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Marco de Canaveses
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A 'mulher-andor': Marta caminha para Fátima com a "Senhora" às costas

Marta Dinis não caminha sozinha para o Santuário. Nas costas, transporta uma imagem de Nossa Senhora de Fátima adaptada a uma mochila, um "andor" de seis quilos e meio que é o símbolo visível de uma vida de promessas.

De Baião para as estradas de Portugal, esta mulher de 47 anos leva o peso da gratidão por um milagre recente: o coração novo que salvou a vida da prima no 13 de maio passado. Fomos conhecer a história de quem faz da estrada a sua maior oração.

Para quem cruza com ela nas bermas da estrada, o vulto é inconfundível. Marta Dinis, natural de Baião, transporta o sagrado num suporte improvisado por um amigo. Mas, a sua história com a "Senhora" não começou agora, nem numa mochila. Começou quando tinha apenas dois anos. "A minha mãe colocava-me em frente à televisão no 13 de maio. Lembro-me perfeitamente de chorar com um lencinho na mão a fazer o 'adeus' à Nossa Senhora", recorda. Aquele lencinho de bebé foi a semente de uma fé que a faz caminhar a pé há mais de 20 anos, sempre com um propósito diferente, mas com a mesma urgência.

O "Milagre" de 2025: O telefonema no recinto

A peregrinação deste ano tem um sabor a vitória sobre a morte. No ano passado, Marta atravessava uma das fases mais delicadas da sua vida, a nível pessoal e profissional. Estava "emocionalmente abalada", mas foi a saúde da prima que a colocou à prova. Internada em Coimbra, a familiar aguardava desesperadamente por um transplante de coração que não aparecia.

"No dia 12 do ano passado, eu estava a entrar no Santuário quando a minha tia me ligou. A minha prima estava muito mal, as coisas podiam não correr bem". Ali, aos pés da Capelinha das Aparições, Marta entregou a dor. "Pedi à Nossa Senhora por ela. Passado três dias apareceu um coração". Hoje, um ano depois, a prima está bem. A mochila de seis quilos que Marta carrega agora é o seu "obrigado" físico, uma prova de que a fé, às vezes, move órgãos dentro de peitos cansados.

A Fé que não treina no ginásio

Marta desmistifica a imagem do peregrino atleta. "Não faço preparação nenhuma. Não faço ginásio, não faço caminhadas, não faço nada". A sua força de vontade é o único motor para os quilómetros que separam Soalhães (Marco de Canaveses) de Fátima. O grupo, liderado por Ana Teresa, filha do histórico 'Quim Cuco', é o seu porto de abrigo desde 2016.

A logística é feita por etapas. Começaram em Soalhães, passaram por Castelo de Paiva e Pinheiro da Bemposta, para agora enfrentarem os últimos três dias e meio seguidos. Na mochila? O essencial: "Chocolates, porque sou viciada, barritas, água, meias suplentes, capa de chuva e protetor solar". Mas, o que realmente a segura são os amigos: o Francisco, o Filipe e o Ricardo. "São amigos para a vida que o caminho me deu. O ano passado, duas das minhas melhores amigas também acompanharam a minha dor emocional e a minha vontade de chegar".

A "Senhora" e o beijo do Salvador

A religiosidade de Marta é honesta e despojada de protocolos. Faz questão de separar a "instituição Igreja" da sua devoção a Fátima. "A religião foi-me, sim, incutida pelos pais, mas deixei de frequentar. A minha religião é a fé na Nossa Senhora. É a ela que me agarro nos percalços".

Essa herança passa agora para os filhos. Inês, de 27 anos, ainda sonha fazer o percurso com a mãe. Salvador, de 11 anos, vive-o à sua maneira. No início, ficou preocupado com o peso da mochila que a mãe ia levar ("aquilo é um bocadinho pesado"), mas hoje transborda orgulho. Todos os dias, antes de ir para a escola, o pequeno Salvador dá um beijo na imagem da Nossa Senhora que Marta mantém sempre com uma vela acesa em casa. É o legado de um "coração aberto à fé", como Marta faz questão de incutir.

Ser peregrino: Sorrisos e lágrimas

A chegada ao recinto é sempre um momento de "alívio gigante". Marta recorda a emoção do ano passado, quando lhe permitiram entrar na Capelinha, junto à imagem, para oferecer rosas e chorar a sua promessa. Para ela, ser peregrino é muito mais do que caminhar; é interajuda e empatia.

O seu "andor às costas" tornou-se um símbolo de esperança para outros. "As pessoas pediam-me para tirar fotografias, davam-me carinho. Nota-se uma fé gigante nestas alturas". Para quem ainda não teve coragem de dar o primeiro passo, a mulher que carrega a santa e o milagre deixa um conselho simples: "Abram o coração. Se assim for, terão a resposta de quando é o momento certo para ir".

Marta Dinis continua na estrada. Enquanto tiver saúde, o peso da mochila será sempre mais leve do que a gratidão que traz no peito. Em cada passo, um agradecimento; em cada quilómetro, o bater de um coração que voltou a ter vida graças a uma prece feita em Fátima.