A "alergia à primavera" é, contudo, ainda vista como um simples incómodo, que traz espirros e olhos vermelhos. Mas a realidade é mais complexa e merece um olhar atento.
O primeiro passo é saber o que desencadeia os sintomas. Na nossa região, entre abril e julho, as gramíneas (como o azevém) libertam nuvens invisíveis de pólenes. Árvores como o carvalho começam a polinização em março, enquanto o cipreste e o plátano entraram nesse processo logo no início do ano. Já a parietária ou alfavaca-de-cobra poliniza de março até setembro. A este cenário, juntam-se, por vezes, os fungos exteriores – que proliferam com a humidade e o calor – e podem provocar manifestações semelhantes às da alergia aos pólenes, contribuindo para dificultar o diagnóstico.
Os sintomas que surgem nas reações alérgicas a todos estes agentes são muito variáveis. A primavera não afeta apenas o nariz ou os olhos; pode igualmente dar origem a tosse isolada ou mesmo a asma. E a pele também sofre: a urticária de contacto surge, em crianças, após brincarem na relva; verifica-se o agravamento do eczema atópico; e tornam-se mais frequentes episódios de prurigo estrófulo ou urticária papular (alergia à saliva de insetos). Com mais tempo de vida ao ar livre, aumenta ainda o risco de picadas de vespa ou de abelha, que podem ter consequências graves em caso de alergia ao veneno.
Embora a alergia mais comum em Portugal seja aos ácaros, são os pólenes que têm maior destaque. Isto acontece porque os ácaros causam sintomas mais contínuos e insidiosos, enquanto os pólenes, com os seus picos e variações súbitas, originam crises exuberantes.
Para quem conhece de perto estas crises, há uma mensagem clara: o objetivo do tratamento é conseguir “zero sintomas”, sem ter de evitar idas ao campo ou atividades ao ar livre. A Imunoalergologia permite hoje que o contacto com pólenes deixe de ser um obstáculo. Devolvemos, assim, a normalidade e a qualidade de vida a quem tem alergia. Mesmo na primavera.
Assim, embora pequenos gestos ajudem, como proteger os olhos com óculos de sol em dias de vento, o passo decisivo é o diagnóstico correto. Não se limite a "aguentar" a estação mais temida. Atualmente, temos respostas para que possa desfrutar do contacto com a natureza, sem limitações. E sem sintomas!
João Almeida Fonseca
