Amândio Santos e Aldo Cardoso, dois ciclistas da Associação Desportiva de Amarante (ADA), converteram a mítica subida da Senhora da Graça no "topo do mundo", completando o desafio "Everesting" após mais de 22 horas de superação física e mental.
Não foi uma promessa, nem uma estratégia de marketing. Foi, nas palavras dos próprios, uma "loucura" decidida numa semana e executada no maior dos segredos.
Amândio Santos e Aldo Cardoso, dois ciclistas da Associação Desportiva de Amarante (ADA), converteram a mítica subida da Senhora da Graça no "topo do mundo", completando o desafio "Everesting" após mais de 22 horas de superação física e mental.
Para o comum dos mortais, subir a Senhora da Graça, em Mondim de Basto, é um feito digno de registo. Para os ciclistas da Volta a Portugal, é o palco das decisões. Mas, para Amândio Santos e Aldo Cardoso, subir uma vez não chegava. Era preciso subir quinze vezes. Ou melhor, era preciso pedalar até que o GPS marcasse a altitude da montanha mais alta do mundo: o Monte Evereste.
O desafio do "Everesting" é simples no conceito e brutal na execução: escolher uma subida e percorrê-la (subindo e descendo) repetidamente até atingir um desnível acumulado de 8.848 metros positivos, tudo num limite de 24 horas.
A ideia surgiu de forma quase espontânea. "Foi decidida de uma semana para a outra", conta Amândio Santos. O que começou como uma conversa sobre ir à Senhora da Graça fazer "duas ou três subidas" rapidamente escalou. "Eu disse ao meu colega: para quem vai subir três, tentamos fazer um Everesting". Feitas as contas, o veredito era claro: seriam necessárias 15 subidas ao Monte Farinha.
Munidos de uma carrinha de apoio, alguns snacks, géis e barritas comprados no dia anterior, a dupla partiu de Amarante rumo a Mondim de Basto na madrugada de sábado, dia 18 de abril. O plano era discreto. "Fizemos questão de não dizer a ninguém. Caso corresse mal, ninguém sabia", confessa, de forma divertida, Amândio.
O cronómetro começou a contar às 06h40. O Parque de Merendas da Senhora da Graça serviu de base logística solitária. Durante o dia, a presença constante dos dois ciclistas no "sobe e desce" da montanha não passou despercebida aos turistas e locais. "Perguntavam-nos se era promessa. Nós dizíamos que era apenas uma maluqueira".
Se as pernas sentem a inclinação, é a cabeça que dita o ritmo. Amândio Santos revela que o momento mais crítico surgiu cedo, por volta da quinta subida. Um erro na nutrição e hidratação, fruto de um ritmo inicialmente mais baixo que o levou a descuidar a ingestão de calorias, quase deitou tudo a perder. "Fui um bocado abaixo. Comecei a pensar como seria possível acabar isto".
Valeu-lhe o espírito de equipa de Aldo Cardoso. O segredo do sucesso esteve na compensação mútua: quando um vacilava, o outro puxava. Aldo teria o seu momento de crise mais tarde, após o jantar, quando a noite e o frio apertaram. O apoio mútuo e uma paragem estratégica para almoçar num restaurante na base da subida foram os pontos de viragem necessários para manter as rodas a girar.
As condições atmosféricas foram outro adversário de peso. Se de manhã o frio obrigava a agasalhos, o esforço das subidas trazia a transpiração, tornando as descidas momentos de risco devido ao arrefecimento brusco. "À noite já estava bastante frio. Já usávamos a roupa toda que tínhamos levado", recorda Amândio.
A precisão foi levada ao extremo. Ao terminarem a 15.ª subida, a contagem ainda não era suficiente. Para não ficarem "muito rentes" aos 8.848 metros exigidos, a dupla decidiu descer novamente e subir até meio da montanha, garantindo que o registo final marcava redondos 9.000 metros de desnível positivo.
No total, foram 16 horas de tempo de andamento (cerca de 22 horas no total da jornada) e 240 quilómetros percorridos. Mas, para estes "conquistadores do inútil", os quilómetros foram apenas um acessório; o que importava era a verticalidade.
Agora, o trajeto será enviado para homologação oficial, o que permitirá a Amândio e Aldo figurarem no "Wall of Fame" mundial do Everesting, um mural onde constam os nomes de atletas de elite e amadores de exceção.
Para quem olha para este feito e sente o impulso de tentar, Amândio Santos deixa o aviso: "Tem de haver treino". O ciclista, que já pedala com regularidade competitiva há três anos, sublinha que o segredo não está apenas nas pernas, mas na escolha do companheiro de aventura e na resiliência mental. "Não vale a pena pensar em quanto falta. É ir andando, com menos velocidade e menos força, mas continuar".
O desafio terminou por volta das 04h00 de domingo. Não houve euforia, apenas uma profunda satisfação. E prova da fibra destes atletas é que, logo na segunda-feira, Amândio já estava novamente em cima da bicicleta para a "recuperação ativa". Afinal, para quem subiu o Everest em Mondim de Basto, o horizonte é o único limite.