.
A ligação de Luís à peregrinação começou cedo, com apenas 18 anos, e foi marcada por um imenso desafio físico. Meses antes da sua estreia na estrada, o jovem sofreu uma rotura de ligamentos no joelho. "Foi um bocado penoso. A primeira peregrinação foi um bocado penosa", partilha. No entanto, o sofrimento transformou-se numa lição de vida. "Foi essa peregrinação também que me deu força e que me fez perceber que não havia obstáculos que a gente não conseguisse ultrapassar se estivesse com a mente forte e fé", sublinha.
Esta primeira jornada não foi feita ao acaso. Tratou-se do cumprimento de uma promessa motivada por um problema de saúde grave que o poderia ter deixado invisual. "Os dois primeiros anos foram de promessa, porque eu aos 18 anos de idade fiquei quase cego e, entretanto, fiquei curado a cem por cento", revela emocionado. Após o cumprimento desta promessa inicial, a motivação transformou-se numa constante ação de graças. "O resto dos outros nove anos não foi por promessa. Eu ia sempre com o objetivo de agradecer a vida que tinha e o que ia acontecendo durante o ano", explica o penafidelense.
A transição de peregrino para coordenador logístico permitiu a Luís ter uma visão mais crítica sobre as necessidades na estrada. Ao longo dos anos, notou que muitos dos problemas físicos agravavam-se devido a intervenções incorretas. "Nós percebemos, enquanto peregrinos, que havia um grande défice nos grupos em que nós caminhávamos de profissionais de saúde. Ou seja, havia muita gente a ajudar, mas dessa muita gente que havia, pouca era habilitada para o efeito", constata.
A solução para este problema foi construída dentro de casa. Juntamente com a sua esposa, que é enfermeira no Hospital de Santo António, Luís decidiu elevar o padrão de assistência do grupo de Penafiel. "Decidimos: ok, vamos criar uma equipa, mas uma equipa habilitada, multidisciplinar, que sabe o que vai fazer para podermos dar os melhores cuidados aos peregrinos que levamos", detalha.
A estrutura montada impressiona pela dimensão e especialização. A equipa é hoje composta por 22 elementos altamente capacitados, incluindo 16 enfermeiros, um osteopata, um fisioterapeuta, duas auxiliares de saúde e duas médicas. "Como também já tinha a função de coordenador de estrada, ou seja, a responsabilidade do percurso, da colocação das equipas de enfermagem, da segurança e dos caminhos, era minha também, então aliámos o útil ao agradável", afirma, garantindo assim uma resposta imediata a qualquer emergência, ativada de imediato através de contacto rádio e telefone.
O trabalho desta equipa de saúde vai muito além de tratar feridas no final do dia. Consiste num acompanhamento contínuo e dinâmico. "O trabalho desta equipa passa muito pelo apoio na estrada. Nós temos sempre uma equipa de dois em dois quilómetros para dar apoio direto aos peregrinos", esclarece Luís. Estes profissionais garantem não apenas o alívio das dores, mas também a gestão de mantimentos: "Além dos cuidados dos pés, também dão apoio alimentar e apoio de hidratação, contando águas para os caminhos".
No final de cada etapa, a logística transforma-se numa verdadeira clínica de campanha. Ao chegarem ao pavilhão de descanso, as bancas de enfermagem já se encontram montadas para receber quem precisa de tratar bolhas ou reações alérgicas. As condições meteorológicas ditam frequentemente os desafios da equipa. "Este ano não existiu tantos problemas com as bolhas, de forma admirável, derivado da quantidade de água que choveu. Mas existiu muitos problemas musculares e articulares", observa Luís, explicando que a equipa multidisciplinar se reúne todos os dias para afinar as estratégias de tratamento.
Curiosamente, recrutar estes 22 profissionais de saúde para um trabalho exaustivo e voluntário foi uma tarefa simples. "Muito sinceramente não foi difícil. Assim que dissemos que em Penafiel também iria haver uma organização do Grupo Folclórico de Penafiel, os Amigos dos Peregrinos, eles disponibilizaram-se logo a fazer parte", conta com orgulho. A fidelidade do grupo é tanta que o núcleo duro se mantém desde a fundação, há três anos, existindo inclusivamente uma "lista de espera" para integrar a equipa de saúde.
Todo este esforço traduz-se numa sensação de profunda tranquilidade para quem caminha. Através das redes sociais e do contacto direto, o feedback é claro: "O cuidado que a equipa de enfermagem tem e que as equipas de estradas têm é muito importante para eles chegarem a Fátima. Sentem-se apoiados, sentem-se seguros", garante. Para reforçar esta segurança, a comitiva conta com "uma ambulância equipada ao pormenor com uma equipa muito competente e muito capaz de um bombeiro voluntário de Penafiel, ou seja, uma equipa de quatro elementos".
O dia 13 de maio marca sempre o ponto alto de qualquer peregrinação, um dia em que a emoção se sobrepõe a qualquer limitação física. Luís Oliveira recorda a diferença entre chegar a pé e chegar como responsável logístico. "Como peregrino, dizia que quando chegava ao santuário já conseguia voltar para trás. Desaparecia tudo, desaparecia as horas todas de cansaço", confidencia.
Hoje, a exaustão da organização é colossal, marcada por uma semana sem horários para dormir ou para comer adequadamente. Contudo, a recompensa no momento da chegada é inigualável. "Quando se entra dentro do santuário, e mesmo na chegada, quando estamos a receber os nossos peregrinos, o sentimento de gratidão que eles têm para connosco, o olhar deles muitas das vezes... O sentimento de gratidão é tão grande que tudo vale a pena", partilha emocionado.
É este calor humano que alimenta a vontade de regressar no ano seguinte. O lema do grupo é muito claro: "Ajudar os nossos e todos os peregrinos a chegar a Fátima da melhor forma". E esse reconhecimento transcende o próprio grupo de Penafiel. Luís descreve como é gratificante chegar ao recinto e "ver outros grupos que partem de perto de nós a bater palmas e a saudar-nos e a agradecer-nos".
No fundo, a jornada não é apenas um feito desportivo ou logístico, mas uma profunda experiência espiritual que dissolve individualismos. Questionado sobre a solidariedade que se vive no seio do santuário durante as cerimónias, Luís remata com a essência de quem percebe o verdadeiro significado de ser peregrino: "A fé é o que nos move, nós temos que ter fé em alguma coisa. E o sentimento que se sente dentro do santuário é que viemos todos juntos, todos pela mesma causa, todos pelo mesmo motivo, unidos pela mesma fé".